Casarão de infância

Capítulo 44 32 – 32 anos, 32 homens, 32 tatuagens

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Photo by Eric Muhr on Unsplash

Família vende tudo. Esfreguei os olhos: não acredito! Desde que eu me conheço por gente aquela casa está ali, abandonada na frente do largo: imensa, soturna, paredes enegrecidas, edícula desmoronando, portões enferrujados, jardins selvagens, fonte seca. Um verdadeiro paraíso para uma criança fantasiosa. E agora sua imensa porta estava aberta para que qualquer um entrasse. Incrível! A casa deve ter sido alvo da disputa de herdeiros teimosos e avaros, só pode ser: por qual outro motivo aquele espaço imenso ficaria por três décadas abandonado?

Minha família tem lá seus desencaixes como qualquer outra, mas, graças a Deus, essa mesquinharia de brigar por dinheiro nunca nos alcançou. Ok, nós não temos muito dinheiro, mas é preciso ter muito para demonstrar apego? Dois anos atrás, depois de uma série de inquilinos inadimplentes, mamãe resolveu vender uma casa que tínhamos perto do aeroporto. Ela dividiu o dinheiro em três partes iguais: uma para cada filho. Minha irmã, porém, estava numa situação financeira complicada naquela época e meu irmão deu sua parte para ela. Eu ofereci a minha também, mas ela disse que não precisava, então eu apliquei o dinheiro. Fomos criados assim, eu acho bonito.

Não quis interromper o passo para não dar bandeira, mas foi impossível não tornar silenciosamente solene o momento de entrar naqueles portões agora escancarados. Ultrapassei o limite entre rua e propriedade privada com o pé esquerdo: tudo bem, nunca fui supersticiosa. No pórtico um senhor contava a três moças, talvez suas netas, dado o interesse com que elas o ouviam, sobre uma querela com o governo envolvendo cifras astronômicas. Eu os cumprimentei com um sorriso e um menear de cabeça e entrei na primeira sala. Sim, descobri que havia quatro delas, todas pequenas, todas com vitrais coloridos, lustres de cristal, varões em ferro trabalhado, paredes com retângulos de gesso de trinta centímetros, e, em cada retângulo, flores pintadas, um outono perfeito: verde musgo, rosa antigo, marrom, cáqui, bege, vinho desmaiado. A casa, por dentro, era sombria, suja, estava atulhada de quinquilharias antiquíssimas e caindo aos pedaços: exatamente como eu imaginara.   Numa das salas, a de jantar, a mesa parecia igual à da casa da minha madrinha em Piracicaba (outro casarão da minha infância). Para me certificar, abaixei. Conheço melhor aquele estilo de mesa por baixo, dadas as incontáveis férias nas quais eu a transformei, com a ajuda de alguns lençóis, na minha casinha sob a qual passava horas brincando até cair no sono e ser levada para a cama por alguma alma nobre. Ajoelhei, estiquei o olhar, sustive a respiração para não entupir os brônquios de poeira: não, por baixo a mesa não era igual, esta era muito mais entalhada.

No andar de cima, apenas dois quartos com seus respectivos vestíbulos e portas, muitas portas, tudo interligado – meu Deus, não havia privacidade antigamente, como transar em paz com aquele monte de frestas nas quais qualquer pessoa poderia encostar um ouvido curioso? O banheiro era apenas um: a pia, uma banheira e o vaso sanitário com uma portinhola incrustada na parede que escondia um pequeno túnel até o andar de baixo. Por que uma casa tão grande com apenas dois quartos? Não compreendo.  Desci, dei uma volta no jardim, no qual uma fonte e um balanço apodreciam (o balanço era feito especialmente para torturar crianças malvadas: de ferro, uma cadeira de frente para a outra, ambas soltas, sem barra de segurança embaixo, ou seja, se uma criança se balançasse, na volta ela bateria com tudo ou na cadeira da frente ou na perna da criança que estivesse ali sentada).  Pensei que visitar aquela casa, depois de trinta anos espichando olhos do lado de fora, fosse me causar alguma angústia ou reflexão ou estranhamento ou euforia ou saudosismo. Mas a exploração não me causou nada, nenhum frisson. Talvez a roda viva carnal na qual me chafurdo tenha me insensibilizado mais do que imagino.

Estou na corda bamba, pendurada entre dois casarões. Lá está a menina virginal que deveria a esta altura estar casada, com filhos, e participando das festas de família com seu marido de pochete e mocassim. E lá também está a louca desenfreada que dá para todo mundo e, de tão mergulhada na dor, acabou por se anestesiar, nem sabe mais o que é perna, braço, cabeça ou barriga. Estou no meio: sei que não posso ser feliz de um lado, sei que não sou feliz do outro e simplesmente não sei o que fazer. Os casarões não são mais abrigo para a minha fantasia.

 

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos "Loucura de Estimação", “Os Indecentes”, "Eu me possuo" entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net