Entre quatro paredes

Não sei se existe um nome para esse tipo de pânico, mas eu tenho horror a ficar sozinha numa noite em que todos estão se divertindo: as sextas-feiras, os sábados e os malditos feriados.

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Estamos no inferno. O tempo é ininterrupto: não há sono, não há pausa, não há distração.

Numa sala sem janelas e constantemente iluminada, três estranhos são obrigados a conviver: para eles é sempre dia.  Enquanto isso uma atriz fala na TV, cruzando as pernas com ares de sabedoria: “O inferno são os outros”.

Pelo visto, a tonta nunca leu “Entre quatro paredes”, a peça de Sartre, e se leu, não entendeu patavina. O inferno é nossa própria consciência e os outros são apenas o espelho crítico que não nos deixa esquecer que bela porcaria nós somos. Frases famosas, quando tiradas do contexto, são quase sempre mal compreendidas.

Então tá, menina: continua acreditando que o filósofo assegurou serem os outros o problema, não você.   Me esforço barbaramente para atravessar as próximas horas aqui no meu apartamento de escorpião.

Não sei se existe um nome para esse tipo de pânico, mas eu tenho horror a ficar sozinha numa noite em que todos estão se divertindo: as sextas-feiras, os sábados e os malditos feriados. Eis a hora da verdade: quem é amado está com alguém.  Estou nua como uma minhoca entre quatro paredes: sei que o problema sou eu. Os homens? Nunca foram espelhos. Eles vão e vêm, permanecem na superfície. Não ficam o bastante para me refletir e, no que me concerne, praticamente não existem.

A dor que me castiga a cada romance mal sucedido é sempre a mesma dor e o protagonista daquela semana pouco importa: ele é o amor da minha vida e eu sofro sua perda e eu choro pela rejeição e eu arranco os cabelos apenas até o sol se pôr.

Na noite nova, haverá um novo homem.  Aqui não há a anestesia das brigas familiares ou o choro de um bebê exigindo minha atenção.

Estou só e o silêncio é mais letal que uma nuvem de gás Sarin. Eu precisava tanto que alguém se aproximasse hoje, eu preciso tanto que alguém se aproxime sempre.  Mas não muito, não a ponto de ser espelho: apenas o suficiente para eu me esquecer de mim.

 

 

Perdeu o capítulo anterior?

Espero que vocês estejam felizes, porque eu não estou.

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos "Loucura de Estimação", “Os Indecentes”, "Eu me possuo" entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net