Amigos parte 2 - os amigos-da-onça

A partilha dos bens é motivo de muitos conflitos. Vários crimes já foram cometidos e, pior, muitos casamentos ainda são mantidos apenas para que não seja necessário passar pelo vexame de discutir, em juízo, coisas bobas como quem vai ficar com o porta-ovos de arame em formato de galinha herdado da vizinha da tia. E, mesmo assim, apesar de tratar de inúmeros detalhes, a partilha não toca em um assunto bastante delicado: quem fica com os amigos do casal.

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A partilha dos bens é motivo de muitos conflitos. Vários crimes já foram cometidos e, pior, muitos casamentos ainda são mantidos apenas para que não seja necessário passar pelo vexame de discutir, em juízo, coisas bobas como quem vai ficar com o porta-ovos de arame em formato de galinha herdado da vizinha da tia.
E, mesmo assim, apesar de tratar de inúmeros detalhes, a partilha não toca em um assunto bastante delicado: quem fica com os amigos do casal.
Caso não pertença ao extremamente ínfimo grupo de pessoas esquisitamente civilizadas, é provável que o casal pósseparado queira ficar o mais distante possível um do outro.
Nesse caso, a tendência é fazer a divisão dos amigos de maneira contrária da que se faz com os talheres: por “gênero” e não por número.
Normalmente as esposas, a princípio, ficam com as amigas, enquanto os maridos continuam se encontrando no tradicional grupo da sauna, do futebol ou de qualquer outro ritual masculino que envolva suor.
Como, no entanto, geralmente os amigos do “ex-casal” são também “casais entre si”, essa divisão raramente traz bons resultados.
Não serão poucas as vezes em que os casais de amigos brigarão entre si a respeito de quem do casal separado tinha razão, ainda que o casal que se separou não esteja pensando mais nisso há muito tempo. Complexo, não é verdade? Não … É só estúpido.
A própria falta do que fazer e a rotina sempre são relegadas ao segundo plano quando o assunto é a separação alheia .Quase sempre, e na melhor das hipóteses, a maioria dos amigos do casal tentará manter contato no início tanto com o homem quanto com a mulher, numa tentativa altruísta de manter “uma dose de normalidade nesse momento de crise”.
Afinal, para isso servem os amigos. Assim, recusando-se a tomar partido, esses amigos cedo ou tarde cometerão gafes. Em seguida, e por um breve período, muitas das amigas casadas vão demonstrar uma fenomenal solidariedade para com a amiga abandonada (caso tenha sido ela que o abandonou, o”bandido” deve ter dado motivos…)
Essa solidariedade inicial tende a se esvair quando se esgotam as fontes de fofocas ou os detalhes picantes sobre a vida sexual do casal.
Nada do que os descasados façam poderá evitar o desconforto de certos casais que repentinamente se sentem obrigados (ninguém sabe o porquê) a repensar suas próprias relaçóes. Aparentemente eles culparão os descasados por quaisquer falhas que encontrarem duranre esses questionamentos.
Com freqüencia, alguns casais se sentem ameaçados com a separação alheia, e instintivamente e quase sem querer começam a agredir os descasados. Como se já não tivéssemos problemas demais …E isso ainda não é o pior! A tal solidariedade inicial acabará por completo no dia em que a amiga perceber (ou achar que percebeu) que o marido dela está lançando o que ela julga serem “olhares de cobiça” na direção da recém-separada.
Em compensação, por outro lado, em muitos casos, se o “ex” mantiver a amizade dos outros maridos por mais alguns meses, fatalmente suas esposas começarão a temer a “malévola influência” que as pessoas separadas exercem sobre os casados. Espantosamente, muitas pessoas casadas ainda cultivam, em algum obscuro canto da psique, uma idéia semilibidinosa sobre a vida de separado.
Para elas, todas as pessoas solteiras com mais de 25 anos passam suas noites indo de bar em bar procurando parceiros para orgias. Aliás, é desse último grupo de pessoas “perspicazes” que surge o personagem-título deste capítulo. Não se espante se por acaso alguns de seus amigos se mostrarem mais solícitos e mais simpáticos do que deveriam, sempre dispostos a passar na sua casa depois do expediente só para ver se você “precisa de alguma coisa” . Alguns desses “amigos”, até então inofensivos, se transformam rapidamente em predadores cuja salivação pode ser percebida em cada elogio exagerado, em cada gesto de gentileza não requisitado. Voçê, de tão zonza, acha que está imaginando coisas. Imagine! Alguém que você conhece há tanto tempo, colega de biriba do seu ex, marido da sua grande amiga … Com certeza você está sendo maldosa. Ele está sendo apenas um gentil amigo e você realmente não está em posição de perder mais ninguém no momento. Sei … Telefonemas para o escritório (e quase sempre “do” escritório) começam a aumentar em quantidade e duração. Do “como você vai” para “aonde vamos” é quase um pulo, e algumas mulheres sucumbem à solidão e ao carinho desses “amigos-da-onça”.
A tentação é grande. Você está sozinha, provavelmente sem muito o que fazer; há sempre algo na sua casa que precisa de um ou outro reparo, como aquela janela emperrada que seu ex nunca consertou. E, já que esse seu conhecido de longa data se ofereceu para ajudar … Que mal há? Que mal há? Todos!
A amiga divorciada da namorada/esposa é uma das fantasias mais constantes na mente do primata humanoide casado, perdendo apenas para a secretária tarada do imaginário pornográfico.
Esse “amigo” é várias coisas, menos seu amigo. E mais, pense com cuidado ao avisar sua amiga e mulher dele. É impressionante como quase em um passe de mágica a melhor intenção pode transformar você na vilã da história.

Conteúdo retirado do Livro “Aperte o cinto, seu marido sumiu”, com a devida autorização da autora.

Carla é escritora. Para ela, a vida começa e recomeça quantas vezes forem necessárias, a sua personalidade e o seu senso de humor que ditarão o quão divertida a jornada será.