Chico Xavier e a homossexualidade

A função do sexo vai muito além da procriação: ele é um instrumento abençoado de felicidade, prazer, comunhão, intimidade.

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Photo by Jason Leung on Unsplash

 

Existem algumas figuras que ultrapassaram seus nichos religiosos e se tornaram exemplos públicos de amor e caridade: Madre Teresa de Calcutá, Irmã Dulce, Gandhi etc.

Eu ganhei um DVD interessantíssimo. Trata-se de duas edições do programa de entrevistas Pinga Fogo (extinta TV Tupi), realizadas em 1971, com uma dessas figuras: Chico Xavier. O primeiro programa durou quase três horas; o segundo, pasmem, possui quatro horas de duração. E tudo isso ao vivo.

Nas inúmeras perguntas feitas ao médium, foram abordados temas como a pena de morte, planejamento familiar, amor livre (com uma surpreendente e belíssima resposta de Chico), Guerra do Vietnã e até congelamento de corpos. Um dos temas, porém, chamou minha atenção em especial: a homossexualidade. Peço licença para reproduzir parte de sua resposta:
“Não devemos desconsiderar a maioria dos nossos irmãos que estão na Terra em condições inversivas do ponto de vista de sexo realizando tarefas muito edificantes num caminho de redenção de seus próprios valores íntimos. Consideramos isso com muito respeito e acreditamos que a legislação no futuro, em suas novas faixas de entendimento humano, saberá incorporar à família humana todos os filhos da Terra, sem que a frustração afetiva venha a continuar sendo um flagelo para milhões de pessoas. A frustração afetiva é um tipo de fome capaz de superlotar os nossos sanatórios e engendrar os mais obscuros processos de obsessão. Por isso mesmo devemos ter esperança de que todos os filhos de Deus na Terra serão amparados por leis magnânimas com base na família humana, para que o caráter impere acima dos sinais morfológicos e haja compreensão humana bastante para que os problemas afetivos sejam resolvidos com o máximo respeito pelas nossas leis e sem abalar 1 milímetro o monumento da família que é base do estado.”

Que resposta profunda, atual e claramente a favor dos direitos homossexuais! (Se você viu algum traço de reacionarismo nela, releia todo o período com calma.)

A função do sexo vai muito além da procriação: ele é um instrumento abençoado de felicidade, prazer, comunhão, intimidade. O sexo é o que ele realiza, assim como o dinheiro: com boas intenções é maravilhoso, com intenções nefastas é arma assassina. O mal ou o bem não está, portanto, no sexo, mas na intenção de quem o realiza. E se a intenção está coroada pelo amor, em que residiria o mal? Provavelmente na cabeça de quem acusa, no desejo inconfessado, na inveja pela alegria alheia, pela coragem que o outro possui.

De fato, a fome afetiva pode lotar sanatórios: uma pessoa impedida de realizar o ato mais sublime, mais significativo, que mais justifica a vida, que é amar e concretizar esse amor, está sendo condenada à loucura. Você aceitaria essa pena?

 

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos "Loucura de Estimação", “Os Indecentes”, "Eu me possuo" entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net