Ela te acolhe, ele, não

O Diabo que te carregue capítulo 44

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É domingo. Você está enterrada até as orelhas sob cobertores, TV ligada numa luta de boxe qualquer que te hipnotiza com sua simetria de golpes. Então, o celular toca.

Número desconhecido. “Quem é?” “Sou eu.” Ah, você odeia quando a coisa começa assim. Mas ele se identifica logo, conseguiu seu celular com um amigo.

“Lembra de mim?” Flashes de um homem de sobrancelhas loiras acordando, devagar, com um sorriso espontâneo. Se espreguiçando, devagar, como um cão grande. E você adora grandes cães, com muito pelo, muita saliva, um grunhido rouco que significa “me coça” e uma maneira desajeitada de se jogar em cima de você.

Sim, faz tempo, mas você se lembra dele. E em meia hora de conversa, sim, você gostaria de vê-lo. Sim, gostaria de vê-lo agora. E nesse agora não há ansiedade, nenhuma ansiedade. No meio da conversa, ele pergunta:

– O que você quer?

– Um abraço – você responde.

E é verdade. Você não quer muito mais do que isso. Um abraço e um olhar que não te atravesse, alguém que olhe dentr o dos seus olhos e veja você, não o reflexo de si mesmo.

No carro você pensa que todos os homens que passaram pela sua vida ultimamente só retiraram, cada um e todos eles, um naco de sua energia. Então, ao voltar para casa, você se percebe mais triste e mais sozinha e mais vazia e mais seca do que quando havia saído.

Eles lanham seu rosto com a barba malfeita enquanto sugam o que você tem de mais precioso. Os homens te enfraquecem. Por que hoje seria diferente?

Ele te leva para o apartamento dele, te mostra a vista do vigésimo andar e encosta o peito em você. Apenas encosta. O suficiente para o cheiro dele entrar pelas suas narinas e subir direto para sua cabeça. Você poderia dizer a ele, por favor, não encoste seu peito em mim e, por favor, não metabolize seus feromônios tão perto de mim, mas agora é tarde. E, de qualquer maneira, você não diria isso. Você gosta do cheiro dele. E do gosto também.

Um hora depois, você vai até o banheiro se lavar e tem a sensação de que aquela casa é acolhedora e quente. No corredor, você se agacha em frente a ela: Lora, a cachorra dele. Grande e dourada, pêlos como fibra de ouro grudando na sua calça preta e aqueles redondos, densos e inocentes olhos castanhos.

É ela quem acolhe as pessoas e esquenta a casa. É ela quem se aproxima e é ela quem te lança um olhar de reconhecimento, um olhar que não te atravessa, aquele olhar que você estava procurando. Com curiosidade e sem qualquer defesa: ela é pura doação. Não importa quem você é, se sua barriga é flácida ou se sua garganta segura um choro doído há meses, não importa se sua maquiagem borrou e te deixou com imensas olheiras ou se você está menstruada, ela te acolhe. Só com os olhos ela te acolhe.

O homem te leva para casa e você se sente como Scarlett Johansson no Japão, enquanto Bill Murray dorme no carro e a noite está agradável. Você se sente bem porque pode ficar em silêncio com ele e porque você não deseja nada – talvez os budistas tenham razão: a felicidade é a ausência de desejo.
Então você se lembra dela, dos seus enormes olhos que te devassaram num segundo. Lora. Pensando bem, você gostaria de chorar.

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**Esse conteúdo foi originalmente publicado no livro: O Diabo que te Carregue, da autoria de Stella Florence e foi reproduzido aqui com a devida autorização e revisão da autora.

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos “Os Indecentes”, "32", “Hoje acordei gorda”, entre outros. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net