Caber na moldura

Eu fiz isso comigo. Me cortei em pedaços para caber em situações, em pessoas. Me podei para ser aceita. Encolhi o quanto pude para me manter na vida de alguém. E sabe, isso jamais deu certo. E jamais dará.

Caber na moldura

Precisamos caber e servir do tamanho que somos. Sim, exatamente como somos. Nada de podas, encolhe dali e aqui.

Há uns anos fiz uma pintura num papel grande, de quase um metro de altura. Foi difícil até para encontrar uma maneira de guardá-la, então a enrolei e deixei sobre o armário do ateliê. Tempos depois, andando pela rua encontrei uma moldura que achei perfeita, dessas tipo sanduíche de vidro, intacta, acabamento de alumínio – uau! Depois de dar um trato na peça corri empolgada para pegar a pintura e, para a minha surpresa, esta era bem maior do que a moldura. No auge da ansiedade elegi as partes “menos importantes” e – zap! – passei o estilete retalhando em mais de um palmo de cada lado a minha obra. Enfim, ela coube dentro daqueles limites. E me veio uma ressaca. E me veio um arrependimento. Culpa. Raiva. Tristeza. Depois aceitei.

Hoje tenho consciência de que eu fiz isso não só com esta pintura. Eu fiz isso comigo. Me cortei em pedaços para caber em situações, em pessoas. Me podei para ser aceita. Encolhi o quanto pude para me manter na vida de alguém. E sabe, isso jamais deu certo. E jamais dará.

No caso da moldura, posso e tenho o poder de escolher a que seja adequada para a obra, que vai acolher, receber e fazer uma parceria simbiótica com ela. No caso dos relacionamentos, a mesma coisa.

Quanto mais nos conhecermos, mais saberemos desses limites. Perdemos partes importantes de nós mesmas quando nos diminuímos. E todas as nossas partes interessam. Cada uma delas são pedacinhos que nos formam como um todo. Não vamos nos desfazer delas.

Conheça mais do trabalho da artista plástica Camila Morita

Link do trabalho www.flickr.com/camilamorita

Instagram: @moritacamila

Camila Morita é formada em Arquitetura e Cenografia e dedica-se à ilustração e pintura desde 2007. Sua obra passa por várias fases e representa cada circunstância marcante em sua vida, resultando em séries intimistas e com um plano de fundo onírico. Para complementar estes grafismos, utiliza de textos para concluir e reorganizar os próprios pensamentos e devaneios.