Amor de verão

É por isso que amor de verão nem sempre sobe a serra (há exceções, é claro): ao mergulharmos numa rotina diferente, nos sentimos atraídas por homens que se destacam nesses espaços e isso não significa, de modo algum, que eles continuarão interessantes se colocados em outras situações.

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Photo by Jeremy Bishop on Unsplash

Você já percebeu como nosso gosto se transforma, dependendo das circunstâncias exteriores?

Se você estiver há dez dias num spa vai achar que os homens com mais de 130 quilos nem são tão gordos assim e, em pouco tempo, correrá o risco de se ver nadando num mar lúbrico muito além da fofura.

Se você for acampar numa serra isolada, não demorará muito para que considere banho quente e uma privada como os pontos máximos do prazer na Terra, da mesma forma que se aconchegar numa noite frienta em seu amigo nerd (o único que sabe interpretar uma bússola) não te parecerá uma ideia esquisita.

Se você for para a praia, se demorando num estado de relaxamento, pouca roupa, cores fortes e água de coco, se sentirá atraída por quem sobressai nesse contexto: pescadores, surfistas, guias de turismo, nativos, vagabundos endinheirados ou apenas caras que não têm nada a ver com você, mas cujos corpos desfilam maravilhosamente bem sobre as areias quentes.

Viagens são empreendimentos perigosos: não demora muito para que você comece a chamar urubu de meu louro. Os critérios de seleção que usamos na cidade se modificam quando saímos dela, afinal, o que é mais importante numa praia: um cara com um corpo escultural e uma habilidade espantosa para permanecer em pé sobre as ondas usando apenas uma tábua de poliuretano ou um cara que fala todos os esses, sabe conversar sobre Sartre e te acompanha ao teatro nas noites de sexta?

É por isso que amor de verão nem sempre sobe a serra (há exceções, é claro): ao mergulharmos numa rotina diferente, nos sentimos atraídas por homens que se destacam nesses espaços e isso não significa, de modo algum, que eles continuarão interessantes se colocados em outras situações. Na praia ou no campo, sem exigências, sem necessidades intelectuais, sem objetivos maiores a não ser se divertir e relaxar, aquele cara pode ser o máximo, mas no mundo real ele talvez não passe de um irresponsável bebezão que não quer nada com a hora do Brasil.

Ou será que esse meu blábláblá apenas encobre uma instigante e patética verdade: é na frouxidão das férias, feriados, viagens, que nos permitimos nos lambuzar do que realmente instiga o nosso desejo? Fica a pergunta.

 

 

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos “Loucura de Estimação”, “Eu me possuo”, “O diabo que te carregue!”, entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap. www.stellaflorence.net

 

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos "Loucura de Estimação", “Os Indecentes”, "Eu me possuo" entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net