Eu me apaixonei - desabafo do Leitor 65

Aí vem o dia seguinte, e aquela vontade de morrer, desaparecer, me enterrar... Passei o dia com os batimentos acelerados, com as mãos suando de tanto segurar o celular, esperando uma ligação, uma mensagem, qualquer coisa.

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Eu me apaixonei! De maneira tão avassaladora que larguei tudo, me desprendi de mim, me doei, me dei, me exonerei para ser somente dele. E a ele entreguei o amor mais vulnerável, violento, louco e insano que se pode dar a alguém. Vivi os sonhos dele, os planos dele, as promessas dele. Acompanhei em tudo, entreguei o que tinha, o que não tinha, o meu nome… dele peguei só o sobrenome… Nos casamos!

Nesse meio tempo enfrentei ex-mulher, humilhação, mentiras, invenções de todos os tipos… Até câncer ela disse ter… Ele chorou, eu consolei… Nem sei onde enfiei meu amor-próprio nesse momento… Eu permaneci lá, ao lado dele. Aos poucos os problemas surgiram ainda maiores, as irresponsabilidades financeiras também… Não havia orçamento que coubesse, e as contas chegavam e se acumulavam rapidamente. Pensão nunca foi um problema pra mim, até eu ter um filho dele e ver o recurso de casa saindo e nada ficando… Até ter que comprar enxoval usado para o meu filho e tablet para a enteada… Até ficar sem um real no bolso e pagar passagem de avião para visitas… Até ficar devendo a escola particular, ela perder o ano e o meu filho esperando uma vaga na creche municipal…

Fui me revoltando, fui me sentindo traída pela falta de senso de equilíbrio e justiça dele… Fui me deprimindo… Uma avalanche de críticas no dia, nenhum elogio! Eu gostava de present ear, tanto ele quanto as NOSSAS crianças… Lembrava da páscoa, mandava ovo pra filha dele do outro lado do país… Eu não ganhava um kinder-ovo. Mandava presente de aniversário com bilhete do pai, eu não ganhava um biscoito por ser uma boa menina e me comportado bem.

Eu errei também, fui largando a casa, não sentia vontade de nada, não queria fazer comida, lavar, passar… Eu não queria nem sair da cama mais. Lembrei de tantos episódios ruins, que me contaminei! Eu queria os mimos do começo, queria que ele ficasse até mais tarde um pouco assistindo um filme comigo, queria fazer amor à noite, mas ele nunca podia. Queria que ele me chamasse para um almoço fora, queria que ele se oferecesse pra olhar as crianças enquanto eu cortava o cabelo. Queria que ele ficasse me agarrando na cozinha enquanto eu fazia nosso almoço ou arrumava a bagunça. Mas ele ficou na posição de rei, com o controle remoto na mão, me dizendo o que fazer, como fazer, quando fazer…

Me senti sem valor, fui murchando, caindo, definhando, me reduzindo a pó. Surtei, pedi um tempo… Ele não me ouviu! Surtei de novo, prometi me jogar do carro, morrer, me matar, sumir… Pedi pra ele mudar o jeito mandão, de impor suas vontades, a pressa exagerada e sem justificativa, as manias. Pedi pra almoçar na mesa e parar de enfileirar ossinhos de asinha no braço do meu sofá… Ele não deu bola!

Eu amava, amo, amarei… Mas eu precisava de mudanças! Um dia ele perguntou se eu queria separar, eu disse SIM! Ele foi embora… me amou como há muito tempo não me amava, fez as malas e partiu, deixando um abismo sem fim no meu peito. Eu quase morri, caí no chão, vomitei, gritei, chorei mais um pouco… Me arrastei até a cama e não dormi. Tomei um porre, dormi finalmente!

Aí vem o dia seguinte, e aquela vontade de morrer, desaparecer, me enterrar… Passei o dia com os batimentos acelerados, com as mãos suando de tanto segurar o celular, esperando uma ligação, uma mensagem, qualquer coisa. Ele se ajeitou tão rápido, estava empolgado, mas se dizia triste. Arrumou dinheiro, um apê, foi de vez! Feriado passado veio ver as crianças… Foi bom, nos amamos, eu estava com saudade. Depois friamente ele pegou o resto das coisas e saiu. Olhei no relógio, ele não tinha ficado nem 3 horas conosco. Pedi pra ele ficar, dormir em casa, ele não quis. O dia seguinte foi um martírio, nenhum sinal de amor, de retorno, de recaída… Passei o dia achando que ele ia aparecer a qualquer momento, ele gostava de surpreender no começo da relação… O telefone dele ficou fora do ar e eu criei mil expectativas. Achei que ele apareceria ainda, fiquei no portão, pus uma cadeira lá, escureceu, tive que aceitar que ele não ia aparecer.

Vi pelo extrato que ele gastou com almoço, mais do que o normal… Lembrei de um dos motivos da minha insatisfação: ele sempre tinha uma desculpa para fazer coisas pelos outros, e sempre tinha uma desculpa para não ter feito por mim. Ele disse no feriado que quando tivesse dinheiro ia comprar um brinquedo para o filho, mas era capaz de gastar o que tinha com um estranho enquanto isso… Nós éramos segundo plano de novo…

Mesmo assim eu queria que ele aparecesse. Pensei mil vezes em escrever, xingar, reclamar disso, mas apaguei todas as vezes e não mandei nada. Fiquei horas olhando pra tela do contato dele no whatsapp. Mas não tive coragem de mandar nada. Queria que ele mandasse, queria uma vez não dar o primeiro passo. Queria que partisse dele, esperei por isso…

Hoje é sexta, ele saiu mais cedo do trabalho… Disse que estava passando mal. Esperava que ele viesse pra cá… Não porque eu convidei, mas por vontade dele. Ele não veio… Aí resta a dúvida: será orgulho ou ele não sente essa vontade? Qualquer uma das opções me machuca! Queria saber se ele sente vontade de vir, de me ver, de ficar comigo. Queria saber se durante o dia ele também pensa numa desculpa para falar comigo. Precisava saber se ele só estava esperando minha decisão para partir, pois não queria me magoar. Eu preciso muito saber tudo isso… Queria que ele chegasse aqui com flores e presente, me chamando pra jantar! Devo ter visto filmes demais…

Eu só queria ser especial, motivo de loucuras. Queria que ele mostrasse que o amor é menor que o orgulho. Eu precisava ardentemente disso… Por mais tolo que pareça! Eu me sinto como se tivesse que escolher entre uma infelicidade crônica ou aguda… Pois morando juntos, somos incompatíveis… Separados sou incompleta… Discordamos em tudo ou quase tudo, embora cama seja um momento de trégua sempre, e sempre é ótimo!

Perfeito seria se ele tivesse a casa dele, eu a minha e fôssemos um do outro. Contas separadas! Trabalhos distintos! Seria perfeito assim… Mas não é assim que funciona e ele não aceita essa modernidade toda… Mas eu preciso dele aqui, vou morrer, não vou suportar, estou sufocada, sem ar, sem saída… Não imagino a minha vida sem ele, não consigo pensar nele com outra, não consigo viver sem ele…

 

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