Confessionário

O Diabo que te Carregue capítulo 43

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Você sempre achou meio esquizoide o comportamento de certos casais que insistem em contar todas as experiências para o parceiro – experiências presentes e passadas. Do cinema hoje à tarde até aquela noite, remota e perdida no pretérito imperfeito, em que você transou sem camisinha com um estranho; do mau-humor crônico do seu chefe a primeira vez em que você jogou fliperama; do beijo roubado na escola até o ex-namorado que insistia em transar a três.

Estranho. Estranhíssimo. É como se, ao casar ou ao ter um relacionamento sério, não houvesse mais espaço para memórias particulares. Mais do que isso: é como se fosse errado, criminoso mesmo, esconder uma agulha na sua mente sem mostrá-la, enferrujada ou brilhante, ao seu companheiro. E aí nasce a dependência, a desconfiança, o ciúme, a perda de privacidade. Daí seu ego se derrete e se mistura ao de outra pessoa, formando uma monstruosa terceira entidade.

Há uma imagem perfeita para isso: lembra daquelas massinhas de modelar da época da escola? Quando a gente pegava uma azul e misturava com outra amarela, o que dava? E uma verde com outra vermelha? O que dava? Dava nada. Dava cinza. As massinhas, quando misturadas, quando sovadas umas nas outras, perdiam a cor original, viravam uma meleca cinzenta. É exatamente isso que acontece com um casal quando ele cisma em levar adiante essa história de “nós dois somos um”. Os dois acabam virando uma massa cinza. E dá-lhe engorda, dá-lhe depressão, dá-lhe pânico, dá-lhe enxaqueca e mais todas as doenças somáticas juntas para sustentar essa antinatural perda da individualidade.

Para você, casamento não é, nem nunca foi confessionário e, embora o status público da relação estável suponha uma entrega total, existem experiências que você acredita serem – e continuarão sendo – absolutamente particulares. No entanto, agora você não está mais casada e esse assunto não lhe diz respeito, certo? Errado.

Para que haja um relacionamento equilibrado entre duas pessoas que já foram casadas (casadas uma com a outra), é necessário criar, durante e após a separação, um delicado encaixe, um trabalho contínuo e perseverante, no qual algumas regras serão mantidas e outras modificadas.

Como você já percebeu, depois da separação, começa uma nova cruzada, não em rumo à conquista nem ao sangue, mas sim em busca de um oásis possível chamado paz.

E agora você se dá conta de que, da mesma forma que casamento não é confessionário, separação também não é. Manter uma boa relação com seu ex não significa contar tudo o que você anda fazendo e esperar que ele também te encha de detalhes sobre como anda a vida sem você.

Ex-marido é uma entidade específica, à parte de tudo mais.

Ele não pode ser seu amigo? Claro que pode. Mas não um amigo com quem você comenta o quanto seu novo namorado faz bem sexo oral.

Você não pode ser amiga dele? Claro que pode. Mas não do tipo que empresta o ombro para ele chorar o fora que levou de uma colega de trabalho de corpo escultural por quem ele sempre babou.

Assimile a grande verdade pós-separação: você terá mais ciúme dele agora que ele é seu ex do que quando ele era seu marido. Por quê? Porque agora você não apenas desconfia, mas tem certeza de que ele está com outras mulheres e isso te fere como lâmina quente estripando um tolete de manteiga.

Para que seu coração se dê conta de que vocês se separaram, seria preciso ensiná-lo a ler advoguês e prender o papel do divórcio nele, com um alfinete. E o alfinete sangra, os cortes pequenos são os que mais doem. Portanto, quanto menos você souber da vida do seu ex, melhor.

Se quando vocês estavam casados já era importante manter a individualidade, um espaço privado, memórias que só a você ou só a ele diziam respeito, é muito mais importante agora. Agora, muito mais.

 

 

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**Esse conteúdo foi originalmente publicado no livro: O Diabo que te Carregue, da autoria de Stella Florence e foi reproduzido aqui com a devida autorização e revisão da autora.

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos "Loucura de Estimação", “Os Indecentes”, "Eu me possuo" entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net