Encontros arranjados - parte 3

O encontro arranjado seguinte foi arranjado por alguém até então da minha inteira confiança: EU! Sério! Sabe aquela do "faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço?': Pois é ... Eu fiz ...Portanto, preste atenção, porque sei do que estou falando. Quem melhor para escolher um par para você do que você mesma, certo? Nem sempre ...

image

O encontro arranjado seguinte foi arranjado por alguém até então da minha inteira confiança: EU! Sério! Sabe aquela do “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço?” Pois é … Eu fiz … Portanto, preste atenção, porque sei do que estou falando.
Quem melhor para escolher um par para você do que você mesma, certo? Nem sempre…
Supondo que você não more em um país fundamentalista e não tenha sido vítima de um casamento forçado, cabe lembrar que quem “arrumou” seu ex também foi você …
Para ser sincera, não foi bem um encontro arranjado, já que não “saí” efetivamente com ele.
Uma amiga minha frequ?entava um desses grupos sociais que se reúnem uma vez por semana para atividades diversas. Tradução: minha amiga frequentava um desses grupos que reúnem pessoas de ambos os sexos para promover o desencalhe geral e garantir a perpetuação da espécie.
No dia em que assinei o divórcio, ela, com a melhor das intenções, decidiu que eu deveria me distrair e, não sei como, me convenceu a acompanha-la a uma dessas reuniões. Ainda meio novata nessas coisas, acabei ocupando um lugar perto da mesa de aperitivos (se não ia falar com ninguém, pelo menos iria faturar o jantar. . .).

Quinto erro – Se sua intenção é passar despercebida em uma balada, nunca se sente próximo á mesa de bebida ou comida. Enquanto tentava permanecer o mais encolhida possível as pessoas abriam caminho em direção à comida. Logo, um interminável desfile de personagens de terror e caricaturas animadas começou. Era a maior concentração de gente feia por metro quadrado que eu já havia visto. Por mais contida que tenha tentado parecer, algo em meu semblante deve ter me traído, porque alguém sussurrou ao meu ouvido: “Se pudesse filmar a sua expressão de horror, ficaria milionário! Pega em flagrante, sorri meio sem graça e, ao me virar, dei de cara com um rosto amigo. Era um rosto muito simpático. E muito, muito redondo.
O rapaz era extremamente animado. Muito inteligente e divertido. E seus dois metros e meio de circunferência lhe davam um ar muito jovial. Imediatamente me senti confortável ao seu lado. Protegida. Nada poderia me atingir. Mesmo porque ninguém poderia me ver atrás daquela imensidão. Trocamos telefones e eu fui para casa feliz da vida, achando que dessa vez tinha mesmo encontrado meu mais novo e melhor amigo.

Sexto erro – Em um grupo de desencalhe, o objetivo das pessoas, efetivamente, é desencalhar. Ninguém está realmente interessado em fazer amigos do sexo oposto. Se alguém disser o contrário, é porque ainda não conquistou ninguém ou porque acha que deve dizer isso para conquistar você.
Sabe aquela idéia de que todo gordo é simpático? Bom, nem sempre. Alguns podem ficar bastante perigosos se contrariados. No começo, era muito legal chegar em casa e ouvir o recado do meu amigo (logo depois do terceiro recado da minha mãe). Ele, por sua vez, ligava duas a três vezes só para perguntar como eu estava e o que tinha feito durante o dia. Com o tempo, suas ligações dobraram em número e as conversas começaram a ficar mais pessoais. Não demorou muito e seu tom de voz passou a ser autoritário, e, quando dei por mim, ele estava me cobrando um relacionamento amoroso.Nenhuma das minhas desculpas esfarrapadas parecia funcionar. Qualquer coisa que eu dissesse ele rebatia. Todos os argumentos que usei para não querer nada com ele foram combatidos um a um. Nem mesmo o bom e velho “não estou preparada” funcionou, nem de longe.
O que eu iria fazer? Dizer que ele não me atraía? Como se diz isso sem ofender? Não queria magoar ninguém. Minha única saída era fazer com que ele desistisse de mim. Não que eu seja uma rainha de beleza ou coisa assim. Sou até bem comum. Mas, ao que parecia, ele estava havia muito tempo na procura e encasquetou que eu era a solução da sua vida. Primeiro tentei, sem sucesso, todas as desculpas usuais:

A. “Acabei de sair de um relacionamento e não estou pronta para uma nova relação”. Por ser basicamente um argumento masculino, essa desculpa esfarrapada funciona que é uma beleza para a maioria dos homens. Provavelmente porque, depois de repetir essa bobagem tantas vezes, eles acabem acreditando que seja mesmo possível alguém não sair com uma pessoa de que gosta só porque “não está preparado’! Infelizmente, esse meu “amigo” não se enquadrava nesse grupo.

B. “O processo do divórcio está correndo e meu ex contratou detetives para provar que tenho um amante”. Esse argumento funciona normalmente para os covardes em geral. Infelizmente, falha quando o cavalheiro tem pelo menos um pingo de inteligência ou memória suficiente para lembrar que você não estava muito preocupada com o tal detetive no dia em que deu seu telefone para ele.

C. “Gostaria muito de sair com você, mas sábado é o dia em que passo o fungicida na cabeça. Você fala a frase do “tenho que lavar os cabelos’: essa desculpa não só funciona como garante um deserto social de alguns meses, uma vez que a notícia se espalha por toda comunidade masculina (e feminina) a que o rapaz tiver acesso em questão de segundos. Infelizmente e asquerosamente, o tal rapaz também não se incomodou com isso.

D. “Gosto muito de você como amigo, mas não romanticamente”. Essa é fatal e dói. Dói em você porque se sente uma cachorra desalmada e dói na pessoa que escuta, que se sente pior que a casca da ferida da barata. Deixando a zoologia de lado, essa desculpa é o mesmo que um tapa na cara. Se a pessoa não merecer, evite, pois é muito triste. Não tão triste quanto ouvir um “tudo bem, eu espero você gostar de mim’: Isso é o que os cientistas classificam de ‘o ó do borogodó’: e significa o supra-sumo da auto-humilhação. E não é que o camarada me vem com uma dessas? O que eu poderia fazer?

Depois de esgotadas todas as alternativas, coloquei em prática meu truque especial. Atenção: este truque só deve ser usado em situações extremas. Desaconselho que faça isso sem a supervisão de um adulto competente ou do seu psiquiatra.
Um belo dia, telefonei para ele e comecei a falar coisas meio sem pé nem cabeça. Em seguida comecei praticamente a gritar, e, sem mais nem menos, desliguei. Depois de alguns minutos liguei novamente, aos prantos. Finalmente, no dia seguinte, liguei como se nada tivesse acontecido. Quando ele pediu satisfações pelo comportamento do dia anterior, expliquei com a maior naturalidade possível. Disse a ele que minha medicação “especial” havia acabado e que, sem o remédio, a outra medicação que eu tomava me fazia falar e agir como outra pessoa … “Não consigo controla-la’: disse, enigmaticamente, dando a entender que sem o remédio uma das minhas múltiplas personalidades se rebelava. Não preciso nem dizer que nunca mais ouvi falar dele. O que foi uma pena, pois era realmente uma companhia divertida. Muitas pessoas talvez me acusem de ter sido má. A maioria provavelmente acha que seria melhor dizer “eu te odeio” do que deixar que ele pensasse que eu fugi do manicômio. Em minha defesa, tenho a dizer que nenhum desses ‘Críticos” consertou minha descarga, pagou minhas contas ou saiu com o Cha Ka e o vovô tarado antes de ter que enfrentar um boneco da Michelin possessivo.
Claro que, assim como ocorreria em relação à história do fungicida, não demorou muito para que eu recebesse olhares estranhos do pessoal para quem o bom rapaz havia avisado sobre ‘o meu problema”. Confesso que me diverti um bocado com todos eles. Por via das dúvidas, mesmo depois que a poeira baixou e o meu “problema” foi desmentido, achei melhor evitar encontrar o rapaz, não só por ele ser grande e estar zangado (muito bons motivos, alias), mas principalmente porque, a essa altura, eu já estava em outra fase.

*Imagem Pixabay

**Conteúdo retirado do Livro “Aperte o cinto, seu marido sumiu”, com a devida autorização da autora.

Leia também: http://www.exnap.com.br/fazendo-novas-amizad/
http://www.exnap.com.br/encontros-arranjados-parte-2/

Carla é escritora. Para ela, a vida começa e recomeça quantas vezes forem necessárias, a sua personalidade e o seu senso de humor que ditarão o quão divertida a jornada será.