A vaca terapizada

A vaca em si é um elemento de difícil enquadramento, dada a variação comportamental, tanto da própria como dos observadores.

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Após algumas sessões de terapia, é comum que traumas recentes e antigos ressurjam, gerando uma pequena “regressão emocional”. Em outras palavras, algumas mulheres simplesmente retornam à fase em que rosnavam para todas as criaturas com nível de testosterona detectável, como forma de expressar seu descontentamento com o ex.

Muitas se auto decretam livres da “dependência do macho” e passam a observar com desconfiança tudo o que diz respeito a sexualidade e ao romance. Há casos em que pacientes chegaram a desenvolver uma inexplicável aversão a uma variedade de coisas, desde cuecas até filmes com a Meg Ryan.

Todas, sem exceção, usarão o trânsito das grandes cidades como uma maneira barata e eficiente de atingir a catarse, por meio da verbalização de seus sentimentos de angústia. Ou seja, muitas mulheres poderão ser encontradas insultando motoristas de ônibus, caminhão e táxi em uma linguagem de fazer corar o pessoal do extinto Pavilhão 9 do Carandiru.

Essa fase, às vezes, é confundida com a fase de revolta, aquela que ocorre imediatamente após a separação e/ou a chegada da comunicação de que o cartão de crédito foi cortado.

Mas, na verdade, todas as tentativas de auto-afirmação, que não envolvam um novo namorado, são sempre vistas como “revolta” pelas pessoas menos esclarecidas (aqui denominadas doravante como amigas da onça, “falsianes”, fofoqueiros, etc).

Sempre algum amigo e/ou parente solícito usará a expressão “ela ficou revoltada, coitada” para definir a mulher que, por acaso, não estiver no melhor dos humores para jogar tranca com o bisavô do vizinho. Isso se, é claro, ela ainda estiver no grupo das “coitadas”.

A vaca em si é um elemento de difícil enquadramento, dada a variação comportamental, tanto da própria como dos observadores.

Como, na maioria dos casos, os analisadores são ou homens ou mulheres rivais, a exata catalogação da vaca vem encontrando sérios questionamentos na comunidade mais erudita.

Muitos homens, por exemplo, tendem a catalogar como “vacas” todas as mulheres que não seguirem rigorosamente o papel idealizado de presa e/ ou que não pertençam ao seu círculo familiar. Ou seja, basta não dar bola para mais um nerd que você será imediatamente chamada de “vaca”, e basta sair com ele para entrar para o grupo das “coitadas”.

Agora, se a mulher ousar assumir um papel, digamos, mais liberal, ou “pró-ativo”, optando por escolher parceiros no lugar de namorados e – oh!,horror- escolhendo, de livre e espontânea vontade, por não ter um relacionamento fixo e sair com dois ou mais membros do sexo masculino, então o caso será muito mais grave. (Matematicamente, este é um fenômeno cada vez mais raro de se acompanhar devido ao decrescente número de espécimes disponíveis para a experiência – o que na linguagem leiga se traduz por “a coisa tá cada vez mais feia lá fora”).

Basicamente, se a mulher decidir escolher “parceiros” e não “namorados”, e em resumo assumir uma prerrogativa que é mais comum a qualquer homem de qualquer idade, ela imediatamente se transformará, de acordo com a opinião científica e abalizada de homens machistas e mulheres invejosas, em uma mutação genética conhecida como “a vaca- galinha”.

A “vaca-galinha” é um personagem relativamente reconhecível e independe do estado civil da mulher. A única variação no caso das descasadas é a amplitude de comentários, que variam desde o “ah, então era ela que não prestava mesmo”, até o “coitada, ela está perdida”, sendo que, neste último comentário, temos de novo a sutil miscigenação dos termos “vaca e coitada”.

Entendendo as diferenças:

Segundo a sabedoria popular, em muitos casos as “vacas” nada mais são do que o resultado da terapia feita nas “coitadas”.

Para evitar maiores confusões, além da explicação dada anteriormente, revelamos também, em primeira mão, uma outra maneira fácil de diferenciar as vacas das coitadas:

Apesar de ser uma equação simples, é curioso notar que se trata ao mesmo tempo de um círculo vicioso:

Coitada + Terapia = Vaca

Vaca + Prozac = Coitada pró-ativa

Assim, não se importe muito se te chamarem de “vaca”, pois, para os leigos, todas as separadas são na verdade umas “coitadas” (com exceção das mães deles, que curiosamente para os seus filhos são umas santas, e para várias de nós, na maioria das vezes, são umas “vacas”…).

*Imagem Pixabay

**Conteúdo retirado do Livro “Aperte o cinto, seu marido sumiu”, com a devida autorização e e revisão da autora.

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Carla é escritora. Para ela, a vida começa e recomeça quantas vezes forem necessárias, a sua personalidade e o seu senso de humor que ditarão o quão divertida a jornada será.