A vida e a morte da mulher da vida dele

No dia em que o vi pela primeira vez eu entendi. Eu não tinha escolha. Eu era a mulher da vida dele. Aceitei feliz o meu destino. Me senti especial. Aceitei o tempo dele, o jeito dele, os erros dele. Os defeitos...

4723657763_f85d0d2b36_b

No dia em que o vi pela primeira vez eu entendi. Eu não tinha escolha. Eu era a mulher da vida dele. Aceitei feliz o meu destino. Me senti especial. Aceitei o tempo dele, o jeito dele, os erros dele. Os defeitos…

Amei cada um deles. Eram tantos. Amei as qualidades também. A voz que parecia me abraçar de dentro pra fora, o peito largo onde eu me sentia a mulher mais segura do mundo.

Amei a unha do pé impossível de cortar direito, os fios de cabelo defendidos um a um com uma determinação impressionante. Não sei se ele sabia mas eu o teria amado mesmo sem nem um fiozinho.

Eu era a mulher da vida dele, esqueceu?!

E com essa certeza eu me moldei e me esforcei bravamente pra me tornar a mulher que ele queria. Me anulei aos poucos. Guardei meus gostos e meu disco do The Doors no fundo da gaveta, atrás das coisas boas de verdade. Aprendi a gostar de vinho e acreditei não gostar mais de cerveja. Minhas saias ficaram mais compridas, minhas roupas mais pretas.

Eu ansiava sua chegada, saltitava até a porta como um cachorro sedento, venerando cada segundo de sua atenção, cada centímetro da sua pele.

Vivia minha vida contando os dias em que estávamos juntos. Descartando tudo o que não tinha importância…. Os dias sem ele, meu orgulho, meu amor próprio, meus discos de Janis Joplin, meu gosto por almofadas vermelhas, minha vontade de escrever.

Eu não era mais nada, só a mulher da vida dele. Meu coração batia por ele, meu mundo girava em torno dele. Dediquei meu tempo pra fazer ele feliz. Me enchi de orgulho de mim mesma a cada vitória dele, cada conquista.
Fiz tudo o que eu podia. Tentei.

Até que sua presença já não era tão esperada. A constante insatisfação dele fazia a arte de fazê-lo feliz uma obra tão complexa, que me cansava antes mesmo de começar. Passei a gostar da paz da distância. A calmaria que era não precisar ser a mulher da vida dele.

Já nem me importava com as outras tantas mulheres que sempre roubaram seu tempo e minha auto estima.
Me esforcei tanto pra me tornar quem ele queria que esqueci que eu era a mulher da vida dele.
De repente, entendi.

Eu já não queria o gosto de nada dele na minha pele. Já não queria o cheiro de nada dele na minha boca.
E tudo se perdeu.

Eu já não era mais a mulher da vida dele e ele nunca foi o homem da minha vida.

 

 

Siga Clara Stark também no facebook.com/sempreclara/

 

 

Clara é escritora, divorciada, mãe, apaixonada, feliz. O seu maior prazer é deixar as palavras brincarem na sua cabeça e assumirem o controle. Recomeça todos os dias, se equilibrando em mágoas e amores.