Crônica do jardineiro e suas mudas

Eu, que já fui planta no jardim, me vejo hoje com um tronco robusto, flores recobrindo meus galhos, minhas sementes dando início a novos ciclos e minhas raízes tão emaranhadas neste novo solo, que me compadeço da nova muda que ele não saberá ouvir.

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Ele não consegue entender bem o que ocorre, tão logo ele começa a cuidar de uma muda nova, a faz tão muda que se sente só e murcha. Era tão bonita, tinha tantas cores, agora é  cor de sépia,  tal como a flor que se desidrata no meio de um livro esquecido… Ele negligencia água, faz podas acentuadas, não adiciona um substrato na terra para que fertilize, rebrote… Ela quase morre… Aí, desesperado com o que os donos de outros canteiros podem pensar de sua planta desfalecida e mal-cuidada, ele resolve regar como nunca antes, então ela mal abre suas folhas e se sente afogada em tanta afobação e ansiedade, no meio do desespero, tomba… Ele a abandona! Afinal, é justificável que se abandone uma planta que não dá flores… Se não dá flores, não brotam frutos, se não há frutos, não há serventia, ela nem mesmo embeleza mais o canteiro…

Ele adquire outra planta, e aquela que perdeu até as folhas ele abandona numa terreno qualquer, à própria sorte, para a sorte dela… Vou contar-lhes o destino delas:

Opção A: ela, distante dos maus-tratos e negligências, ao calor do sol e frescor da noite, à mercê das chuvas finas ou torrenciais, rebrota, firma, quebra o vaso com suas raízes, finca-se no chão como se tivesse nascido ali, ganha força e robustez, passa a ser admirada pelos transeuntes, um dia alguém a acha tão bela, tão cativante, que a leva para cuidar-lhe ainda mais.

Opção B: o mesmo ocorre, mas mesmo que nenhum outro jardineiro a leve, ela se vê saudável e estável, e floresce em seu próprio tempo, à sua maneira. Embrutecida pelo que passou, torna-se frondosa e inacessível, folhas secas se enrolam em espinhos.

Opção C: ela não suporta a fase difícil, sucumbe, seca, morre, fica esquecida.

O homem quando passa e a vê bem, volta o olhar para sua muda nova, começando a murchar e não compreende sua má-sorte com plantas. As culpa pela falta de vigor e beleza, chama-as de fracas, loucas, como podem não ter florescido durante sua vigília? Acredita que a falha está em quem as preparou, nunca em seus incautos cuidados.

Quando vê a planta antiga rebrotando, ele debocha de sua luta. Considera uma afronta que tenha sido melhor longe dele.

Quando a vê morta, acredita que de fato ele tinha razão em descartar-lhe. Como pode ter perdido tanto tempo com uma muda ruim? Como pode não ter percebido que nada a faria florescer? Então ele crê que foi perda de tempo, desperdício de seus dons de jardineiro.

Eu, que já fui planta no jardim, me vejo hoje com um tronco robusto, flores recobrindo meus galhos, minhas sementes dando início a novos ciclos e minhas raízes tão emaranhadas neste novo solo, que me compadeço da nova muda que ele não saberá ouvir. Gostaria de lhe dizer que não resista tanto, que não se esmere por tão pouco, que não pareça melhor do que está, porque isso só vai prolongar seu tempo naquele lugar, só vai suprir as certezas do cuidador de que está tudo bem, quando na verdade não está.

Lamento pelas mudas terrivelmente mudas por aí, espalhadas neste mundo, em algum vaso imundo, esperando que o jardineiro mude, mas ele não muda… Apenas elas mudam e se emudecem…

Separada, superada, sem parada! Apaixonada novamente Dois filhos terríveis e lindos Buscando autoestima e autoconfiança Professora e aprendiz, sempre!