A VIDA É ASSIM - o Diário de Verônica Volúpia

Sábado quente de dezembro, nenhum compromisso à vista, dois ou três convites pouco empolgantes. Resolvi me dar uma noite de orgias. Orgias gastronômicas.

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Sábado quente de dezembro, nenhum compromisso à vista, dois ou três convites pouco empolgantes. Resolvi me dar uma noite de orgias. Orgias gastronômicas. Fui ao supermercado sem segundas intenções, mas com aquela meia de seda fina e saltos agulha que levantam qualquer autoestima, entre outras coisas menos publicáveis. Sou, sempre fui, uma pessoa aberta a possibilidades. Saí vestida para matar, menos por vaidade do que por costume. Uma mulher bem vestida está sempre nua aos olhos dos homens. E, cá entre nós, a nudez implícita é um excelente afrodisíaco.

Empurrei meu carrinho pra cá e pra lá costurando prateleiras insossas. Nada me apetecia. Hoje eu estava a fim mesmo de um básico champanhe com morangos, daqueles bem molhadinhos, de chupar o caldinho e deixá-lo deslizar pelo canto da boca. De sentir os pinguinhos escorrendo pelo ombro e, de preferência, ter alguém para ir com a língua enxugando centímetro por centímetro, sulco por sulco, até… Ai, ai, Verônica. Melhor se concentrar. Olhaí, acabou de bater no carrinho do rapaz. Ula-lá! Não sou de perder o rebolado, mas que pedaço de mau caminho. Corpo de homem, rosto de menino. E que par de pés. Será que tirei a sorte grande?

Existe uma teoria empírica entre as mulheres de que homens com as extremidades avantajadas proporcionam noites de, digamos, um preenchimento emocional muito grande. Não é regra, claro, há exceções. Exceções essas com as quais eu nunca me deparei. Por isso, não posso garantir que essa teoria não seja uma verdade absoluta. E assim como os homens têm fetiche em pés pequenos, mulheres têm em másculos pés grandes. Um representa submissão, o outro, dominação. Pés são pistas precisas como pegadas deixadas na areia.

Roçamos nossos carrinhos e nossos olhares. Juro que não borrifei sobre ele o meu adocicado perfume de fêmea no cio. Porque hoje estou meio romântica, avessa a golpes baixos. Sorri, simplesmente. Você sabe que um sorriso bem dado pode ser devastador. Ele hipnotiza a vítima e a deixa lá, sonhando acordada, imobilizada. Foi o que aconteceu. Quando ele deu por si, eu já estava no setor de hortifruti. Morangos urgentes, onde estão vocês? Passei a mão numa pilha de sprays de chantili e arrebatei logo dois. Três. Meu estoque está zerado.

Foi sugestão minha ao gerente da rede de supermercados o posicionamento estratégico dos chantilis junto aos morangos. Expus com consistência o argumento de que, de posicionamentos estratégicos, eu entendia. Naquele dia, fazia um calor infernal e eu estava com um vestidinho esvoaçante de organza que mal cobria as minhas coxas. Ele me convidou para debatermos a ideia no depósito dos fundos. Aceitei. Ele era baixinho, encorpado, e tinha um olhar que penetrava as entranhas da gente. Não só o olhar, mas isso é outra história.

No hortifruti, aproveitei para comprar pepinos, ótimos para relaxar. Calma, eu corto em rodelas e coloco sobre os olhos – para prazeres solitários, tenho opções mais vibrantes. De repente, o bonitão adentrou minha visão periférica. Fingi não vê-lo, e segurei com maestria dois belos exemplares da hortaliça. Grossos, compridos, peguei mais dois e, com uma das mãos, imprensei-os junto aos seios, só pra provocar. Passei por ele rebolando, parei ao seu ladinho. Arranquei um plástico. Inclinei-me de leve para jogar os pepinos no saco e quando voltei à vertical, deu pra sentir a respiração quente, na minha nuca. Parecia um touro, resfolegando. Continuei ignorando-o. Mas ele sabia que eu sabia que ele estava ali.

Ele comprou kiwis, eu escolhi damascos secos, ele ameixas vermelhas, eu figos frescos, e assim fomos girando e nos observando mutuamente, em volta das frutas, até nos encontrarmos na balança de pesagem. Ele me deu a vez na fila, sorri em retribuição, mas desta vez sem veneno imobilizador. Sabe como é, usuários se tornam imunes às doses com o passar do tempo. É preciso aumentar a dosagem. Ou alterar a composição. Foi o que fiz: abri outro sorriso, daqueles que abrem todas as possibilidades. Ele se viu diante do paraíso, a cobra dele doidinha para morder a minha maçã. Mas para abocanhá-la, ele precisaria rastejar mais um pouco. Só mais um pouquinho.

Uma mulher não deve dar ao homem a certeza de que está na dele, mas ele não pode ter certeza de que você não está. No cardápio da sedução, a dúvida é um ingrediente imprescindível, dá aquele gostinho de quero mais. O homem precisa de sinais, mesmo que imprecisos, para sentir que não vai levar um fora que abale a imagem que tem da sua própria masculinidade. Ninguém joga pra perder, certo? “Obrigada pela gentileza”, eu disse, ao sair da fila da balança, “espero um dia poder retribuir”, pisquei. Agora foi ele quem sorriu.

Segui em frente, esperando, claro, que viesse atrás. Não veio. Bom garoto, joga bem. Quebrou-me o flanco. Tive que me conter para não procurá-lo com os olhos. Continuei empurrando o carrinho por entre prateleiras do que eu nem mais enxergava, de tão excitada. De caçadora, virei presa. Isso me enlouqueceu. Tinha certeza de que ele estava à espreita, me observando. Não havia nada que eu pudesse fazer: nem fugir, nem dar bandeira. Qualquer passo em falso quebraria o feitiço. Eu estava no labirinto com o Minotauro. Doidinha para ser comida por ele.

Estacionei a minha descompostura em frente às prateleiras de vinhos brancos. A essas alturas, eu já estava completamente molhada entre as pernas. Uma isca voluntária ao anzol. E o peixão veio, veio com vontade. Surgiu na minha frente pelo outro lado, foi imprevisível. Eu estava inteiramente eriçada. Ele exalava um aroma ácido, não sei se de excitação ou nervosismo. As duas alternativas me atraíam. Ele me atraía. Dessa vez, o carrinho dele bateu no meu.

Nossos olhos se conectaram, foi uma química dos diabos. Ele fermentou, eu destilei, e ficamos assim, borbulhando. Tocou na minha mão. Não me mexi. Não fiz a menor questão de controlar minha respiração descontrolada e disfarçar que eu estava a fim. Meu peito subia e descia, mordisquei meu lábio inferior, só faltou eu agarrá-lo ali, na frente de todo mundo. Não precisei. Ele voou sobre mim, me puxou com um senhor antebraço e me tascou um beijaço na boca. Derrubei duas garrafas de vinho no chão, quem se importa? Os funcionários do supermercado já me conhecem e aos meus escândalos. Uns arregalam os olhos, outros os se espremem de inveja. A vida é assim.

 

 

 

 

*Trecho do livro “O DIÁRIO DE VERÔNICA VOLÚPIA”, por Ana Kessler.

O Diário de Verônica Volúpia
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Em uma conversa entre amigas, Ana e Juliana, ambas separadas e Aline, casada, falavam de divórcio e de como esse assunto ainda é visto como um tabu. Existe (acreditem!) muito preconceito e clichês. E só sabe isso quem vive ou viveu um divórcio.