Encontros arranjados - parte 2

Ok. Assumo. Fui vítima de encontros arranjados ... E não foi só uma vez, não! Persisti no erro.

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Ok. Assumo. Fui vítima de encontros arranjados.
Minha culpa, minha máxima culpa … Mas, por outro lado, se não tivesse passado por tantos micos, como teria adquirido a experiência necessária para escrever este livro? E não foi só uma vez, não! Persisti no erro.
O primeiro foi meio sem querer. Minha mãe deu o número do meu telefone para uma amiga, que por sua vez o passou para o namorado para que ele o desse a um amigo que lhe parecesse interessante.
Normalmente os encontros arranjados envolvem um trabalho de equipe. O trabalho é feito em conjunto, como um mecanismo de defesa preventiva, principalmente porque fica mais difícil estrangular mais de uma pessoa e alegar insanidade temporária.
Enfim, chego em casa. Nem bem termino de trancar a porta (e todas as travas que mandei instalar por causa dos comentários sobre uma gangue internacional de porteiros que atacam recém separadas) e o telefone toca.
As engrenagens do meu cérebro ainda estão começando lentamente a funcionar para tentar descobrir quem poderia ser (cobrança, pedido de doação ou mamãe), quando a surpresa de ouvir uma voz masculina desconhecida é o suficiente para atrapalhar meu raciocínio.
Era um amigo de uma amiga de alguém que achava que devíamos nos conhecer. No meio do monte de nomes e referências, ouvi um “da sua mãe” (o que seria motivo mais que suficiente para treinar minha imitação de mordomo inglês e dizer “Sorry, she does not live here anymore”) mas hesitei. A solidão às vezes apronta dessas coisas … Foi por apenas um segundo, mas foi o suficiente para que ele desembestasse a falar.
Verdade seja dita: o rapaz era muito simpático.
Provavelmente tão simpatico quanto eu estava carente. Bastaram esse e alguns outros telefonemas para que eu ignorasse completamente meus alarmes internos e concordasse com um encontro. Afinal pelo telefone, ele realmente era muito bom para ser verdade: idade, grau de instrução, senso de humor, interesses, situação financeira, tudo de acordo. No dia do encontro, confesso, cheguei a criar toda uma fantasia em torno desse desconhecido. Depois de algum tempo, já nem lembrava o nome do meu ex. Tanto devaneio só podia dar numa coisa … Eu me atrasei. Estava dando os últimos retoques na maquiagem quando o interfone e o telefone tocaram ao mesmo tempo.
Atendi o interfone primeiro e, meio enlouquecida com o barulho do telefone, pedi para que o rapaz subisse.
Primeiro erro – ATENÇÃO: NUNCA, EM HIPÓTESE ALGUMA, DEIXE UM DESCONHECIDO ENTRAR NA SUA CASA! Se você der sorte e ele não for um tarado, psicopata, assassino em série ou ladrão, no mínimo ele vai achar que você está acostumada a deixar qualquer um subir. Imediatamente você recebe uma quantidade estrambótica de pontos negativos.
Quando ele tocou a campainha, eu ainda estava ao telefone. Ao abrir a porta, tanto ele como a pessoa do outro lado da linha puderam notar, pela minha voz, que algo estava errado.
Definitivamente, algo não se encaixava com a imagem que havia feito com base nas informações telefônicas. Não que houvesse algum engano, realmente diante de mim estava o tal “loiro de olhos azuis” descrito. Mentir, ninguém mentiu … Não sou dessas pessoas que ficam comparando todo mundo a personagens de livros e filmes, mas aquele rapaz tinha qualquer
coisa de familiar. E com esse pensamento martelando, deixei-o sentado no sofá e fui terminar de me arrumar.
Segundo erro – Durante os poucos minutos em que você deixa um estranho sozinho na sua sala, ele automaticamente começa a avaliar a limpeza da casa, suas condições financeiras e as fotos e demais coisas.
A situação era a seguinte: depois dos advogados e das contas, eu estava quebrada, e, tendo estado muito tempo fora do mercado, não havia como saber se ele pagaria ou não a conta. Afinal, quem pergunta “Você é do tipo que paga?” para alguém que mal conhece?
Tive uma criação até certo ponto feminista e nunca tive problemas morais em pagar minha parte, mas naquele momento simplesmente não poderia arcar com as despesas de algum lugar da moda. Para mal dos pecados, haviamos combinado que ele escolheria o local.
Como falar das minhas condições financeiras logo de cara seria cometer “haraquiri” social, fui logo oferecendo uma bebida e uns petiscos, não só por educação, mas como uma tentativa dramática de aliviar a conta no final da noite.
Terceiro erro – Como o rapaz não tinha bola de cristal, a única coisa que ele percebeu foi uma doida que o mandou entrar sem nem saber quem era e ainda ofereceu bebida e comida de graça. Só faltou oferecer a roupa lavada …
A propósito, não lembro o nome dele, mas, se por acaso estiver lendo este livro – o que duvido – gostaria de esclarecer que minhas intenções eram as mais castas – e econômicas – possíveis. Enfim, apesar desse início nada promissor, o rapaz foi um perfeito cavalheiro.
Realmente, seu único problema era parecer-se muito com um personagem de uma série dos meus tempos de escola. Aliás, o problema mesmo foi ter me lembrado do nome da série no caminho de ida para o barzinho.
A série chamava-se O Elo Perdido, e lamento dizer que ele não se parecia com nenhum dos humanos … Quem consegue manter a serenidade com uma imagem dessas na cabeça? Na verdade, tive a impressão de que o rapaz não havia sido concebido, e, sim, tricotado. Nunca vi, nem antes nem depois, um ser humano com tamanha quantidade de pêlos! E eles saíam do suéter como se tivessem vida própria! Quem poderia prestar atenção no que o rapaz dizia com essa ameaça de filme de terror “B” bem ali, saindo das costas dele?
Sem querer, me veio à mente a imagem do meu ex-marido se contorcendo de tanto rir. Enquanto tentava não olhar diretamente para a “criatura” ficava imaginando maneiras de trucidar todos os que de alguma forma haviam contribuído para esse encontro desastroso.
Ainda procurando manter um mínimo de comportamento civilizado, tentei começar um diálogo. Afinal, a aparência não é o mais importante … E lá foi eu puxando conversa.
Seis meses depois da minha separação, saio com o “elo perdido” e a primeira coisa que ele me diz é: “Soube que você é separada. Para mim, casamento deveria ser para sempre.”
Por alguns segundos, pensei em procurar objetos pontiagudos e arremessáveis pela mesa do barzinho, mas, em seguida, a raiva inicial deu lugar à curiosidade: o que leva uma pessoa razoavelmente inteligente a se tornar uma completa idiota em apenas uma frase? E, mais importante ainda, o que leva uma outra pessoa razoavelmente inteligente a perder uma noite de sexta-feira com um idiota completo parecido com o Cha-Ka?
As duas horas que passei no barzinho foram as mais longas da minha vida, e imagino que para ele também não tenha sido lá muito divertido. Portanto, fizemos o que de melhor podíamos fazer numa circunstância como essa: dissemos adeus e nunca mais nos vimos …
Hoje, não sei dizer se ele era mesmo tão feio assim ou se eu havia idealizado um príncipe encantado por meio de nossas conversas telefônicas. Só sei que voltei para casa arrasada, determinada a nunca mais passar por uma situação dessas.
Ahã … Algum tempo depois, meio que para pedir desculpas, a amiga da minha mãe insistiu para que eu aceitasse sair com um outro amigo, só para tirar a má impressão que o “homo erectus” havia deixado. Garantiu-me um milhão de vezes que não se trataria de um encontro, e sim de apenas uma saída entre amigos.
A princípio, recusei com todas as minhas forças. No entanto, mais alguns fins de semana em casa e a vontade de sair venceu meu bom senso.
A descrição não era má. Um homem recém-separado que estava procurando apenas uma amiga. O que mais eu poderia querer?
Quarto erro – Muito dificilmente um homem recém separado está procurando apenas uma “amiga”. O que ele quer é um monte de “amiguinhas”. Ele quer todo o sexo que
imagina que todos os solteiros tiveram enquanto ele era casado. Ele quer todas! De preferência as que forem entre dez e vinte anos mais novas que sua ex-mulher.
Adivinha! Não é que eu era exatamente vinte anos mais nova que a ex dele?
Saímos. Desta vez em pares. E, pasme, foi muito bom! O programa foi muito bem escolhido, e, ao ver já do carro o senhor que me apresentariam, eu soube com certeza que estaria entre amigos, já que não haveria a menor possibilidade de existir a mais remota tensão (ou pretensão) sexual entre nós.
Depois de uma noite muito agradável, voltei para casa confiante de que minha nova vida estava realmente começando. Eu havia feito um novo amigo, um pouco mais velho, é verdade, mas ainda assim uma excelente companhia.
Minha confiança na figura paterna desse homem, vinte anos mais velho, foi tão automática que não estranhei quando ele começou a ligar todos os dias e me convidou para sair novamente.
Foi só nesse segundo encontro, quando me vi tendo que retirar as mãos dele das minhas pernas com uma espátula, que calculei que “talvez” as intenções dele não fossem assim tão paternais. Mais uma vez, a vida imitou a arte.
Lá estava eu, de novo, às voltas com um personagem de ficção.
Éramos a própria representação humana de um encontro do gambá com a gatinha.
Depois de ficar praticamente a noite inteira me esquivando do seu abraço enquanto bebia sem parar praticamente dois litros de água (dica: o copo na boca evita a tentativa do beijo), a única coisa que me passava pela cabeça era que NUNCA MAIS PARTICIPARIA DE UM ENCONTRO ARRANJADO …
Sei…

 

Leia também: “Fazendo novas amizades – ou encontros arranjados parte 1”

 

*Conteúdo retirado do Livro “Aperte o cinto, seu marido sumiu”, com a devida autorização da autora.

**Cenas dos próximos capítulos – “encontros arranjados- parte 3”. Não perca! Quinta-feira, dia 03 de dezembro

 

Carla é escritora. Para ela, a vida começa e recomeça quantas vezes forem necessárias, a sua personalidade e o seu senso de humor que ditarão o quão divertida a jornada será.