Enfim só... parte 3 (o dia que venci a descarga quebrada)

Ok, confesso... Eu adorava. Ter a casa sob meu comando, apesar da superpopulação, sem precisar dar explicações ao meu marido, era a minha primeira expressão de individualidade em muito tempo.

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Nas primeiras semanas após a separação, minha casa parecia um albergue, com todos os parentes do mundo acampando na minha sala. Sabe aquela do “para te fazer companhia”? Pois é… O engraçado é que ninguém me perguntou se eu queria, mas tudo bem…

Descobri um detalhe interessante… E não é que as pessoas acham que as “separadas” têm mais tempo livre? Serio, parece um complô ou algo assim… Os chefes pedem mais trabalhos extras, pois, afinal “você não tem para quem voltar para casa” ( bacana, né? Meu chefe achou “hiper” divertido…). A família acha que, se você não tem mais marido, então obviamente não precisa lavar, passar, cozinhar, pagar contas e tem tempo de sobra para fazer favores.

Eu não entendo muito essa matemática estapafúrdia em que “meio” vale por dois, mas até “guarda defunto” me chamaram para ser porque, afinal, eu morava perto do hospital e estava sozinha!! Acho que a palavra-chave aqui é “disponível”: todo mundo acha que, agora que você se separou, está automaticamente “disponível”…
Claro, não “disponível” para te apresentarem alguém, imagina! Para isso ainda é muito cedo, mas para todo o resto você está totalmente preparada…
O começo foi aos poucos, eram só duas sobrinhas que passariam uns dias em casa… Nada mais normal. Sei… Na verdade eram sobrinhas “planetas” com um número absurdo de amigos “satélites” entrando e saindo tantas vezes que pensei em trocar a porta por uma catraca. A impressão era que a minha casa estava sendo invadida por uma centena de duendes bagunceiros.
Ok, confesso… Eu adorava. Ter a casa sob meu comando, apesar da superpopulação, sem precisar dar explicações ao meu marido, era a minha primeira expressão de individualidade em muito tempo.
Mas a euforia inicial durou pouco. Não demorou muito para o primeiro desafio de mulher sozinha aparecer. Sim, porque a casa pode estar com gente saindo pelo ladrão, mas quando os problemas aparecem, não se iluda, você está mesmo sozinha… Os mantimentos se esvaindo, a bagunça generalizada, a caixa de leite vazia dentro da geladeira, tudo isso eu conseguira contornar até então. Mas, de repente, o inesperado: a descarga da privada quebrou!!!
Essa combinação de fatores, depois de um dia de trabalho cansativo, com toda aquelas tarefas extras que meu chefe colocava na minha mesa, foi quase fatal. Minhas sobrinhas e seus amigos (todos absurdamente mais altos do que eu), matraqueando, ouvindo música no último volume e, para culminar, me chamando de “tia” 24 horas por dia, também não contribuíam muito para a minha tranqu?ilidade (e menos ainda para a minha auto-estima).
Considerando a situação conturbada e minha veia dramática, até que meu primeiro chilique de descasada foi bastante leve. Histérico, mas sem necessidade de internação. Uns gritos aqui, umas lágrimas ali, a ligeira ameaça de um ataque de fúria (detalhe: adolescentes ainda se assustam com a histeria feminina!) e em poucos minutos a casa estava abençoadamente silenciosa outra vez.
Restava a questão da descarga … Depois da separação e de toda a dor que ela envolve -e sem nenhum tostão para terapia ou para o encanador-, resolvi aplicar a teoria do “um passo de cada vez”. Cuja base consiste, pasmem, em efetivamente tentar fazer uma coisa de cada vez! Parece simples, mas muitas vezes o que mais paralisa a descasada é o turbilhão de pensamentos começados com “como eu vou fazer isso e aquilo e ainda arrumar um jeito de fazer aquilo outro?”. Com frequ?entes substituições da palavra “fazer” por “pagar” e/ou “arrumar”. Experiências comprovam que poucas pessoas conseguem ser bem-sucedidas ao fazer ou pensar mil coisas ao mesmo tempo, pelo menos não sem a utilização de drogas não recomendáveis. Então, se isso acontecer com você, pare tudo, respire e priorize. Pena que ninguém me disse isso antes do chilique… Mas pelo menos serviu de aprendizado…
Meus conhecimentos hidráulicos, assim como minha experiência com carros e material elétrico, resumiam-se, no máximo, a escolher a cor. Ainda bem que tive sorte. A descarga era daquelas modernas, com a caixa atrás. Depois de me acalmar, decidi que iria entender o mecanismo daquela coisa de qualquer jeito e consertá-la eu mesma. Para isso, comecei abrindo a tampa da caixa. Aliás, por ser uma operação complexa e delicada, não tive pressa. Aproveitei e abri também a tampa de todas as outras descargas que encontrei (em casa, no trabalho, em restaurantes … ), afinal tinha que comparar e ter uma idéia do desafio que iria enfrentar. Depois dessa minuciosa “pesquisa de campo’: vesti um macacão velho e aquelas luvas amarelas horrorosas (da era em que o meu salário era usado apenas para luxos como faxineira e bolo de confeitaria) e fui enfrentar a fera. Devidamente equipada com uma fita seladora e muita vontade, entrei no banheiro com a cara e a coragem.
Ao fechar a porta, a sorte estava lançada. De um lado eu, do outro aquela esfinge de louça. A batalha foi cruel. Houve momentos em que pensei que não agu?entaria. Meus olhos liberavam mais água do que aquela geringonça traidora que nunca havia dado problema enquanto meu ex-marido ainda morava lá.
Quase sem querer, comecei a pensar em todas as pessoas que haviam sugerido que eu chamasse alguém (sem jamais oferecerem ajuda prática ou dinheiro para pagar o conserto) e no fato de absolutamente ninguém acreditar que eu fosse capaz de arrumar sozinha. Ninguém sabe do que é capaz uma mulher desafiada. Não se tratava mais do fato da descarga funcionar ou não, afinal havia outro banheiro na casa, mas sim se EU “funcionaria” nessa nova realidade. Enquanto ficava fazendo caras e bocas filosóficas, em um profundo questionamento que, em resumo, comparava minha vida com a descarga da privada, a água estava quase chegando no carpete do corredor. Repentinamente a questão ficou bem mais simples: ou eu consertava, ou a casa ficaria inundada. O fato é que, assim que parei de pensar em bobagens existenciais e decidi simplesmente resolver o problema, a descarga foi consertada. Lógico que as tampas das demais descargas que abri nunca mais fecharam totalmente, e me tornei “persona non grata” em alguns estabelecimentos comerciais, mas e daí?
O fato é que consertei. E SOZINHA! Nenhum parente do sexo masculino foi chamado no meio da noite. Nenhum amigo “solicito” foi convocado e, certamente, não gastei minhas parcas economias com o encanador (pelo menos não dessa vez). Privada coisa nenhuma… Finalmente eu era uma mulher auto-suficiente!! Ô…

 

*Conteúdo retirado do Livro “Aperte o cinto, seu marido sumiu”, com a devida autorização e revisão da autora.

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Carla é escritora. Para ela, a vida começa e recomeça quantas vezes forem necessárias, a sua personalidade e o seu senso de humor que ditarão o quão divertida a jornada será.