A canção do fim de um amor

"Drão… não pense na separação… Não despedace o coração… O verdadeiro amor é vão…"

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Photo by David Cohen on Unsplash

A gente vive cantando o amor.  O amor romântico, o êxtase de acreditar que ele é eterno. O amor que mata e pelo qual se está disposto a morrer. Dor de cotovelo vira sucesso… Nada é mais cantado que dor de cotovelo. Chutes na bunda se transformam em melodia quase automaticamente. Quem nunca se flagrou cantando e chorando no banheiro ouvindo alguma voz melosa falando de dor e mágoa?

Temos o hábito de romantizar tudo. O amor ideal é romântico, o cara no bar chorando a perda da mulher amada é romântico e até a  traição se transforma em poesia.

Hoje escutei Drão.

Drão… o nosso amor é como um grão
Uma semente de ilusão
Tem que morrer pra germinar…”

Drão é uma daquelas músicas que ficam na cabeça e você é capaz de cantarolar a noite inteira sem perceber e nunca cansar.

Lembro de cantar essa música quando era criança. Achava linda mas não entendia. Achava que falava de amor, não do final dele.

Lembro de ouvir histórias sobre como a música falava de separação… e, de fato, a palavra estava lá.

“Drão… não pense na separação…
Não despedace o coração…
O verdadeiro amor é vão…”

Mas eu não entendia, ou não aceitava. Achava impossível o fim de um amor ter se transformado em uma música tão linda…

Hoje eu vi uma reportagem antiga, uma entrevista com Sandra. A ex mulher de Gil, que inspirou a música. Drão… apelido de Sandra. Diminutivo de Sandrão. (Finalmente entendi o que era Drão. Achei um pouco decepcionante… mas romântico.)

Ela explica a música, de como Gil mostrou a ela pela primeira vez durante aquele tempo conturbado e ele saiu de casa… 3 filhos e um monte de história depois…

O fim de um casamento nunca é uma história feliz. Entretanto, a idéia de romantizar a dor é tentadora. Invejei Sandrão. Queria ter saído do meu casamento com uma poesia de Gil, com uma memória doce de amor que se transforma.

Ela relembra a cama de tatame, onde eles dormiam. Ela conta da emoção que sentiu quando ouviu a música depois da morte do filho. Ela relembra com carinho e ela não parece sentir mágoa quando escuta sua música.

“Quem poderá fazer aquele amor morrer
Nossa caminhada
Cama de tatame
Pela vida afora”

Invejei Drão. Invejei Gil.

Separações são dolorosas. Não importa se foi uma decisão dos dois, se o amor acabou, se ainda se amam mas não conseguem conviver.

Se houve traição, se foi a distância, a saudade, a conta de luz. O hábito insuportável de mastigar de boca aberta, a sogra ou a alergia a gatos. Não importa como ou por quê. Não importa quanto tempo estavam juntos ou se assinaram um papel na frente de um juiz. Nada é mais triste do que a morte de um sonho.

Planos, expectativas, amor, estabilidade, hábitos. Cheiro no travesseiro, toalha molhada em cima da cama, pezinhos quentes, séries no Netflix e almoço de domingo. Restaurante favorito, aniversário de namoro, beijos e sorrisos cúmplices. Viagens de férias, fotos, casa, cantos, músicas.

Camas de tatame…

O que a gente faz com tudo isso?

A gente até divide a casa, os móveis, a conta bancária. Divide a criação dos filhos, ou do cachorro, os fins de semana, o Natal.

Mas quem fica com as memórias boas e quem fica com as ruins? Dá pra escolher ficar com os sorrisos e não com as lágrimas?
Quem fica com o álbum de fotos? Com os ingressos de todos os shows que foram juntos? Quem fica com os porta-retratos, com os presentes dos amigos pra casa nova?
E onde a gente guarda tudo o que ficou?

“Tem que morrer pra germinar
Plantar nalgum lugar
Ressuscitar no chão”

O que a gente faz com aquele desejo de que tudo não passe de um pesadelo, que o amor vai voltar a ser amor. Existe lugar apropriado pra guardar mágoas, lágrimas e culpa? Uma caixa especial para o projeto da casa com quintal, o cachorro e o ideal de família feliz?

Onde a gente guarda a frustração, o medo de escuro, a imensidão da cama vazia?

Gil guardou em uma música.

“Quem poderá fazer
Aquele amor morrer
Se o amor é como um grão
Morre, nasce trigo
Vive, morre pão”

Eu joguei fora.

Se quiser ler a entrevista com a Sandra, clique aqui…. 

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Clara é escritora, divorciada, mãe, apaixonada, feliz. O seu maior prazer é deixar as palavras brincarem na sua cabeça e assumirem o controle. Recomeça todos os dias, se equilibrando em mágoas e amores.