Estupro numa relação abusiva

Numa relação abusiva há dois responsáveis e um culpado. Quando o abuso degenera em crime, porém, a responsabilidade de uma das partes desaparece: naquele momento, impotente diante da violência extrema, ela deixa de ser coparticipante para se tornar vítima.

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Photo by Sydney Sims on Unsplash

Que um homem desconhecido, um desequilibrado, uma criatura forjada e endurecida num submundo paralelo (até submundo tem ética) fizesse o que ele me fez como se tomasse uma cerveja é possível, mas alguém que beija a palma da sua mão quando você está triste, que lhe mostra o esconderijo da chave de casa, que conhece sua mãe, seus amigos, que conhece você? É difícil de acreditar.

Esta foi a causa de eu ter ficado imóvel quando ele me violentou. Nessas horas extremas não há como prever reações: a dor vai direto para o corpo e, sem o raciocínio a conduzi-la, ele simplesmente fala ou grita ou chora ou quebra ou dói ou morre ou qualquer outra coisa que não faça sentido.

Quando ele foi ao banheiro, cheguei a pensar que havia morrido e me transformado num fantasma (invisível, inodoro, imaterial) e ele apenas se masturbara violentamente enquanto eu, espírito errante, deitara ali, bem naquele momento, por descuido: tudo não passara de um grande engano! Não, nenhum engano: o mais difícil para uma mulher violentada por um conhecido é ela se convencer de que houve, sim, um estupro.

Antes que ele voltasse, fui embora. Na minha casa, a primeira coisa que fiz foi entrar no chuveiro. Sozinha sob a água quente, senti náuseas, tonturas e cólicas: meu corpo tentou – até o limite em que um corpo pode expelir resíduos de si mesmo – expulsar desesperadamente qualquer lembrança daquilo.

Uma imagem – naquela época recente – se desenhou quando fechei os olhos: nós havíamos ido juntos a um show e depois de horas em pé (imobilidade imposta pela multidão que nos cercava) me agachei enlaçando suas pernas numa posição claramente canina. Daquela maneira permaneci enquanto ele acariciava meus cabelos – exatamente como faria se um cão lhe roçasse os joelhos. O mesmo carinho. A mesma intenção. Um cachorro.

As dores físicas se tornaram insuportáveis (as emocionais permaneceram insuportáveis por muitos anos). Pronto-socorro. Luzes brancas sem manutenção piscavam no corredor estreito. O médico, ao ver as marcas no meu corpo, perguntou: “Você quer fazer algo a respeito disso?”. Minha insegurança, meu medo e minha vergonha disseram “não”.

Os estudiosos analisam corpos marcados, medidas de mordidas, restos de pele sob unhas, líquidos nas entranhas, espessura e profundidade de arranhões. E o resto? E todo o resto? E quando me calei numa festa em que ele insinuou que eu era burra? E quando parei de sair com meus amigos porque ele tinha ciúme? E quando eu o aceitei sobre mim, sem vontade, até com nojo? Quando começou a agressão? Muito antes, agora vejo.

Numa relação abusiva há dois responsáveis e um culpado. Quando o abuso degenera em crime, porém, a responsabilidade de uma das partes desaparece: naquele momento, impotente diante da violência extrema, ela deixa de ser coparticipante para se tornar vítima. No entanto, no dia seguinte, a responsabilidade volta a ser dela – e a capacidade de mudar seu destino também.

 

 

*Texto retirado do livro de crônicas  – “Os Indecentes – crônicas sobre amor e sexo”

por Stella Florence

 

 

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos “Loucura de Estimação”, “Eu me possuo”, “O diabo que te carregue!”, entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap. www.stellaflorence.net

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos "Loucura de Estimação", “Os Indecentes”, "Eu me possuo" entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net