A menina que fugiu da torre

As histórias que contam a nós, meninas, dizem que precisamos ser salvas por príncipes que chegam em cavalos brancos, envolvidos em arreios feitos do mais puro ouro. Enquanto isso não acontece, devemos ficar lá, nos embelezando, esperando o tal príncipe chegar.

princesa fugindo
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– Por que você não gosta de princesas? – perguntou-me a menina numa voz que parecia um pouco magoada – acho que são tão lindas… – continuou ela, com o olhar distante, como se estivesse vendo mundos encantados. – Entre todas as princesas, a Gata Borralheira sempre foi a minha predileta. Acho lindo demais aquele vestido do baile, a carruagem feita de abóbora, e sempre quis colocar meus pezinhos naqueles lindos sapatinhos de cristal. – Seus olhinhos brilhavam enquanto falava.

Ouvi-la dizer isso me levou através do tempo na direção de algo que eu tinha esquecido. Na época eu estava encantada com os contos de fadas, como qualquer menina da minha idade. Depois de ter lido inúmeras vezes a história da Gata Borralheira em meu livro azul de capa dura, eu começara a desejar intensamente que uma fada se materializasse em meu quarto e me transformasse em uma princesa tão linda quanto ela.

Passei a dormir com o livro embaixo de meu travesseiro, noite após noite, uma magia que inventei para atrair a tal fada madrinha. Fiz isso por muitas e muitas noites, até que certa noite finalmente sonhei que a fada surgia em meu quarto e me tocava com sua varinha de condão. Foi incrível!  Em um instante eu me vi em um longo vestido, azul e rodado, salpicado de pedrinhas prateadas como estrelas, e eu era linda como uma princesa. Ainda me lembro da intensidade do que senti naquela noite. 

O fato é que acordei logo em seguida, e voltei a ser eu, apenas eu.

No entanto, aquela noite mudou a forma como passei a perceber o mundo. Comecei a realmente acreditar que tinha o poder de fazer as coisas acontecerem. Fui tomada pela certeza de que possuía poderes mágicos, coisa que nunca contei a ninguém para não correr o risco de perder minha magia.

(Peço a você, que está lendo este livro, a gentileza de guardar esse segredo.)

 – Naquela época você gostava das princesas. Lembra que decidimos deixar o cabelo crescer até os pés? Por que você sempre acaba cortando antes disso? – perguntou a menina.

Lembrei-me da história da Rapunzel. A princesa tinha sido condenada a ficar presa no alto de uma torre, até que um príncipe escalava a torre, agarrando-se em seus longos cabelos, e a salvava de seu isolamento.  Apesar de imaginar que aquilo poderia ser um tanto dolorido, costumava dizer que deixaria meus cabelos crescerem até os meus pés, caso precisasse ser resgatada um dia.

As histórias que contam a nós, meninas, dizem que precisamos ser salvas por príncipes que chegam em cavalos brancos, envolvidos em arreios feitos do mais puro ouro. Enquanto isso não acontece, devemos ficar lá, nos embelezando, esperando o tal príncipe chegar.

Relendo o que escrevi, penso se não é por isso que algumas mulheres, seguindo esse script ao pé da letra, são tomadas por um profundo tédio, muitas vezes rendendo-se à depressão.

Sim, feminino e masculino precisam se unir. Mas ouçam, isso não depende de encontrarmos um parceiro fora de nós, muito menos de sermos príncipes ou princesas.

É no nosso peito que repousa o castelo encantado, o nosso templo sagrado. O castelo é o nosso próprio coração. É lá, entre os verdejantes e férteis campos de nosso mundo interno, que o casamento real precisa acontecer. É lá que o nosso lado masculino, o príncipe, precisa se elevar, escalando e superando os desafios da mente, até chegar ao coração, onde a princesa de divina beleza o aguarda. No castelo sagrado, nessa câmara verde-esmeralda que fica no centro de nosso peito, príncipe e princesa devem se enlaçar, num abraço feito do mais puro amor, para que se dissolva qualquer separação entre eles.

Quando a nossa mente racional masculina abraça dessa maneira a intuitiva sabedoria feminina do coração, algo maravilhoso acontece. Libertamo-nos da torre dos condicionamentos a que fomos todos aprisionados um dia e tornamo-nos capazes de criar a nossa própria vida, com muito mais verdade, inteireza e amor.

Hoje sei dessas coisas, mas vejam, eu nasci mulher, e como quase todas as mulheres de minha geração, fui submetida a um forte condicionamento que me impulsionava a idolatrar príncipes e sua inclinação a salvar princesas frágeis, sempre em perigo.

Muitos de nós, homens e mulheres, rendemo-nos ao poder desses condicionamentos e assim calçamos os tão desejados sapatinhos de cristal, os apertados calçados das tradições, das instituições, das leis. Sofremos a dor de termos nossos alados pés esmagados por moldes que não nos respeitam. Precisamos reaprender a andar descalços nas estradas da vida, sentir a grama sob nossos pés, o calor da terra, a fluidez da água, a maciez das flores. Deixar nossa alma livre para voar.

Por sorte existia algo indomável e criativo em mim. Assim, conforme fui crescendo, passei a imaginar finais diferentes para as histórias dos livros. Muitas vezes inventava finais inesperados, que desafiavam com divertida liberdade os rígidos padrões das histórias tradicionais, o que me trazia imensa satisfação. Escrevi certa vez que o príncipe subia pela torre e abraçava Rapunzel com todo o seu amor. E que nesse momento os dois se transformavam em águias, saltavam pela janela da torre e passavam o resto de seus dias voando juntos, conhecendo o mundo, ajudando pessoas e animais. Lado a lado. Brincando. Felizes. Leves. Sem ninguém ter que salvar ninguém.

Não seria mais interessante esse final?

* trecho do Livro: A MENINA, A ÁGUIA E A TORRE, de Patrícia Gebrim.

Patricia Gebrim já foi dentista. Mudou de rumo, formou-se em psicologia, e em sua caminhada profissional sempre buscou o elo de união entre a psicologia e a espiritualidade. Atende em seu consultório como psicoterapeuta. É também escritora, com diversos livros editados. Dedica-se a escrever com o intuito de favorecer a elevação da consciência de seus leitores, questionando os caminhos condicionados e buscando sempre novos ângulos para a compreensão da vida. Acredita que o pensamento livre e o amor são as forças que podem impulsionar todos nós a uma nova forma de vivermos e nos relacionarmos.