Amigos

Os bons amigos existem, sim, e você provavelmente os tem. E eles ajudarão muito, com certeza, porém só até certo ponto. O crucial depende de você.

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Por via de regra, para evitar situações desconfortáveis na presença de estranhos e, aliás, de qualquer outra pessoa, junte seus pedaços e faça o possível para manter uma aparência mínima de equilíbrio. A palavra chave é “disfarce”…
Caso contrário, até os amigos mais chegados- se não forem geneticamente ligados à Madre Teresa de Calcutá – eventualmente se cansarão das suas lamúrias e seu nome começará a ser associado a um longo suspiro de profundo tédio.
Neste seu momento, talvez essa afirmação pareça fútil e cruel, e com certeza nenhum dos seus amigos vai admitir ou concordar que você deva esconder seus verdadeiros sentimentos; muitos ficarão legitimamente semi-indignados com a possibilidade, e, no entanto, este simples conselho a poupará de muitas decepções no futuro.
Não se magoe se seus atuais problemas com a separação não forem prioridades na vida dos seus amigos. Mesmo dos mais chegados. O segredo está em esperar deles o mesmo tratamento que você lhes dedica normalmente.
Parece óbvio, e, ainda assim, em tempo de crise, a maioria das pessoas tende a esperar dos amigos “o máximo” de dedicação.
A diferença entre esse “máximo” de dedicação que você espera e o “mínimo” que seus amigos realmente podem oferecer é que podem estragar muitas amizades.
Os bons amigos existem, sim, e você provavelmente os tem. E eles ajudarão muito, com certeza, porém só até certo ponto. O crucial depende de você.
Agora, se algum dos seus amigos chegados não estiver disposto nem a oferecer o tal “mínimo”, então, lamento informar, o problema já não está no seu grau de expectativa, é erro de julgamento de caráter mesmo.
Às vezes quem você julgava ser seu amigo chegado simplesmente não é. Acontece. Mais vezes do que gostaria de pensar. Chato, duro. E justo agora que você mais precisava. Pois é…
“Amigos para todas as horas” só identificamos realmente nesses momentos – quando mais precisamos. Esses amigos são raros e muito preciosos, portanto, não distribua o título indiscriminadamente.
E mesmo esses bons e raros amigos não conseguem agüentar indefinidamente uma mala-sem-alça lamuriosa, e, cedo ou tarde muito provavelmente um deles – ou um punhado deles- assumirá a tarefa de lhe dar uma “sacudida”, como numa daquelas táticas de “intervenção” tão alardeadas nos filmes de Sessão da Tarde, em que o “viciado” (em drogas, sexo, videogame, gibi ou, no seu caso, autopiedade) é forçado a assumir sua “doença” na frente dos entes queridos (e, algumas vezes, do pessoal que fez os salgadinhos).
Em princípio, esses amigos reafirmarão a incondicional amizade que sentem por você, dirão que estarão sempre prontos a ajudar no que você precisar, e blá, blá, blá, até que quase imperceptivelmente começarão a elaborar um discurso educado e rebuscado cujo nobre tema é “você está muito chata e ninguém mais te agüenta”.
Lembre-se, o “ombro amigo” pertence AO AMIGO. Não é seu! Você pode até usar de vez em quando, mas não se acostume a depender dele, ou correrá o risco de sofrer uma dessas intervenções. E elas geralmente magoam.
Caso isso aconteça, no começo você terá aquela sensação de abandono e traição, mas, passada a mágoa inicial, você perceberá que talvez a tal intervenção tenha sido mesmo necessária, e aos poucos começar a andar com as próprias pernas, nem que seja só para ter o gostinho de depois poder dizer: “Quem precisa de vocês?”. Maturidade? Esqueça. Não é essa a palavra-chave aqui…
Cedo ou tarde as coisas começam a se encaixar. Você pára de agir como adolescente ofendida e os bons amigos aos poucos retornam às suas posições de direito.
Isso geralmente leva algum tempo, o tempo necessário para você se fortificar, enquanto mete os pés pelas mãos.
Infelizmente, é durante esse tempo de relativo abandono que você ficara à mercê de um outro tipo de amigo – os remanescentes daqueles “amigos dos dois”, dos tais “casais amigos”, chamados amigos “sociais” ou, pior ainda, como você irá notar, dos “amigos-da-onça”.

Conteúdo retirado do Livro “Aperte o cinto, seu marido sumiu”, com a devida autorização da autora.

Carla é escritora. Para ela, a vida começa e recomeça quantas vezes forem necessárias, a sua personalidade e o seu senso de humor que ditarão o quão divertida a jornada será.