A fase mística...

E então temos o surgimento do que a sabedoria popular tende a chamar de "A VACA".

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Depois de ter sido sistematicamente vítima da própria carência e andar sozinha pelo vale dos desesperados, a mulher descasada e sem filhos passa por uma fase de profunda transformação e auto-questionamento de altíssimo nível filosófico.

Trata-se, na verdade, de uma fase “zen”. “Zen” namorado, “zen” perspectiva, “zen” nada para fazer no sábado à noite … Em resumo, a questão “filosófica” principal que se coloca é a seguinte: você é bonita, solteira e descolada. Por que então só aparecem nerds e “esquizóides” na sua vida?

A resposta para tão profunda auto-análise é quase sempre a mesma: só pode ser “carma”.

Cartomantes, pais-de-santo, mapa astral, tarô, búzios, vidente por telefone, gurus internautas, o que for. Pelo menos seis entre dez mulheres consultam de um a todos os profissionais citados na tentativa de justificar o “platô” romântico em que se encontram (as outras quatro não falam do assunto para não atrair “maus fluidos”). Depois de inúmeros rituais e simpatias, depois de dezenas de reais gastos para “desfazer trabalho” ou “abrir os caminhos”, (fora usar o sal grosso do churrasco no “banho de descarrego”…); as mulheres provavelmente obterão desses profissionais a valiosa revelação de que “os astros reservam uma surpresa para seu futuro”.

De posse desse importante “conhecimento”, a descasada passa por um período introspectivo, assumindo a postura de “aguardo pela tal surpresa futura”.

É nessa fase que ela volta seu olhar para o lugar onde vive e decide buscar um “astral” melhor também para seu “habitat”. Dessa forma, todo o seu tempo livre acaba sendo gasto para mudar, se não toda a decoração, pelo menos uma quantidade exorbitante de detalhes. Sapinhos esquisitos, budas em posições desconfortáveis, fontes, pedras de signo, cristais, amuletos de qualquer religião, incensos do anjo e essências completam o novo quadro místico. Nessa fase, muitas mulheres se arriscam a deslocar algum osso importante ao empurrar a cômoda para um ângulo de 23 graus em relação à cabeceira da cama, só para que a energia “yoko” não vá de encontro à energia “ono” da mesinha de cabeceira.

Tudo é válido na tentativa de se livrar do marasmo. A fase “zen” acaba quando o ruído da fonte em miniatura começa a dar nos nervos (e, vamos combinar, dá vontade de fazer xixi também…) e você começa a usar as pedrinhas do jardim japonês para tentar acertar a vidraça de um vizinho barulhento.

Claro, isso não é uma regra. Algumas são mais ou menos susceptíveis ao “lado zen”. Muitas mulheres consideram o universo esotérico apenas como uma forma de ópio social, e se recusam terminantemente a buscar uma solução não inteiramente racional para o que elas pensam ser “o problema”.

Assim, o dinheiro que as outras gastam fazendo o mapa astral e comprando objetos estranhos, estas vão gastar em longas e intermináveis sessões de terapia. De todas as linhas, inclusive a do psicodrama.

Já nas primeiras sessões, a mulher é aconselhada a adotar uma postura mais assertiva perante a vida. Mais confiante, ela começa a tentar ocupar seu lugar no universo, expressando-se cada vez mais como mulher e ser humano. Exteriorizando seus mínimos anseios e pensamentos.

É mais ou menos nesta altura que temos o surgimento do que a sabedoria popular tende a chamar de “A VACA”.

*Imagem Pixabay

**Conteúdo retirado do Livro “Aperte o cinto, seu marido sumiu”, com a devida autorização e e revisão da autora.

Carla é escritora. Para ela, a vida começa e recomeça quantas vezes forem necessárias, a sua personalidade e o seu senso de humor que ditarão o quão divertida a jornada será.