Casamentos

O que importa é o casamento do coração - e que cada um ritualize essa união como melhor lhe aprouver: com um beijo, um contrato, um churrasco, uma festa de arromba, uma chuva de pétalas de rosa, alianças de brilhante, um bilhetinho...

casamento
Photo by Tyler Nix on Unsplash

 

Estava eu no cabeleireiro fazendo luzes, com aquela touca que deixa a gente com cara de ET que já perdeu metade dos cabelos tentando encontrar a nave-mãe, quando uma moça que fazia as unhas dos pés ao meu lado puxou conversa.  E no meio do papo, ela me sai com essa:

– Eu quero casar de branco, véu, grinalda, buquê, festa, tudo que eu tenho direito. Toda mulher quer isso – e aquela que diz que não quer, está mentindo, está só querendo se fazer de moderninha!

Minha sacrossanta pororoca da parafuseta, como eu poderia contestar aquela ideia sem ser indelicada?

– Será que todo mundo, mas todo mundo mesmo, que não tem esse sonho está mentindo? Ih, menina, então eu minto desde que nasci e não sabia…

Ela fez um muxoxo de desdém, mergulhou o olhar na revista feminina mais próxima e não falou mais comigo. Enquanto isso, eu fiquei pensando no quanto nós incorremos no mesmo erro da moça ao meu lado: para justificar nossa opinião, negamos a existência de uma opinião contrária. Para averbar nosso ponto de vista, dizemos que todo mundo concorda conosco e que quem diz não pensar como nós está mentindo.

Essa estratégia, além de antipática, é preconceituosa. Ela traz em si o germe da intolerância, sua consequência é, no mínimo, a negação de qualquer pensamento divergente. Não havia necessidade de a moça afirmar que quem não pensa como ela está mentindo – mesmo porque isso, sim, é mentira. É como se ela supusesse que fosse ser ridicularizada, então precisasse enfiar o mundo inteiro no seu sonho para validá-lo. Quanta insegurança! Alguém pode ter um sonho único, bizarro até, e ainda assim ele ser legítimo. É legítimo que ela tenha o sonho de se casar como princesa, é igualmente legítimo ter um sonho diferente ou não ter sonho algum em relação ao assunto.

As famílias, graças ao bom Deus, estão cada vez mais plurais: há casais casados no papel que não moram juntos; casais que moram juntos e não são casados no papel; casais que namoram, mas é como se fossem casados; casais que criaram seu próprio método de união e, no fim das contas, todos são casais.

O que importa é o casamento do coração – e que cada um ritualize essa união como melhor lhe aprouver: com um beijo, um contrato, um churrasco, uma festa de arromba, uma chuva de pétalas de rosa, alianças de brilhante, um bilhetinho, duas mordidas numa maçã do amor, flor de laranjeira, uma partida de xadrez, vestido branco, vestido vermelho, nenhum vestido. Está tudo certo.

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos "Loucura de Estimação", “Os Indecentes”, "Eu me possuo" entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net