Divórcio... Escolhas, consequências e tempo...

Não é justo. Não é mesmo. Para ambos. Mas são escolhas. E os dois precisam ser responsáveis pelas consequências delas.

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Acho que de todas as dificuldades de um divórcio, a mais complicada é a questão financeira. Não tenho estatísticas e nem sei se elas existem, mas nas várias rodas de amigas separadas das quais já participei, o assunto é sempre motivo de discussões acaloradas, debates acirrados e lágrimas teimosas que surgem quando você menos as deseja.

Conheço tantas mulheres que abandonaram suas carreiras para cuidar da família e agora dependem de pensão para sobreviver.
Mulheres que já acordam ouvindo o barulhinho enlouquecedor da ampulheta imaginária, da contagem regressiva para o fim da pensão. Seu ex e o Juiz determinaram que ela ainda era jovem e que dois anos seriam suficientes pra uma mulher de 40 anos retomar sua carreira. Ainda não sei em que mundo da fantasia essas pessoas vivem, mas é isso. A realidade agora é outra. “As coisas precisam mudar”.
E, de repente, aquela mãe tempo integral, dona de casa dedicada precisa entender que isso já não é possível.
Outro dia ouvi de uma amiga: “quando eu pedi, humilhada, ao meu ex marido um tempo maior de pensão, chorando expliquei que só queria continuar sendo a mãe que eu queria ser para os meus filhos. Ele não se comoveu.”
Entretanto, por mais de uma década de casamento, essa realidade foi conveniente pra ambos. Ela não trabalhava fora, mas era responsável por tudo dentro de casa. Mãe, cozinheira, motorista, contadora, psicóloga de marido estressado, compradora oficial dos presentes de Natal da família dele, encanadora, eletricista, agente de turismo, economista…
Sei que algumas mulheres não fazem isso. Muitas, talvez. Deixaram de trabalhar mas possuem uma “equipe” para fazer o trabalho doméstico, além da babá, da folguista, do motorista etc etc etc… Mas essas são as mulheres que estão sempre com a unha feita, o cabelo impecável, o corpo em forma. Mas, ainda assim, essa situação foi conveniente pra ambos, e a “equipe” não desmerece o papel dela na família.

São escolhas.
O ex daquela minha amiga tinha uma mulher que fazia tudo, mas reclamava que queria uma princesa. Feliz, cheirosa e relaxada depois de uma tarde no SPA.
Essa decisão é dos dois. E a consequência também deve ser assumida por ambos. Deixar ou não de trabalhar? Sinceramente não sei.

Ele paga as contas. Em troca não se preocupa com o papel higiênico, o jantar, a tutoria de matemática, o 13° da empregada, o controle quebrado da NET, a bateria do controle do PlayStation, o vazamento da descarga do lavabo, o tomate cereja pra aula de culinária, comprar a fantasia de pirata pra festa de aniversário, o bolo pra levar pra escola (com velas amarelas, lógico), e a sapatilha do balé que ficou pequena. Isso sem falar nas coisas de amanhã.

Do outro lado, ela abandonou a vida profissional e a independência financeira, mas não tem mais os stresses do trabalho, as cobranças do chefe e pode passar mais tempo se dedicando aos filhos.

É uma troca. Se é justa ou não eu não sei. E sinceramente nem quero saber. Não importa.
Também não julgo quem decidiu dividir tarefas e não abriu mão da carreira. Ambos trabalham e ambos são pais dedicados. Acho lindo. Mas nem sempre é possível.
Enfim… Escolhas.
Mas aí veio o divórcio! E acabou a troca. Mudou o acordo. E de repente a decisão foi sua. E só sua. Você não trabalhava por que não queria. E agora?
“Se vira!”
E a areia da ampulheta cai sem trégua.
E as lágrimas teimosas também.
E mulheres discutem nervosas em rodas de amigas.
E homens esbravejam a injustiça de pagar a academia pra ex ficar gostosa pro outro comer.
E amigas super bem sucedidas te julgam pela decisão que você tomou há uma década atrás. Pelas escolhas que elas não fizeram. (Certamente são as mesmas que reclamam que não têm tempo com os filhos, que mal viram eles crescerem, ou que nem têm filhos e não fazem sexo há meses.)

Não é fácil e não tem mesmo como ser. Afinal estamos falando de corações partidos, frustrações, filhos se adaptando a novas rotinas, sociedade julgando, brigas, ofensas, mágoas. Até os mais civilizados acabam discutindo.

Não é justo. Não é mesmo. Para ambos. Mas são escolhas. E os dois precisam ser responsáveis pelas consequências delas.

Meu conselho? Procure um advogado de confiança e entregue a ele a responsabilidade de tomar algumas decisões por você.
Tristeza e coração partido não combinam com bom senso. Falar de partilha de bens e pensão no meio do furacão pode ser mais complicado do que você pode imaginar.

Não adianta pedir clareza a quem está com vontade de quebrar toda a louça na cabeça do outro e jogar fora aquela jóia caríssima que ele deu no décimo aniversário de casamento, provavelmente motivado pela culpa por ter passado o dia viajando “a trabalho” com a amante da vez.

Mas é a sua nova realidade. Você vai ter que lidar com isso mesmo depois que a poeira baixar. São decisões que vão te seguir para o resto da vida. A areia uma hora acaba e você precisa estar pronta pra isso.

Clara é escritora, divorciada, mãe, apaixonada, feliz. O seu maior prazer é deixar as palavras brincarem na sua cabeça e assumirem o controle. Recomeça todos os dias, se equilibrando em mágoas e amores.