E Quando as Coisas Ficarem Difíceis, Faça Arte

"Provavelmente as coisas vão se resolver de algum modo e eventualmente o tempo vai levar a dor embora e isso nem mesmo importa. Faça o que só você faz de melhor. Faça boa arte"

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O escritor Neil Gaiman, no seu discurso durante a formatura do curso de Artes Visuais de uma faculdade nos EUA, ao incentivar a arte como ferramenta de expressão e mudança disse: “E quando as coisas ficarem difíceis, isso é o que vocês têm de fazer: façam boa arte”. E ainda que, em meados de 2015, minha maior dificuldade era apenas organizar a bagunça dos meus brincos e colares, resolvi eu, uma farmacêutica que atuava na área de processos, testar as minhas habilidades artísticas na confecção de um painel para organizar meus acessórios.

E assim parti em uma empreitada para cortar madeira, comprar tinta, escolher as ferragens, cianinhas, tecidos e todas aquelas pecinhas de nome totalmente estranho e desconhecido até então. A próxima etapa foi encarar e manusear todas aquelas peças e ferramentas que mais pareciam um quebra-cabeça de 1000 peças! Mas a cada pincelada, cada recorte, colagem, fixação de parafuso, costura etc, uma sensação de paz e conexão comigo mesma. A vontade de fazer o melhor trabalho possível, de ver uma peça linda e funcional tomando forma e de aprender algo totalmente novo, foi tomando conta do meu pensamento e dos meus dias. Foi neste momento que me dei conta que, independente de como ficaria meu painel, o processo de criação e todo o novo mundo que ele me trouxe, me deram a sensação de realização e objetivo alcançado.

O problema de organização dos acessórios foi resolvido, mas a vontade de fazer outras peças e superar outros desafios começou a se manifestar como um comichão na alma. Assim surgiu mais um painel, depois uma luminária de tela de pintura, de garrafa, de concreto… E se eu arriscasse na costura? E assim foi: costurei primeiro uma capa para notebook e depois lixinhos para carro. Alguns compartilhamentos e feedbacks positivos depois, veio a primeira encomenda! Surgiu então a ideia de criar uma página nas redes sociais exclusiva para a divulgação das peças. Foi assim que a #EuQueFizArtesania deixou de ser uma hashtag nas minhas páginas pessoais de Facebook e Instagram para ter uma identidade própria.

Conforme o tempo ia passando e eu aprendia alguma nova habilidade por mim mesma, a sensação de plenitude, empoderamento, encontro de propósito aumentava. Não havia um momento sequer do meu dia que eu não estivesse com vontade de costurar ou me dedicar à pesquisa de referências para novas ideias. Se estivesse alegre, lá ia eu fazer uma bolsa. Se o dia não tivesse sido tão bom, era só me debruçar na máquina de costura para lembrar da minha capacidade de superar desafios e o quão importante e especial eu era para mim mesma.

E foi assim que, ao longo desses 2 anos, a EuQueFizArtesania me ajudou a me conhecer melhor, a levantar da cama quando aparentemente não havia motivo para isso, a ter a certeza que sou a melhor expressão de mim mesma e acreditar que a vida é incrível quando você descobre o que faz a sua luz brilhar. Deixou de ser apenas um hobbie para ser o meu trabalho de todos os dias.

Hoje, depois do término de um relacionamento o qual eu acreditava ser o encontro com o grande amor da minha vida, mergulhei fundo no que é de fato meu grande amor: estou dando um grande passo para a EuQueFizArtesania como marca, reformulando portfolio de produtos, revendo a comunicação, estratégia e claro, aprendendo muito conteúdo novo e trocando com várias pessoas diferentes.

E como disse Neil Gaiman naquele discurso, “Quando as coisas ficarem difíceis, faça boa arte (…). Provavelmente as coisas vão se resolver de algum modo e eventualmente o tempo vai levar a dor embora e isso nem mesmo importa. Faça o que só você faz de melhor. Faça boa arte. Faça nos dias ruins, faça nos dias bons também (…) faça a sua arte. Faça a coisa que só você pode fazer”. E aqui eu complemento: se a sua arte não for a mesma arte que Neil se refere, encontre a sua. Mas encontre aquilo que só você sabe fazer e que faça você brilhar para o mundo.

Cinara Nobre é a Diretora Criativa e idealizadora da EuQueFizArtesania e uma apaixonada por trabalhos manuais, arte, design e inovação. Graduada e mestre em Farmácia-Bioquímica, criou a marca após a redescoberta de talentos ocultos e por acreditar que é preciso questionar os atuais padrões de consumo e de conexão entre as pessoas. Adora um café com uma boa prosa e está sempre aberta a ouvir uma nova história.