Dinheiro

O diabo que te carregue! Capítulo 20

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Você comprou uma botinha para sua filha e um tênis para o seu filho. Sai da loja tentando convencer a pequena de que seria melhor usar a botinha só quando o tempo esfriasse, mas é inútil. Ela está encantada com o presente e não vai tirá-lo dos pés durante os próximos quatro dias – você já viu esse filme.

À noite, quando seu ex liga para saber das crianças, imediatamente, como se tivesse a obrigação de prestar contas, você informa sobre os sapatos, onde eles foram comprados e quanto custaram. Não, enquanto vocês eram casados você não costumava dar satisfações sobre o que foi ou não comprado para as crianças, mas agora sente que isso virou um dever e, ao mesmo tempo, um trunfo.

O dever é mostrar que você não está jogando dinheiro fora, que a pensão vem sendo muito bem administrada no interesse direto e exclusivo dos seus filhos. O trunfo é o seu martírio: é você quem ficou com as crianças e tem de cuidar delas em tempo integral, é você quem vai comprar tudo, ou quase tudo, que elas precisam, você é a nobre e devotada administradora da educação, dos recursos materiais e dos princípios morais das crianças – sem dúvida, um trabalho árduo.

Após a separação, dinheiro passou a ser um tema delicado entre vocês. Não só os sapatos, mas tudo o que você compra para as crianças, com o seu dinheiro ou com o dele, você informa. No entanto, tudo o que você gasta consigo, seja um simples corte de cabelo ou um par de sandálias havaianas, você tenta esconder como se fosse fruto de desvairada cobiça. O correto é você andar em farrapos e as crianças, em tafetá. O decente é você emagrecer a olhos vistos e as crianças engordarem como porquinhos rosados. O certo é você ostentar olheiras monstruosas e as crianças, lábios vermelhos e bochechas coradas. Pra que isso?

Você trabalha, ganha seu próprio dinheiro, pode muito bem se dar alguns luxos sem encostar o dedo num centavo da pensão destinada às crianças, por que então essa necessidade de se martirizar perante o seu ex como se você fosse uma carmelita descalça, uma monja em recolhimento ou a cadela esquálida de um mendigo?

Aí é que está: você não tem essa necessidade, você simplesmente criou, inventou, cerziu essa estrambótica e inútil necessidade. Tudo depende de como você se coloca. Apareça com um lindo pingente de ouro no pescoço e não abaixe a cabeça como se houvesse algum crime nisso e jamais alguém irá lhe dirigir uma palavra de censura. Vista chita e baixe os olhos envergonhados para o chão e todos te acusarão de perdulária.

É você quem escolhe como quer ser tratada, é você quem se coloca, é você quem sucumbe aos seus preconceitos ou se faz respeitar como uma pessoa que tem seu próprio dinheiro, que não fez voto de pobreza e que de forma alguma é amante do sacrifício estéril.

Não, você não se sacrifica pelos seus filhos simplesmente porque não há necessidade. Você não vai mais se policiar quanto a comentar algo sobre aquele curso caríssimo que você está fazendo na Casa do Saber, você não vai esconder o casaco de couro vermelho quando seu ex tocar a campainha, você não vai se colocar nessa situação nunca mais. No entanto, por via das dúvidas, você vai guardar todas as notas fiscais de todos os gastos com as crianças. Precaução e canja de galinha não fazem mal a ninguém.

 

 

 

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*Photo credit: efradera via Visualhunt.com / CC BY-ND

**Esse conteúdo foi originalmente publicado no livro: O Diabo que te Carregue, da autoria de Stella Florence e foi reproduzido aqui com a devida autorização e revisão da autora.

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos “Os Indecentes”, "32", “Hoje acordei gorda”, entre outros. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net