A louca tecnológica

Não há melhor amiga ou pior inimiga para a mulher que acaba de se separar do que a tecnologia. Acostumada a ter respostas rápidas para tudo, neste primeiro momento de confusão e carência, aquele número sobre o ícone de notificações ou aquele "assobio" do WhatsApp pode enlouquecer a desavisada.

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Não há melhor amiga ou pior inimiga para a mulher que acaba de se separar do que a tecnologia. Acostumada a ter respostas rápidas para tudo, neste primeiro momento de confusão e carência, aquele número sobre o ícone de notificações ou aquele “assobio” do WhatsApp pode enlouquecer a desavisada.
Você pensa que não, que segura numa boa e se garante… Mas todas caem na armadilha.
Após um dia exaustivo de trabalho, em que, talvez, a duras penas, tenha até deixado o celular desligado, você vai para casa, para seu merecido descanso, ansiando – ou se conformando- por uma noite tranqüila junto ao televisor e/ou à geladeira. Tudo perfeitamente normal, até que, ao colocar a chave na porta, a metamorfose acontece.
Por mais desencanada que seja, por mais relaxada ou cansada que possa estar, sem mais nem menos, sem que tenha qualquer controle, a maldita pergunta simplesmente surge em sua mente: “Será que alguém me mandou uma mensagem”? E daí só piora, “será que alguma pessoa interessante entrou no meu perfil?”, “será que alguém no mundo me curtiu?”…
Nove entre dez mulheres*, se já não estão com o dedinho no celular no elevador, assim que entram em casa, correm para seus tablets e computadores, literalmente em busca de “um sinal” de esperança.
Quando ele – o tal sinal – surge, surge também aquele sentimento estranho, que é misto de euforia e angústia. Euforia por ter sido lembrada e angústia pela enorme probabilidade de que, se não foi sua mãe publicando mensagem de reza de desencalhe na sua página, é aquela sua amiga “bacana” que te encontrou saindo suada da academia, tirou uma foto em que ela está radiante e você parecendo um pimentão que caiu da banca, escreveu “Amigas tentando queimar as calorias” e marcou você para o público em geral.
Pois é, nesse comecinho difícil, para muitas, o número de curtidas numa postagem significa a diferença entre um ser “socialmente adaptado” e “uma total pária fracassada que ninguém quer saber se está viva ou morta”.

Sem o símbolo milagroso, a única coisa que você consegue imaginar é que passará o resto de seus dias sozinha, jogada às traças, e que quando morrer será comida pelas dezenas de gatos que irá acumular ao longo de seus anos de solidão.
Drástica e melodramática… É, eu sei… E pensar que há alguns meses você podia jurar que jamais seria uma “dessas”. Bom… Você também achou que seu casamento era para sempre e olha só… Simples assim, o fato é que, às vezes, a gente se engana…
Pois é, sua vida agora parece uma novela mexicana… Isso mesmo, a terapia ainda não fez efeito nessa fase e tudo é motivo para drama. E daí? Chore, se descabele! olha só que beleza: você pode fazer isso! Você tem esse direito! E, além do mais, não tem ninguém olhando mesmo! Taí uma vantagem de se estar sozinha! Não há testemunhas…
Mas, será que vale a pena tudo isso?
Por causa de uma curtida a mais ou a menos? Não se desespere. E daí se metade das notificações são do seu sobrinho querendo jogar crush sei-la-o-que? Tá, eu sei que “”crushed” no momento está você, mas nem todo mundo precisa ficar sabendo, né?
Antes de voltar para a cama com o seu fiel amigo chocolate e sua colega depressão, pense: afinal, o que você esperava que acontecesse? Quem ia te mandar mensagem? Você lá conhece alguém que não seja também amigo do seu ex? Por acaso “cutucou” alguém para esperar uma “cutucada” de retorno? E, cá entre nós, você lá sabe o que raios é isso? Aliás, #ficaadica, antes de embarcar nesse cenário virtual da paquera, fale com alguém que entenda os novos tempos e as novas gírias! Peça conselho para quem sabe das coisas!… Isso, ligue para a sua afilhada de 12 anos. Ela vai te revelar os macetes…
Pois é, minha filha, enquanto você só usava a internet para procurar receita de quiche de cogumelo selvagem que seu ex disse que a esposa de não sei quem fazia, o mundo girou. E enquanto seu casamento rodava, não só o mundo girava, como se conectava. Agora você tem que correr atrás do prejuízo.
Calma! Ainda dá tempo. Não é porque hoje metade das notificações foram sobre o evento fake da sua colega do primário que você é um caso perdido…
Reveja o “panorama” da sua situação atual:
Você finalmente é dona do seu nariz e da sua vida, e o que você fizer dela daqui para frente será única e exclusivamente da sua conta (ah, e responsabilidade também, coisa que as vezes, na empolgação, a gente esquece…).
Tente pensar em algumas das vantagens de se estar sozinha… (Eu disse ESTAR, drama queen, não SER, você, mais do que ninguém, sabe que nada fica igual para sempre…)
Olha só… Os longos jantares semanais com a família dele nãoexistem mais, e, sendo assim, você tem mais uma noite livre para fazer aquele curso de dança exótica, zumba, Pilates, cerâmica ou capoeira para o qual você nunca tinha tido tempo antes.
Você agora é a dona absoluta do controle remoto e pode tirar da programação todos os 430 canais de esporte que ele ficava assistindo o domingo inteiro… E além disso, é a única usuária da pia do banheiro!!! Só saber disso já serve para dar um “up” no astral.
Claro, a princípio isso pode parecer pouco, mas você acabou de se separar. O que você queria? E sim, é preconceito achar que todos os caras da sua aula de Zumba são gays. Assim como os bombados/sarados da academia. Provavelmente são, digo, é… Preconceito, quero dizer… Enfim, não é disso que se trata.
Continuando: foque nas suas conquistas iniciais.
Você pode mandar às favas todos os amigos malcheirosos do seu “ex” que era obrigada a aturar e, de quebra, pode também se livrar de alguns dos seus que já não servem mais (de preferência, inclua aqueles amigos-da-onça no pacote.

Carla é escritora. Para ela, a vida começa e recomeça quantas vezes forem necessárias, a sua personalidade e o seu senso de humor que ditarão o quão divertida a jornada será.