Cegueira... sobre amor, rotina e medo...

Até o dia em que ele foi embora. E nada aconteceu.

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Quantas vezes repetiu pra ele convicta “eu morro sem você”. Ela realmente acreditava que a vida perderia o sentido. E no momento em que ele saísse pela porta, assim, como mágica, o mundo ficaria preto e branco, como se alguém desligasse um interruptor. E ela, triste, adormeceria para sempre. Até o dia em que ele foi embora. E nada aconteceu. O mundo ainda estava colorido. Estranho…

O sol misteriosamente continuou nascendo, todas as manhãs. E, aos poucos, ela percebeu que ele até parecia mais amarelo. Fazia tempo que ela não contemplava o sol. Na verdade ela já não contemplava mais nada há muito tempo. Bom, talvez o teto, nas muitas noites que passou em claro tentando entender quem era aquela pessoa deitada ao seu lado. Quando aquele cara por quem ela se apaixonou se transformou naquele estranho que roncava? Será que ele sempre roncou?

Nessas noites insones ela pensava qual a pior cegueira… A do amor, que fez com que ela não percebesse que o egoísmo dele era injusto e cruel, e que ele tinha aquela mania horrível de deixar as roupas sujas em cima da mesa de jantar, e que era obrigação dela pegá-las e colocar em um lugar mais apropriado.

A cegueira da rotina que fez com que os dois não percebessem que eles tinham se afastado tanto que já nem conversavam mais e que a ausência dele já não doía. Era até confortável. Ou o medo. Que impediu tantas vezes que ela visse o futuro, não desejasse o doce sabor da liberdade ou enxergasse as tantas possibilidades de novos prazeres e experiências que poderiam surgir.

Por vezes questionou sua decisão. Quis desistir. Mudanças são difíceis… Muitas vezes dolorosas e assustadoras. Ele não queria ir. Aparentemente estava contaminado pela cegueira da comodidade. Jogou um monte de culpas no vento. Ele também tinha as mágoas dele, os medos dele. As fraquezas. E todas as cegueiras. Ele também estava apático. Mas prometeu mudar. Exigiu mudanças.

Talvez fosse mais fácil ficar. Tentar salvar o que um dia existiu. Mas já não existia nada pra salvar. Já não existia amor que fizesse tudo valer a pena. Já não existia nada além do teto do quarto. Ou da insustentável solidão do jantar a dois. Ou o ronco. Restava tentar sair sem deixar que a mágoa apagasse o passado e os momentos felizes que viveram juntos. E à medida em que a dor foi passando e a cegueira do luto dissipou ela passou a ver, ainda que distante, um mundo inteiro de possibilidades.

 

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*Photo via VisualHunt

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Clara é escritora, divorciada, mãe, apaixonada, feliz. O seu maior prazer é deixar as palavras brincarem na sua cabeça e assumirem o controle. Recomeça todos os dias, se equilibrando em mágoas e amores.