Apolo de Tinder

Capítulo 15 32 - 32 anos, 32 homens, 32 tatuagens

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Sim, estou surtando. Preciso entrar na fila da lobotomia antes que seja tarde. Castrem meus neurônios para que eu nunca mais saia de casa a fim de encontrar um Apolo de Tinder!

Esses caras são aqueles cujas fotos são tão desesperadoramente lindas que você pensa logo em truque ou em michê. Desconfiada, mas esperançosa de que tal criatura exista, você manda um super like. Acontece um match, uma conversa, uma troca de WhatsApp e você comprova por chamada de vídeo: não há truque ou montagem, ele existe. E não te fez nenhuma proposta envolvendo grana. Pronto: você está perdida no grau irremediável.

Apolo disse oi, como vai, tudo bem e foi direto ao ponto: sexo-na-minha-casa-agora-venha. Sim, claro: se eu fosse uma fêmea-delivery até perguntaria qual marca de camisinha eu deveria levar e se ele é alérgico a algum tipo de lubrificante.  Incomodada, disse apenas que ele estava me tratando como uma moça de vida fácil e que isso não era muito lisonjeiro. Ele pediu desculpas e emendou: “Por acaso você tem alguma foto nua?”.

Dias depois, o convite para um cinema. Bati os cascos no ar: iúpi! Meti um salto dez, uma saia-camiseta-casual, muito rímel à prova d’água e de outras secreções e lá fui eu.

Ao vivo e em cores, pude comprovar que o cara era um Apolo mesmo: alto, moreno, cabelo liso meio comprido, boca carnuda, músculos no lugar e na quantidade certos. Pensei em fazer uma oferenda a Iemanjá por tamanho presente – ou deveria ser a Afrodite? Sei lá, mas que era preciso agradecer a alguma divindade, isso era.

No cinema, mesmo com ar-condicionado, calor. Aquele cheiro de testosterona subindo pelas minhas narinas. E aquela perna encostada na minha. E aquela boca toda hora se aproximando perigosamente para comentar detalhes irrelevantes do filme. E aquelas mãos me passando uma bala, uma barra de cereal, um pouco de água com os dedos se demorando sobre minhas coxas, depois subindo doces pelos punhos até desaparecer num sopro de arranhão.

Ao sair do cinema, o convite para jantar. E eu praticamente amarrando o babador em volta do pescoço. Porém, à mesa do restaurante… as horas se consumiram em um detalhado depoimento de Apolo sobre sua interessantíssima pessoa. Ó, o quanto ele era bom de cama, o quanto ele fazia qualquer mulher gozar (e gozar muitas vezes), o quanto as mulheres se apaixonavam perdida e inutilmente por ele, o quanto sua agenda era concorrida, o quanto ele podia escolher a mulher que quisesse, como num açougue: altura, peso, raça, cabelos, peitos, bundas. Está certo que homens bonitos são tratados com mais condescendência, mas tudo tem limite: quando a palavra açougue foi mencionada, minha paciência acabou.

– Olha, os caras que me disseram que eram maravilhosos na cama, que o sexo para eles era um ritual, que nenhuma mulher ficava sem gozar, eram todos péssimos amantes. Todos, sem salvar um.

Ele, imperturbável, jogou os cabelos para trás e respondeu:

– É verdade. Os homens não sabem mesmo tocar uma mulher, principalmente os que se acham. Mas eu sou uma exceção: comigo mulher nenhuma fica sem gozar.

Enquanto eu balançava com fúria um saquinho de açúcar, Apolo entrelaçou os dedos atrás da nuca deixando à mostra os braços longos e fortes, as veias saltadas e uma cicatriz no antebraço esquerdo. Pisquei duas vezes com força para não olhá-lo com o ar aparvalhado.

– Então você acredita que o orgasmo feminino só depende do homem?

– Claro.

– Não concordo.

– Eu não estou falando em teoria: estou falando de prática, da minha prática. Todas gozam e gozam umas cinco vezes porque eu sei fazer isso acontecer. Os outros não sabem, eu sei.

A arrogância dele estava me dando nos nervos.

– Pois eu acho que uma boa parte delas fingiu pra te agradar.

– Fingiram, nada. Eu saco de longe mulher que finge.

O tempo gotejava como gelo no freezer enquanto Apolo despejava suas peripécias sobre mim. Como ele se vingava de uma mulher que o aborrecia por algum motivo? Ele transava com ela apenas uma vez: ficar sem ele depois de tê-lo provado era o maior castigo que ele poderia impingir a uma criatura. O monólogo seguia daí para baixo. Ele falando sem parar e eu fazendo uma força hercúlea para manter ao menos um sorriso amistoso na face. Demorou, mas, finalmente, fomos embora.

Voltei para casa enojada, praguejando no carro como uma bruxa a destilar furiosos sortilégios. Como ele pode ser tão sórdido? Como ele pode ser tão superficial? Como ele pode ser tão egoísta? Como ele pode ser tão vaidoso? Como ele pode ser tão arrogante? Como ele pode não ter me comido?

 

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Isopor

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos "Loucura de Estimação", “Os Indecentes”, "Eu me possuo" entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net