CHUCHU NA SERRA -parte 2 - Em busca do sexo perdido...

Carente, sim; frágil, certamente; burra, nem tanto.

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Não sei muito sobre como funcionam as coisas em Marte ou Vênus- aqui na Terra já me parecem difíceis demais. Então, para que inventar? Provavelmente tirarei zero em qualquer teste de inteligência emocional, e na verdade é que sempre fui mais do tipo “cada cabeça uma sentença”, “livre arbítrio” e coisas assim.
Basicamente, em uma linguagem menos científica, homens são machos e mulheres são fêmeas, e, como quaisquer outros animais, seguirão um ritual de acasalamento. Um tentando atrair o outro da maneira mais conveniente. Em nenhuma espécie além da humana, entretanto, faz diferença se a fêmea é recém-separada.
Se alguém tiver a oportunidade de assistir a um ritual desses de qualquer outra espécie, provavelmente reconhecerá um ou outro macho. Aquele que infla o peito, aquele que mostra uma ferocidade além da necessária, aquele que mostra a pelagem mais bonita, ou aquele que, no caso dos humanos, mostra o carro maior. Em geral, a parte masculina do ritual consiste em suplantar adversários.
No caso da descasada, alguns machos acham que o fato de outro macho ter saído recentemente da cena implica automaticamente um aumento da probabilidade de sucesso.
Ledo engano.
Carente, sim; frágil, certamente; burra, nem tanto.
Cedo ou tarde, talvez devido à má fase no contato social com membros do sexo oposto em geral, a mulher descasada fatalmente terá que lidar com um espécime de hábitos bem específicos: o “namorado-albergue”.
Após meses de celibato indesejável, seus hormônios começam a chiar, em uma desafinada sinfonia. A essa altura, quando até quadrinhos do “Amar é … ” adquirem uma conotação erótica, a descasada finalmente começa a exibir características que se enquadram no tal “imaginário masculino”.
Depois de tantos desastres, é natural que você se sinta inclinada a aumentar a abrangência no seu campo de pretendentes, tentando expandir seu “leque” de opções, ou, em linguagem mais clara, você já está praticamente matando cachorro a grito.Talvez porque a sorte esteja mesmo mudando ou talvez porque o desespero tenha danificado seu nível de exigência, surge nesse momento um tipo de companheiro especial, que à primeira vista lhe parecerá excelente, principalmente se comparado aos anteriores.
Na natureza, machos de várias espécies procuram acasalar com o maior número possível de parceiras em condições de procriar. A máxima é verdadeira também com relação aos machos da espécie humana, só que com mais ênfase no número do que exatamente na parte da procriação …
Cientificamente, com os machos humanóides jovens e solteiros (ou sem supervisão) ocorre um fenômeno ainda mais interessante, conhecido como “deu mole, tô pegando”.
E é assim que, em resumo e não tão raramente, alguns rapazes jovens e viris poderão vir a ter sua parcela de participação na vida da descasada.
Esses elementos, atraentes, simpáticos e a princípio inofensivos, podem surgir de várias maneiras. Pode ser o
irmãozinho de uma amiga não muito chegada que você encontra por acaso. Pode ser um garoto que você conheceu quase sem querer em uma balada, o estagiário recém-contratado ou o novo professor de tênis do clube.
Em geral ele é mais novo, e certamente é mais “atirado”, já que é dele a iniciativa de puxar conversa. Sem dúvida você vai achá-lo muito interessante e gentil! E com certeza você está tão carente que ele vai te ganhar fácil, fácil…
Mesmo consciente de toda a sua carência ou talvez por causa dela, você atribui a ele o início da relação. Dirá para si mesma que foi ele quem “conquistou” você, e esse é só o início das secretas e constantes sessões de autojustificativa, quando se exageram as qualidades, as performances e os motivos.
Esse rapaz não é exatamente o que sua mãe sonhou para você, talvez menos ainda seja o que você sonhou para você. Mas o que ele não tem em profundidade, compensa em desempenho. E, afinal, você também merece um pouco de diversão, ora essa!
Muito provavelmente se passarão alguns meses antes que o sexo e filmes alugados deixem de parecer programas tão divertidos assim e até que a descasada comece a observar certos detalhes, como o fato de que o rapaz dorme sempre na casa dela – onde, aliás, geralmente também aproveita para fazer uma boquinha.
Em geral, esse “namorado” jamais é apresentado à família e muito menos ao comitê de desencalhe, já que é muito difícil explicar para os parentes – sem provocar um enfarte no seu avô – exatamente em que ele é melhor que os outros candidatos que eles ofereceram.
Após um período variável, a carência física fica temporariamente resolvida e em breve a mulher começa a assumir que há “algum problema com esse garoto”. Logo se dará conta de que, quando e se ele traz algo, geralmente é cerveja ou outra coisa que ela não bebe. Isso porque ele tentou tomar o refrigerante diet dela, mas “aquilo é muito ruim”. Aliás, ele não entende por que ela compra “essas porcarias” se tem o corpo tão bem-feitinho, e ele gosta dela do jeito que está, desde que- é claro – não engorde nem um grama.
Mais e mais ele prefere “ficar em casa”. Amigos dele ela nunca verá, e os dela são “intelectuais” demais para ele. Livros?
Melhor esperar pelo filme. Filmes? Só se for de lutas.
Depois de satisfeita a “curiosidade” pelo garotão cheio de energia, o encanto vai se perdendo, aos poucos a relação se desgasta e os conflitos começam.
Encare os fatos; malabarismos sexuais divertem, exercitam e são um ótimo anestésico para a realidade, mas quem tem energia para ficar só nisso? Finalmente, a mulher percebe que entrou nessa apenas para “ver se podia. Para ela, foi apenas mais uma bobagem motivada pela carência. Essas coisas incentivadas pelas personagens de novela de TV.
Para ele, entretanto, as coisas são diferentes, mais intensas.
Ele entrou “de cabeça” nessa relação, motivado pelo que no meio testosterônico é considerado um objetivo muito nobre: economizar o dinheiro do motel.
Apesar das diferenças na abordagem, ambos concordam que a relação não tem muito futuro, e, como todas as aventuras tendem a acabar, esse tipo de namoro termina quase tão displicentemente como começou.
Pelo menos desta vez a mulher sai, normalmente, apenas com uma conta imensa do mercado (e da loja de lingerie), mas, felizmente, com o coração intacto. Pelo menos desta vez.
Contabilizando, até que não foi tão ruim assim …
Existe uma outra espécie de relacionamento ainda mais econômico, financeiramente falando. São relações superficiais, mas, em alguns casos, efetivas. Efetivas e perigosas.
Diante da oferta generalizada, algumas mulheres sucumbem à tentação de estabelecer para si uma espécie de rede de “prestadores de serviços”, utilizando para isso, de maneira exclusiva ou rotatória, um ou outro dos “amigos solidários”. O candidato da vez é escolhido após uma ponderada análise e de acordo com suas “aptidões” para resolver os problemas mais urgentes, desde arrumar o vazamento da máquina de lavar até ser seu par na reunião de ex-alunos do primário.
E esses amigos solidários estarão prontos a atender o chamado em troca de um pouco de “atenção”, seja ela real ou fictícia. O que importa para eles é suprir quaisquer necessidades, sem nenhuma outra dúbia intenção, a não ser, é claro, discutir a nova relação com os amigos da sauna. Quase sempre esses “amigos solidários” fazem mais mal do que bem. Na verdade, o desprendimento que caracteriza essa relação, em princípio tão proveitosa para os dois, é apenas um atestado de incapacidade emocional.
Fato: claro que esse tipo de relacionamento supre carências momentâneas. No entanto, na hora em que seu nariz estiver parecendo uma batata roxa e até seus cílios estiverem doendo por causa de uma gripe, nenhum desses amigos se habilitará a fazer o chá …
Algumas mulheres conseguem levar adiante essa rotina por um longo período, mas a maioria tende a voltar à solidão, quer por cansaço, quer por achar que merece e deseja mais do que encontros ocasionais com esses “amigos solidários especiais”.

* Photo credit: jpcolasso via Visual hunt / CC BY-SA
**Conteúdo retirado do Livro “Aperte o cinto, seu marido sumiu”, com modificações, com a devida autorização e revisão da autora.

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Carla é escritora. Para ela, a vida começa e recomeça quantas vezes forem necessárias, a sua personalidade e o seu senso de humor que ditarão o quão divertida a jornada será.