DEVORADORA DE HOMENS - O Diário de Verônica Volúpia

“E hoje, o seu coração já se apaixonou?”. Mordi o lábio inferior, olhei bem nos olhos dele: “Já”.

19399703050_e518b6a3b5_o
Photo credit: Tom Simpson via Visualhunt.com / CC BY-NC-ND

Minha mãe foi viajar e deixou-me a cadelinha “Brigitte” sob custódia. Uma gracinha, a Yorkshire. Esperta, obediente e, como todo animalzinho peludo bem cuidado, linda. Nunca pensei em ter um bicho de estimação. E confesso: a experiência de passar um fim de semana acompanhada de latidos e lambidas eufóricas não alterou meu regozijo em viver tão somente em minha própria e excelente companhia. Seres vivos e pulsantes, sob o mesmo teto, só para momentos de deleites esporádicos. Ok, talvez nem tão esporádicos assim.

 Brigitte Bardot foi um presente do meu pai. Uma homenagem à amada que ele chamava de “verdadeira diva” por sua beleza, opulência e semelhança com a atriz. Linda ao natural e inteligente por mérito, minha mãe desde cedo optou por investir no intelecto. Em vez de lingeries, livros. “O corpo é limitado, a mente não tem fim”, dizia. E me ensinava: “Um homem jamais vai enxergar quem você realmente é. Mas a mulher que você entregar pra ele é a mulher que ele vai amar. É preciso que você também a ame. Porque ela será você, integralmente, nessa relação”. Sábias palavras. Talvez por isso eu ame ser todas essas mulheres que sou, uma para cada um, todas a um só tempo. Mas não estou aqui para falar da minha árvore genealógica.

 Subi num salto altíssimo para passear com Brigitte. Não sei andar de tênis, sou dos extremos: ou nas alturas, ou pés descalços. Coloquei uma coleira de couro nela e outra com um pingente em mim. E lá fomos nós, pelas redondezas, a balançar nossos rabinhos. Meu vestido soltinho era desses que imploram para serem olhados, com pregas profundas que entram convidativas nas coxas. Óculos escuros, claro, em incentivo aos tímidos. Pode me desejar que eu deixo. E gosto.

 “Devoradora de homens” foi um dos títulos com que as línguas sensacionalistas do século passado presentearam a Brigitte Bardot original. Pura inveja. E falta de autocrítica. O que é um ato sexual senão um mútuo devorar-se? Que mulher não é uma devoradora de homens? Todas somos. O que muda é o grau de gulodice. Há quem alimente o corpo sem espasmos. Como fazem? Não pergunte a mim.

 Por ironia do destino, a raquítica cachorrinha da minha mãe não gosta do sexo masculino. Nem canino, nem humano. Não pode ver um macho que arreganha os dentes, vira uma fera. Fiz duas tentativas de aproximação com cães que encontramos pelo caminho e ela foi totalmente indelicada. Com os donos, nem aquele papinho de “o cachorrinho tem telefone?” rolou, tamanho escarcéu que BB fez. Fui obrigada a me despedir com sorrisos prometedores, infelizmente, sem me comprometer. Já estava quase desistindo de uma rapidinha quando um dogue alemão dobrou a esquina. Não dobrou: a esquina se curvou pra ele passar. Santo Deus!

 Todo tatuado, camiseta estourando no peito, o dono do bicho me hipnotizou. Eu não estava de carro, mas acendi os faróis. Meus peitos piscaram. Meus olhos não. Vidrei na cadência dos passos dele. Eu indo, ele vindo. Eu requebrando, ele sorrindo. Sorriu e abanou. Tirei os óculos, não era possível: o Ricardinho. “Verônica, que surpresa!”. Ricardão, melhor dizendo. “Oiiiii, Rica, há quanto tempo”, não consegui conter o deslizamento dos ‘is’. É claro que ele percebeu. Uma mulher, quando quer dar, sempre escorrega nas vogais.

 O gostoso do Rica deu em cima de todas as amigas da Pietra, namorada dele na nossa época de colégio. Muitas não resistiram. Outras, como eu, se afastaram para não sucumbir. Não tenho nada contra ficar com homem comprometido desde que a mulher esteja de acordo e, de preferência, entre no pacote. Não era o caso da Pi, supercatólica e certinha. Eu também sou cristã, já disse? Só com uma diferençazinha: adaptei os ensinamentos aos meus interesses: “Amai-vos uns aos outros, que eu sirvo de recheio”. Um dia ainda publico os meus dez mandamentos.

 “Como está a Pietra?”, óbvio que foi a minha primeira pergunta. “Ah, não estamos juntos há anos”, fez um gesto de desdém. “Sei, ela cansou de ser compreensiva”, brinquei. “Mais ou menos por aí”, ele riu e quis saber de mim. Eu? “Continuo sendo supercompreensiva”, rimos muito. Brigitte deixou-se cheirar pelo canzarrão. “Você casou?”, perguntou. “Não posso, tenho uma doença crônica”, fiz carinha triste. “Sério?”, seríssimo. “Meu coração se apaixona todo dia”. Rica soltou uma gargalhada. Quando recobrou o fôlego, me penetrou na alma: “E hoje, o seu coração já se apaixonou?”. Mordi o lábio inferior, olhei bem nos olhos dele: “Já”.

 Ele disse que morava ali perto, eu aceitei conhecer o lugar. Trepadeiras no jardim, trepadeira na cozinha. Não deu tempo de chegar no quarto. Mas engatamos um terceiro round. Ele rasgou o meu vestido, tenho tantos outros. “Ahhh”, cada momento é único. A pia dele é ótima para se apoiar. Tem a altura certa. Rica também, a estatura certa para os meus saltos altos. Pinotes. Cavalgamos dos azulejos para o tapete da sala. As colinas dele têm desenhos tribais. As minhas são tambores boas de tamborilar. Bater. O Rica bate bem. Tem força. Ritmo. E calibre. No pátio, folhas farfalhavam. Minha Brigitte adorou o dogue dele.

Trecho do livro “O DIÁRIO DE VERÔNICA VOLÚPIA”, por Ana Kessler.

15778472_1691115924238975_2085927482_o
O Diário de Verônica Volúpia – As picantes confidências de uma libertina moderna, ousada, sexy. Sem tabus. livraria.bookstart.com.br
Siga Verônica Volúpia também no facebook.com/veronicavolupia.oficial/

Ana Kessler é escritora e Coach. Foi editora-chefe dos portais femininos Bolsa de Mulher e Tempo de Mulher, e coordenadora do núcleo de internet do Jornalismo da TV Globo/RJ. É autora das séries "Sensações de Sofia" e "O Diário de Verônica Volúpia", que virou livro. Gaúcha de Porto Alegre, paulistana de coração, é apaixonada pela alma humana e pela filha Ana Bia, de 12 anos, o amor da sua vida. É sócia do EXNAP, cuida da área de Planejamento e Novos Projetos.