De onde Fala? A separação de um casal olhada pelo prisma dos filhos

É uma tarefa delicada escrever sobre a separação. O que dizer a respeito deste momento em que duas vidas deixam de caminhar juntas? A tarefa parece tão grande que resolvi dedicar meu primeiro texto justamente às dificuldades que surgem diante de mim ao ocupar, aqui, este espaço. Isto pode ser importante para deixar claras as minhas intenções e os limites do que se pode dizer assim, de um modo geral, e neste veículo tão peculiar quanto é a internet. Espero que as minhas dúvidas já sirvam para clarear um pouco as coisas para aqueles que estão lendo, essa é a intenção.

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É uma tarefa delicada escrever sobre a separação. O que dizer a respeito deste momento em que duas vidas deixam de caminhar juntas? A tarefa parece tão grande que resolvi dedicar meu primeiro texto justamente às dificuldades que surgem diante de mim ao ocupar, aqui, este espaço. Isto pode ser importante para deixar claras as minhas intenções e os limites do que se pode dizer assim, de um modo geral, e neste veículo tão peculiar quanto é a internet. Espero que as minhas dúvidas já sirvam para clarear um pouco as coisas para aqueles que estão lendo, essa é a intenção.

Uma das dificuldades vem do fato de que escrever algo sobre “a separação” (assim, como um grande e pesado substantivo) vai numa direção diametralmente oposta ao trabalho que realizo diariamente no meu consultório, e digo ‘oposta’ em dois sentidos bem claros. Em primeiro lugar porque meu trabalho consiste, primordialmente, em escutar. E em segundo lugar, ligado a isso, está o fato de que um psicanalista busca escutar justamente o que existe de mais singular em cada um que se dispõe a encontra-lo. No final das contas, não exista “a separação”, mas a separação de cada casal: acho isso fundamental. Portanto falar (ou escrever) sobre generalizações me parecia muito arriscado. Mas, por alguma razão, achei que era um risco que valia a pena correr.

Mais delicado ainda é escrever sobre este assunto, que já parece tão espinhoso, do ponto de vista dos filhos, eles que são justamente os mais vulneráveis e encarnam justamente aquela parte da relação que jamais deixará de existir. Sim, porque tudo o mais pode tornar-se parte do passado, não os filhos. Foi isso, principalmente, o que me motivou a aceitar este desafio.

É a mais absoluta verdade que, ao se separar, cada um é único; não há dois seres humanos que ocupem o mesmo lugar, jamais. Também é verdade que cada um precisa buscar a própria forma de seguir a vida depois de uma relação que se quer encerrar, mas isso não significa que tudo dê no mesmo e que não precisemos tomar alguns cuidados, especialmente no que diz respeito às crianças: os pequenos estão sempre à mercê das decisões e das palavras dos adultos, e seria bom que isto estivesse claro para pais e mães. Por mais que se esteja decidindo romper uma relação, as responsabilidades em relação os filhos não desaparecem.

Outro ponto que tive que considerar é que estes textos circulariam pela internet, o que me informa algo a respeito de quem vai ler. Afinal, há o leitor de uma tese de doutorado, o leitor de uma notícia de jornal, o leitor de um romance de 700 páginas escrito no século XIX, há o leitor de receitas e o leitor de poesias… Todos eles podem, inclusive, ser a mesma pessoa. Em qualquer destes gêneros de texto, nosso leitor imaginário poderia aprender coisas valiosas a respeito da sua própria separação ou qualquer outro assunto que já tenha afligido a humanidade.

A leitura na internet tem como traço principal a fluidez; é preciso ser rápido, não ocupar espaço demais, e ainda assim escrever algo que valha a pena ser lido e não seja o mesmo que já se diz por aí… Por isso eu diria que vale a pena, sim, buscar alguma orientação neste oceano que é a internet, mas também vale escutar música, buscar nos livros, nas conversas com amigos ou nos filmes. Também pode ser o caso de buscar alguma a ajuda de um terapeuta ou psicanalista. Afinal, quando falamos das dificuldades da separação, falamos das dores do amor, e são os filhos que carregam no corpo e no nome a história do que vivemos até aqui. É este o nosso assunto.

Miguel É psicólogo e psicanalista, trabalha em seu consultório e circula no meio escolar tratando das questões ligadas à inclusão. Nos seus textos publicados aqui, procura aproximar os olhares de adultos e crianças. vallim.miguel@gmail.com