Entrevista com Clélia Gorski, autora do livro "Separada & Dividida"

Alice, uma assessora de imprensa de 32 anos, enfrenta a crise do término de seu casamento, logo após o nascimento de seu terceiro filho.

image

Entrevistamos Clélia Gorski, autora de Separada & Dividida, livro que conta a história de  Alice, uma assessora de imprensa de 32 anos, que enfrenta a crise do término de seu casamento, logo após o nascimento de seu terceiro filho. Dividida entre os papéis de mãe, profissional e mulher, ela inicia uma busca pela autorrealização que a levará a encontrar novos caminhos, viver amores inesquecíveis, amar a si mesma e aos filhos.

 

image

No Livro você relata algumas das inúmeras dificuldades de uma mulher-mãe-profissional separada…
Qual delas você considera a mais complicada?

Identificar as prioridades entre tantas tarefas a cumprir está entre os maiores desafios da mulher separada que vive os inúmeros papéis de mulher, da maternidade e da vida profissional. Assim que se enfrenta uma separação, a primeira tarefa a fazer é cuidar da autoestima como ponto inicial de uma reconstrução. A partir daí, a mulher inicia um processo de reconhecimento de terreno, o que implica equacionar seus compromissos em ordem de importância. Esta fase é, sem dúvida, uma das fases mais difíceis. Porém, uma vez enfrentada, ela representará o alicerce da nova vida que está em gestação.

Na sua visão, o que significa a palavra SUPERAR na vida de quem passa ou passou pelo processo da separação?

Superar o término de um casamento significa virar a página de um capítulo de nossa vida que não encerrou como o previsto: afinal, ninguém casa-se tendo a separação como uma possibilidade. Sendo assim, é fato que não estávamos preparadas para a ruptura, o que significa dizer que é natural que nos sintamos perdidas e sem rumo num primeiro momento. Portanto, devemos reconhecer que a superação é um processo gradativo e que não acontece de uma hora para outra. Temos de nos perdoar pelos nossos enganos e nos dar tempo para vivenciar a dor. Ela é necessária para nos conhecermos melhor. A conhecida frase “O caminho se faz ao caminhar” simboliza bem este período. De nada adiantará apenas dizer “tenho que superar”,” “tenho que esquecer”. Melhor será aceitar os sentimentos como sinalizadores do que funciona ou não para nós, do que queremos ou não a partir de agora. O tempo é nosso aliado (sempre!), e com sabedoria e autoconhecimento esta fase passará e, com ela, a superação se fará presente.

Como a prioridade funciona para mulheres separadas e com filhos em meio a tantas atividades?

Ela é fundamental! Como mencionei, após a primeira fase de autoconhecimento, a segunda de reconhecimento de terreno e reorganização, entramos na terceira que é a reconstrução. Mas como podemos construir um prédio se não sabemos a ordem de importância, urgência ou significado de cada parte deste prédio? Vale dizer que a prioridade muda de acordo com a conjuntura, o tempo ou a demanda. Por isto, as primeiras fases são tão importantes: ao passarmos pela dor e identificarmos quem somos e o que é importante para nós ou não, estaremos preparados para o que virá. No livro Separada & Dividida, Alice vive este dilema tão bem simbolizado na figura que a representa: uma mulher com vários braços, a equilibrar infinitas tarefas. Há momentos em que ela tem de abrir mão de um relacionamento, por entender que aquela relação não irá somar a sua vida familiar; há outros em que ela reconhece ser necessário um reforço em sua estrutura (o apoio de uma amiga ou da mãe, a mudança de babá ou mesmo a reflexão sobre si mesma) para poder vivenciar um amor ou poder seguir progredindo na vida profissional. E assim ela vai vivendo e se fortalecendo no processo.

Que cuidados as mulheres que se separam e tem filhos devem ter com suas novas relações afetivas?

A vida afetiva será tão mais proveitosa quanto mais você se conhece. E isso acontecerá após a primeira e segunda fase: autoconhecimento (fortalecimento da autoestima) e reconhecimento de terreno (identificação de prioridades). Após estes dois andares do processo de reconstrução é que estaremos mais conscientes de nós mesmas e do que almejamos. Neste sentido, nossas escolhas serão mais assertivas e a probabilidade de nos relacionarmos com alguém que venha a somar em nossa vida familiar aumenta.

Qual é a mensagem que o livro deixa para suas leitoras?

A mensagem que transmito por meio do romance é a de que a mulher-mãe-profissional no século XXI enfrenta um grande e novo desafio: o de colocar em pauta a reflexão de que, embora reconheçamos a importância da luta de nossas antecessoras para termos as conquistas de hoje (como estar no mercado de trabalho, ter poder de voto, maior liberdade sexual, entre tantos outros), estamos, pelo menos grande parte de nós, exaustas e queremos uma melhor divisão de trabalho, tempo e responsabilidades. Indo mais além: a sobrecarga de funções, por inúmeras razões, sendo uma delas a falta de divisão de trabalhos domésticos e cuidados com os filhos, nos embruteceu no processo, dificultando o nosso exercício do universo feminino, da ação passiva identificada pelo Yin da filosofia chinesa. Somos Yin e temos a capacidade natural e biológica da ação pacificadora por meio do amor, do afeto e do ato de receber/ acolher. Ao termos a tarefa de “matar um leão a cada dia”, acabamos por comprometer nosso tempo dedicado a “acariciar a cria”. Em outras palavras: uma parte sempre fica negligenciada em função da outra. Por meio do livro, pretendo transmitir a mensagem de que é impossível dar conta de todas as tarefas, sem se desiquilibrar no processo e este desiquilíbrio aumenta se há falta de estrutura financeira, social e/ ou afetiva. É necessário que a sociedade identifique esta sobrecarga comum a muitas mulheres para que possamos colocar em pauta reflexões sobre o assunto. Este será um primeiro momento: o momento de identificação e reflexões. A partir disso, acredito podermos abrir novos caminhos de conquistas e equilíbrio para a mulher, de forma a somar a toda a sociedade. Se o livro despertar reflexões neste sentido, considero-me muito realizada.

Hoje, com tudo que aprendeu com a separação, você acha que faria tudo diferente?

Não acrescenta arrepender-se do caminho trilhado, pelo contrário: devemos é nos orgulhar de nossa história e seguir em frente com a certeza de que somos o resultado de nossas escolhas. Eu não seria o que sou hoje, não teria produzido o livro sobre o tema, se não tivesse passado pelo processo. Portanto, fazer diferente significa não ter chegado até aqui. Não, não faria diferente. Faria tudo o que fosse possível para realizar o que realizei. Sinto-me feliz e realizada e devo isto, muito em parte, as minhas experiências.

Você acredita que as mulheres separadas ainda têm o estereótipo de mulheres que querem transar com qualquer um após o divórcio?

Acho que esta é uma preocupação ultrapassada e não devemos dar crédito a isto. Todos já convivemos e temos parentes que passaram pelo processo de um divórcio e exemplos de que estas pessoas mantiveram o respeito de todos do seu convívio não faltam. É claro que ainda há resquícios de pensamentos ou comportamentos preconceituosos, mas é fácil identificar que são de indivíduos desprovidos de cultura e informação.

O que você achou da campanha da O Boticário sobre autoestima pós separação?

Acho um bom sinal de que a sociedade está aberta a reflexões sobre o tema. Considero, no entanto, que
a campanha passaria ainda com mais força a mensagem, ao contrapor também com a autoestima masculina. Afinal, tanto o homem quanto a mulher sofrem com a separação e a questão da autoestima é inerente a ser humano, não ao gênero. Outra questão é que nós não precisamos necessariamente que alguém nos valide como bonita, competente, sensual, diretamente. Precisamos nos sentir assim e, consequentemente, reconhecerão isto em nós.

Nós recebemos muitas mensagens de mulheres que dizem o quanto se identificam com os textos publicados. Você recebe este tipo de feedback?

Recebo muito e respondo sempre com muita dedicação e atenção. Cada leitora que me escreve tem uma história singular e não é raro eu me emocionar. Elas identificam-se com algumas passagens do livro, torcem pela Alice, personagem central, e dividem comigo suas reflexões. E eu percebo que as mulheres, apesar de estarem sobrecarregadas e muitas vezes confusas durante a fase do pós-separação, estão com disposição para promover mudanças e construir um novo futuro para as próximas gerações.

Se você tivesse que dar um conselho para uma amiga que acabou de separar o que diria?

Cuide-se bem e apresente-se ao mundo em sua melhor forma. O mundo precisa de sua centelha divina em equilíbrio e adotar cuidados consigo mesma é um passo decisivo para a construção da vida que idealiza a partir de agora. E lembre-se: o seu sonho não acabou! Continue avante em sua busca pela plenitude e realização. O que quer que deseje construir, será bem sucedida, se for fiel a seus princípios, perseverante em seu objetivo e íntegra a si mesma. Por fim, terá orgulho do caminho que trilhou e boas morais de histórias para contar a seus filhos e a também a você, no futuro.

Aqui no Exnap damos ao leitor a possibilidade de desabafar. Escrever o que quiserem, anônimos ou não. Você diria que o seu livro é um grande desabafo? Colocar suas emoções no livro ajudou a superar sua separação?
Não, o livro não é um grande desabafo porque o escrevi em forma de romance e teci cada linha com inspiração e emoção, frutos de toda arte. Se o produzisse em forma de desabafo, seria um diário, o que não é o caso. É possível, sim, ler na história de Alice, emoções, situações, reflexões e atitudes comuns a toda mulher que enfrenta uma separação. E um ponto muito presente em Separada & Dividida e muito comentado nos e-mails que recebo é o desejo da personagem de respirar, equilibrar-se, recompor-se e impor-se como mulher do século XXI, que é forte, sim, é competente, sim, é bem sucedida em seus empreendimentos, sim, mas é uma mulher e tem aspirações e desejos próprios de seu gênero. Esta nova mulher que representamos quer continuar trilhando o caminho do sucesso de salto alto, quer embalar um filho no colo, mas também quer estar perfumada, florida, poder ser sensível e acolhedora. Para tanto, necessita que respeitem o seu tempo, o seu espaço e o seu direito de ser feminina e vencer com leveza e elegância.
CLÉLIA GORSKI

 

Onde comprar:

Livraria da Travessa
Livraria Saraiva

 

 

Em uma conversa entre amigas, Ana e Juliana, ambas separadas e Aline, casada, falavam de divórcio e de como esse assunto ainda é visto como um tabu. Existe (acreditem!) muito preconceito e clichês. E só sabe isso quem vive ou viveu um divórcio.