Comer, comer, comer

O Diabo que te carregue - capítulo 14

woman-mouth-teeth-sweets-chocolate-bite

 

O amor é contrário a si, escreveu Camões. E como! O que nos faz experimentar uma das mais intensas alegrias é a mesma coisa que nos traz um dos mais intensos sofrimentos: o amor. O amor não-correspondido. Melhor dizendo, a paixão romântica não-correspondida, já que o amor não exige correspondência para fluir generoso: o amor se estende por outras e melhores esferas.

Toda a crença que mantemos a respeito da paixão romântica – encontrar a cara metade, ser feliz, plena – desmorona quando ele vai embora para um flat no meio da noite. Separar-se é quebrar a quimera de que a paixão pode ser boa, prazerosa e eterna; separar-se é encarar sua face dura, descarnada e volúvel.

Só os separados e apenas os separados tem certeza: não, não é possível ser feliz no amor. O raciocínio é simples: se não foi possível ser feliz com uma pessoa tão cuidadosamente escolhida, tão amada, a quem dedicamos todo nosso empenho e energia, como ser feliz com qualquer outra pessoa?

Perdida nessas elucubrações, lá está você num supermercado, comprando repelente para mosquitos quando encontra uma prima. Com aquela estranha euforia que só os apaixonados têm, ela te conta que vai se casar pela segunda vez. Você nem consegue disfarçar o horror que sente: depois de tudo o que ela sofreu no primeiro casamento, vai se enfiar em outra roubada? Será que ela perdeu o juízo?

Mesmo soando ridícula, você confessa que, neste momento, não consegue entender as pessoas que se casam (ou se relacionam a sério com alguém) de novo. A última coisa que você quer no mundo é passar por isso mais uma vez – e firmar um compromisso romântico significa deixar a porta aberta para tudo se repetir.

Se você pudesse fazer apenas um pedido ao gênio da lâmpada, sabe bem qual seria: por favor, entidade mágica, faça com que eu nunca mais, nesta vida ou em outras, me apaixone romanticamente. Que eu sinta paixão pelo trabalho, pelos amigos, pelas atividades religiosas, por meus filhos, mas não por outro homem. Me imunize, gênio. Me vacine. Me proteja.

Foi aí, exatamente aí, depois do encontro com sua prima casadoira no supermercado, depois de perceber que as mulheres são capazes – e que talvez até você seja capaz – de fazer a burrada de enfiar um outro bofe em suas vidas, que você começa a comer, comer, comer feito louca. Ficar gorda além do seu limite poderia ser útil, poderia te proteger dos homens, te afastar deles já que você se sentiria mal com seu corpo. E lá veio ela, a velha conhecida, de chicote em punho: a compulsão furiosa. Barras de chocolate, latas de leite condensado, sorvete, bolachas. Salgadinhos, queijos amarelos, frituras, salames. Batata, macarrão, carnes gordas. Sonho, só de creme. Pesadelo, todos os dias.

De alguma forma você está agarrada à dor da separação e a comida te ajuda a reter essa dor. Como um zumbi esquálido, você se alimenta de um osso nu. Não há mais nada aqui, as ilusões se esfarelaram, a relação acabou, talvez a única coisa que tenha te sobrado, que faça algum sentido, que justifique você ainda respirar, seja a dor. A verdade é que você precisa sair desse pântano no qual se debate, no qual se mantém, no qual se martiriza. E engordar sem ser por prazer só vai te fazer atolar ainda mais fundo, só vai te fazer se sentir pior. Parece óbvio – e de fato é –, mas não é nada fácil sair desse lugar que se torna a cada dia mais asfixiante.

 

 

Clique aqui para ler o capítulo 13

Clique aqui para ler o capítulo 12

Clique aqui para ler o capítulo 11

Clique aqui para ler o capítulo 10

Clique aqui para ler o capítulo 9

Clique aqui para ler o capítulo 8 

Clique aqui para ler o capítulo 7

Clique aqui para ler o capítulo 6

Clique aqui para ler o capítulo 5

Clique aqui para ler o capítulo 4

Clique aqui para ler o capítulo 3

Clique aqui para ler o capítulo 2

Clique aqui para ler o capítulo 1

Clique aqui para ler a abertura

Siga Stella Florence também no twitter @Stella_Florence e no site  www.stellaflorence.net

Fanpage: facebook.com/escritora.stellaflorence/
Instagram: @escritora.stellaflorence

*Photo via Visualhunt

**Esse conteúdo foi originalmente publicado no livro: O Diabo que te Carregue, da autoria de Stella Florence e foi reproduzido aqui com a devida autorização e revisão da autora.

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos “Os Indecentes”, "32", “Hoje acordei gorda”, entre outros. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net