Amor devastador

Nem mesmo a mais forte das fortalezas se mantém de pé se seus pilares desabarem. No final do relacionamento, eu não passava de um punhado de ruínas de mim mesma. Rendida, mal conseguia trabalhar, pensar ou tomar alguma atitude.

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O perigo pode estar ao nosso lado. E estava ao meu, assustadoramente próximo a mim. Dividindo a mesma cama, sob o mesmo teto. Por quase uma década.

Não sabemos das sombras das pessoas. Servir o coração numa bandeja para um ser que beira a psicopatia foi das experiências mais destrutivas que vivenciei. Conheci o inimigo íntimo nos meus tenros vinte e poucos anos, nos apaixonamos (pelo menos eu me apaixonei) e no mês seguinte encontramos um apartamento com a nossa cara: estudantes, cheios de planos, vontade de conhecer o novo e hormônios vazando pelos poros.

“Você é tudo o que eu gostaria de ser” – ele me dizia. Eu achava que era um mimo, um elogio.

Lá pelo quinto ano juntos, notei os primeiros sinais de que algo ruim estava acontecendo. Minha carreira era repleta de portas abertas, ao contrário da dele – isto foi um grande divisor de águas. Enquanto eu cumpria uma agenda abarrotada de compromissos e viagens, ele mal trabalhava e se rendeu. Preferiu sentar-se frente à TV e reclamar em vez de batalhar seu espaço pois, gênio incompreendido que se achava, com certeza uma hora alguém bateria à porta, lhe estenderia um tapete vermelho e, sob uma fileira de cornetas, ele desfilaria rumo ao brilhante cargo de gerente sênior de projetos num escritório escocês.

Ele me mapeou por completo aqueles anos todos e. ao me ver conquistar um espaço que ele não conseguira, tratou de arquitetar seu plano perfeito sem que eu percebesse. Não li as entrelinhas e este foi o meu maior erro. Ora, eu nunca desconfiaria da pessoa que tanto amava. Daí em diante, rolei pirambeira abaixo em todos os campos da minha vida enquanto ele, de seu camarote, assistia explodir as bombas que instalara meticulosamente em cada uma de minhas estruturas emocionais.

Nem mesmo a mais forte das fortalezas se mantém de pé se seus pilares desabarem. No final do relacionamento, eu não passava de um punhado de ruínas de mim mesma. Rendida, mal conseguia trabalhar, pensar ou tomar alguma atitude. Aproveitando desta situação, ele correu para se aproximar dos meus contatos profissionais e ingressou no mesmo curso de especialização ao qual eu havia me formado. E depois de um tempo partiu rumo à Ásia, onde cumpriu o roteiro maravilhoso que eu havia traçado. Para mim.

Mas que serzinho perverso.

Foram tantas as situações descabíveis em que me vi e eu nem imagino como cheguei ali. Mas sei como saí. Um investimento pesado em psicanálise e terapias alternativas. Foco na minha vida. Autoconhecimento. Descobertas de novos prazeres. Outro relacionamento abusivo, para tomar mais outros tombos. Praticamente uma outra década para me recompor e muita, mas muita força nessa rala peruca que habita o meu cucuruto.

E uma distância segura desta pessoa.

Camila Morita é formada em Arquitetura e Cenografia e dedica-se à ilustração e pintura desde 2007. Sua obra passa por várias fases e representa cada circunstância marcante em sua vida, resultando em séries intimistas e com um plano de fundo onírico. Para complementar estes grafismos, utiliza de textos para concluir e reorganizar os próprios pensamentos e devaneios.