Eu comi as minhas emoções...

...E meus tédios, minhas angústias, minha infelicidade, minha expectativa, eu comi os sonhos... E por cima de tudo isso eu arrematei com um copão de coca-cola e pizza com catchup!

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Photo by Thomas Kelley on Unsplash

…E meus tédios, minhas angústias, minha infelicidade, minha expectativa, eu comi os sonhos… E por cima de tudo isso eu arrematei com um copão de coca-cola e pizza com catchup!
Gostaria que você, que me lê, avaliasse sua vida e, antes que você também coma a última chance de reescreve-la, veja se temos algo em comum em algum lugar da minha história… Vou listar todos os defeitos que eu associei com a compulsão alimentar, com o consumo ou outro prazer qualquer, que só mais tarde compreendi como uma depressão ou a causa dela:
Eu procrastino, adio coisas, deixo pra última hora, então deixo todo mundo louco porque eu não me antecipei, não me programei. Isso causava irritação em todo mundo, e um enorme stress em mim. Eu senti vergonha a vida toda por isso, gostava de falar com a boca cheia que “eu trabalho super bem sob pressão”, quando a frase correta seria “eu tô fazendo um esforço sobre-humano agora porque deixei para o último momento e não fui disciplinada”. Isso começou cedo, na adolescência ainda. E se você sofre disso, pare de se enganar, assuma sua mania de adiar. Eu adiava porque estava tão ansiosa vivendo e imaginando o amanhã, que tropeçava no “hoje”.
Eu tenho preguiça! Sinto que quando chego a qualquer lugar eu me encosto, vou sentando, escorando. Tenho um dia ou outro de extrema disposição, aí eu minto, digo para os outros que é cansaço, que trabalhei feito louca. Mas dentro de mim meu senso ético grita, dizendo que eu não movi uma palha, que passei o dia na cama e como no item anterior, adiei muitas coisas. E porque adiei demais, em algum momento vou ter que me matar pra fazer, e isso gera um problema sem dimensões. E mais, quando passei a ter consciência disso, comecei a sofrer, porque enquanto eu era jovem, eu não sentia remorso pela preguiça, mas agora eu sinto vergonha. Já ouviu alguém assumir que é preguiçosa e enrolada? Pois é… Meu rosto queima de vergonha.
Eu cometo desperdícios hediondos para me livrar de trabalho. Você já jogou algo fora para não precisar limpar? Já esqueceu um pote de comida por semanas na geladeira e desconfiou que o bolor seria intolerável e preferiu descartar sem nem abrir? Você já precisou relavar a roupa que ficou úmida dentro da máquina, mas a sessão da tarde ou o facebook te impediram de estender? Você já deixou tapetes ou panos de molho e eles fizeram aniversário no balde? Mas lá fora, na vida profissional eu sou excelente, mas só a casca não vale, eu tinha que ser melhor primeiro para minha família, depois para os estranhos.
Ah… já ia me esquecendo. Não sou capaz nem mesmo de tomar uma cartela de remédios prescritos pelo tempo indicado, tomo hoje, esqueço o próximo, tomo de novo, pulo dois dias. Minha vida externa caótica representa o caos em mim. Nem te conto como é vergonhoso escrever isso sobre mim, mas eu fui assim… ainda luto para não ser. E se alguém perfeito pensou em descer a tela e deixar um comentário do tipo: “isso é relaxo”, “minha casa é um brinco”, que bom! Fico feliz por você! A minha já foi também. Mas isso é a depressão mal resolvida. Eu parecia bem por fora, ria, contava piadas, mas minha vida ruía.
Continuando a saga da pior mulher do mundo: Você já negligenciou seus filhos por conta desse desânimo? Pulou refeições? Deu leite ou miojo no lugar do almoço? Lavou o uniforme no banho e secou no secador porque deixou pra última hora, mas você não quer que saibam o quanto você falha? É… é terrível! Sinto muito se você já sentiu isso… Para as mães, vale lembrar que não podemos abdicar do cargo de mães quando queremos curar o cargo de mulher, esposa, filha, órfã, abandonada, viúva… Mas o fato é que algumas de nós cometem esses delitos, e ninguém vê. Talvez os mais chegados apontem, digam que mãe péssima você tem sido. Seu facebook mostra você fazendo cabana com as crianças, mas a verdade é que depois de 15 minutos você deu dois gritos pro quarto ficar arrumado em tempo recorde. Eu queria chorar a traição, o abandono, o Serasa… Mas eu não podia parar minha vida pra isso.
E o último pecado que cometi por muito tempo: Eu comi tudo isso! Engoli em calorias tudo que eu não engolia em mim ou na minha vida.
Eu estava triste, traída, abandonada, sem grana, sendo péssima em tudo, me sentindo fracassada emocionalmente, ainda achando que eu tinha culpa por ele ser um cretino… Então eu comi! E a comida me levou para um lugar maravilhoso, no qual eu ainda era filha, era cuidada, alimentada, cercada de mimos, sem responsabilidades. Comer me lembrava só coisa boa, frango assado tinha cheiro e gosto de domingo, sorvete era só alegria e coxinha… Ah!!! Já viu alguém triste comendo coxinha? E comer foi meu oásis muitas vezes. E associando ao primeiro defeito: o de adiar; e o segundo: a preguiça, parar de comer ou compensar com dieta era um trabalho difícil demais pra mim. Cheguei a um ponto onde eu comia por tudo, para ser feliz, quando estava triste, para comemorar, quando saía com as crianças, para encher a casa… E fui enchendo meu corpo também… Associe o hábito alimentar acima, com a preguiça, o adiamento, a negligência…

Tcharam!!!!! Eu hoje sou duas de mim! 110kg em pouco mais de um metro e meio.
Não estou dizendo que todo obeso é infeliz ou que todos ficaram obesos pelos mesmos motivos que eu, longe de mim. Mesmo obesa, reconstruí boa parte do meu emocional, encontrei o amor da minha vida e tenho paz… O problema é que agora que estou feliz, tenho pressão alta, gastrite, hérnia, esporão, ronco, pré-diabetes, dor nos joelhos e lamento saber que isso tudo me arranca anos felizes que eu poderia viver, porque isso reduz a minha expectativa de vida.
Eu ainda sou feliz, muito, rio todos os dias, namoro, curto meus filhos, mas eu posso afirmar que eu seria mais feliz com um corpo saudável, sem tantas dobras, me sentindo feminina e desejável. Eu comi tudo, inclusive uns 15 anos saudáveis da minha vida. Eu estabeleci uma relação com a comida, tão difícil, tão complexa e percebo que outros hábitos pra isso. Eu sou mais que isso! Dizem que sou ótima pessoa, que tenho um bom coração e que é impossível alguém brigar comigo, porque jogo panos quentes em tudo, não sei dizer “não”… Minha mãe diz que sou a melhor pessoa que ela conhece. Meu marido diz que é maravilhoso viver comigo e dividir a vida. Mas eu estraguei muita coisa… Semana passada, pela primeira vez, olhei para a comida e disse quem manda em quem. Subi na bicicleta ergométrica (primeiro arranquei mil teias de aranha dela) e fiz 15 minutos de exercício, eu nunca fiz isso, nem no dia em que eu estava empolgada pela entrega do abençoado cabide com pedais. E consegui despachar todas as pendências de trabalho que eu vinha acumulando, enviando alguns com 30 dias de antecedência. Foi tão maravilhoso ter o controle de mim, tão fantástico, que eu não posso parar agora. Foi muito duro olhar pra dentro de mim, encontrar coisas desagradáveis, fúteis, descontroladas… Mas foi o primeiro passo para mudar a minha vida!!! Não vou me abandonar, não vou me boicotar, não vou mais comer meus sentimentos, vou resolver!!! E ao contrário do que podem pensar, eu me amo sim, muito. Amo tanto que eu mereço mais respeito, mais controle e mais cuidado. Não coma sentimentos, resolva-os!

Separada, superada, sem parada! Apaixonada novamente Dois filhos terríveis e lindos Buscando autoestima e autoconfiança Professora e aprendiz, sempre!