Acreditar não é crime

Não se envergonhe por ter se entregado. Não se envergonhe por ter acreditado. Não se envergonhe jamais por ter apostado tudo num amor, mesmo que ele só tenha existido dentro de você.

culpa

 

O que acontece com uma mulher estuprada? Ela acha que, de alguma forma, foi responsável pela concretização das intenções bestiais daquele homem. Desse modo, na tentativa de encontrar razão para um ato irracional, ela se autoflagela. Por que eu passei por aquela rua? Por que entrei naquela sala? E se eu não estivesse com aquela blusa de renda? E se eu não tivesse entrado no carro dele? Numa total inversão de valores, a culpa passa a ser dela.

Ocorre o mesmo quando, por amor, acreditamos num relacionamento que termina sendo catastrófico. Rosa recebe mais uma intimação e se desespera: ela se separou em 2009 e ainda hoje tenta saldar as dívidas que o ex-marido golpista profissional deixou em seu nome. “Quando eu titubeava em assinar alguma coisa, ele dizia que era meu marido e que eu tinha de confiar nele. Depois da separação, minha mãe perdeu a casa, meu irmão vendeu seu carro, tudo para me ajudar. Como eu pude ser tão burra? Eu tinha de ter desconfiado!”. Não, Rosa, você não tinha. Você até poderia, mas não tinha a obrigação de desconfiar. Mais uma vez, a vítima é responsabilizada. Seu crime? Ter acreditado no homem que se dizia seu marido.

De acordo com esse jeito torto de pensar, um homem pode, por exemplo, ter entrado em sites de relacionamento romântico enquanto estava com você, pode ter mantido seduções clandestinas debaixo do seu nariz, pode ter deixado em suas costas dívidas que não te pertencem, e ainda assim quem anda curvada pela rua é você por ter acreditado nele? A culpa agora é sua? De modo algum! Numa relação abusiva há dois responsáveis, mas só um culpado.

Portanto, amiga leitora: levante a cabeça já! Você não tem nada, rigorosamente nada, do que se envergonhar. Verdade que, além de lidar com essa injusta cobrança interna, ainda há os outros que te acusam de ingênua ou de burra. E desde quando ingenuidade é pecado? Desde quando até mesmo a burrice é crime? Quem abusou da sua ingenuidade (ou da sua burrice, como insistem alguns) é que realmente deve se envergonhar, não você.

Portanto, não se envergonhe por ter se entregado. Não se envergonhe por ter acreditado. Não se envergonhe jamais por ter apostado tudo num amor, mesmo que ele só tenha existido dentro de você.

 

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos "Loucura de Estimação", “Os Indecentes”, "Eu me possuo" entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net