As notícias e as crianças... Conversando sobre separação...

É preciso falar honestamente com os filhos, colocar sua vida em palavras, independente de qual seja a sua idade.

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Nosso bebê é o mais frágil de todos os filhotes. Desde o nascimento necessita do leite, precisa que o segurem no colo, lhe deem banho e o mantenham aquecido. Desde o primeiro dia precisa do outro para sobreviver. Mas precisa do outro, também, com seu olhar e sua voz: de sua mãe, seu pai ou quem mais esteja ao redor para cuidar e amar.
As nossas crianças, antes mesmo que possam falar, precisam das palavras dos adultos para saber quem são, onde estão e para onde podem e desejam ir. Para que um dia, enfim, possam tornar-se adultos que falam em nome próprio e são responsáveis por seus atos.
Isso é algo de caráter bastante geral, poderia se aplicar a quase tudo aquilo que vivem os pequenos: é preciso falar sobre todas as transformações pelas quais passam as crianças. É preciso falar honestamente com os filhos, colocar sua vida em palavras, independente de qual seja a sua idade. É quase óbvio, e muitas vezes esquecido…
Mas conversar com as crianças tem suas peculiaridades, convém sempre levar algumas coisas em consideração quando se trata de dar a elas qualquer noticia delicada, e é assim também com a separação. São pequenos detalhes que podem fazer as palavras tomarem a direção do cuidado e o sentido de proteção e apoio que podem ter. Um apoio diante de todas as transformações que a criança irá atravessar.
É preciso comunicá-las com sinceridade, com as palavras verdadeiras tudo aquilo que lhes diz respeito. Um relato desta natureza é sempre particular, cada casal deve procurar seu próprio modo de conversar com seus filhos. Independente da idade que estes tenham, eles escutarão. As palavras ganham significados diferentes de acordo com a idade e aquilo que a criança já viveu em seu corpo.
Tomemos a frase “Eu te amo” como exemplo: ela tem um significado aos 5 anos de idade, outro aos 15, um aos 40 e ainda outro quando já se viveram 90 anos. Assim é com todas as palavras; assim é com a “perda” e com a “separação”, assim é com a “morte”. Quanto mais nova a criança for, menos recursos ela terá para compreender sozinha as mudanças que estão à sua frente. É muito comum que os filhos de um casal considerem sua própria vida como sendo parte do casal e vejam as mudanças na configuração da família como uma ameaça à própria existência.
Por isso, pode ser importante deixar claro que cada um dos pais continua tendo suas responsabilidades em relação aos filhos.
A imagem que a criança tem de si mesma é fruto do olhar de quem cuida dela e das palavras que lhe dirigem; ela é resultado da história de uma união, mesmo que fugaz. Por isso, um ataque dirigido a um dos cônjuges, é também um ataque à imagem que ela carrega de si mesma.
Um casal pode se separar, mas o filho seguirá carregando em seu corpo e em seu nome a história dos seus antepassados. Este é outro ponto que é importante levar em consideração quando se vai falar com os filhos sobre o processo de separação. Algumas vezes ela é um processo amigável, mas muitas vezes é carregada de intensos sentimentos, alguns claros, outros ambíguos ou ambivalentes.
Podem surgir momentos de raiva, sensações de abandono e tristeza. Nascidos de frustrações, decepções ou simplesmente das mudanças que o tempo e o correr da vida acabam por provocar, afastando os casais, estes afetos devem ser nomeados, tanto quanto for possível. Com o esforço de separar aquilo que deve ser resolvido entre os cônjuges e aquilo que toca os filhos, dar notícias aos filhos é muito diferente de transformá-los em confidentes ou mesmo aliados contra o ex-marido ou ex-mulher.
Por fim, convém ter em mente que uma conversa, apenas, dificilmente dará conta de todos os assuntos. Este é um daqueles pontos tão bonitos em que adultos e crianças encontram-se num mesmo patamar: ambos estão diante de muitos mistérios quando tentam compreender as razões que aproximam e afastam as pessoas.
No próximo texto dedicarei mais algum espaço às notícias da separação, me parece que ainda há muito o que pensar e perguntar.

Photo credit: gagilas via Visual hunt / CC BY-SA
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Miguel É psicólogo e psicanalista, trabalha em seu consultório e circula no meio escolar tratando das questões ligadas à inclusão. Nos seus textos publicados aqui, procura aproximar os olhares de adultos e crianças. vallim.miguel@gmail.com