No romance “Eu me possuo” Stella Florence aborda a superação de um estupro

Stella, colaboradora do EXNAP com o romance em capítulos “O diabo que te carregue!”, nos concedeu uma entrevista exclusiva sobre “Eu me possuo”, seu décimo livro

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A intensa sensação de partilha com seu público, majoritariamente feminino, se repete no novo romance de Stella Florence, cujo tema não poderia ser mais oportuno: a superação de um estupro. Em “Eu me possuo” acompanhamos o empoderamento de Karina, uma mulher tímida, que decide abandonar a odontologia e abrir um bar. A partir daí, sua vida passa por várias revoluções: profissional, sexual, psicológica, afetiva, familiar. Nessa nova fase, de muito trabalho e muitos homens, Karina reencontra um antigo amor que a estuprou seis anos antes. A tensão que se estabelece entre ambos gera abalos e confrontos. Uma pessoa especialíssima, porém, acompanha Karina todo o tempo: sua moderna e sábia avó Evelyn.

Stella, colaboradora do EXNAP com o romance em capítulos “O diabo que te carregue!”, nos concedeu uma entrevista exclusiva sobre “Eu me possuo”, seu décimo livro, além de permitir a reprodução de um trecho do texto.

EXNAP: Por que você decidiu lançar um romance sobre a superação de um estupro? Existe alguma relação com os casos recentes de estupro coletivo que chocaram nosso país?
Stella Florence: Eu quis escrever sobre isso porque sou uma sobrevivente de alguns estupros e, como escritora, nada mais apropriado do que tratar do tema no meu elemento, a ficção. É triste, mas necessário encarar a realidade: sempre houve estupros coletivos no nosso país; a novidade terrível é compartilhá-los nas redes sociais como algo de que se tem orgulho. Não há relação direta entre esses casos e o livro, foi uma coincidência: comecei a escrever o “Eu me possuo” em 2012 e ele ficou pronto no fim do ano passado, quando entrou no cronograma da Panda Books para 2016.
EXNAP: O estupro, no romance, é cometido por um homem por quem Karina era apaixonada. Por que essa escolha?
Stella Florence: Eu quis que o agressor fosse alguém desejado por Karina para que eu pudesse abordar os sentimentos conflitantes da vítima. Namorados estupram suas namoradas. Maridos estupram suas esposas. Ex-namorados e ex-maridos estupram suas ex. E raramente a violência cometida por alguém das nossas relações íntimas será denunciada – porque a vítima se sente culpada e sabe que todos a culparão também. Além disso, eu quis desconstruir as justificativas do estuprador, quis mostrar que eles não são doentes: são pessoas ao nosso lado na fila do banco que acreditam que podem tudo, que acreditam que o corpo de qualquer mulher lhes pertence.

EXNAP: Você diz que as vítimas de estupro se sentem culpadas. Por que isso acontece?
Stella Florence: Porque a sociedade nos culpa e porque crescemos e vivemos nesse caldo social: somos contaminadas, constrangidas, humilhadas por ele. É isso o que chamamos de cultura do estupro. O silêncio da maioria das vítimas é a prova da existência de uma cultura do estupro. Sua mais forte característica é distorcer os fatos para colocar, sempre, a culpa na vítima.

EXNAP: Como você definiria a cultura do estupro?
Stella FlorenceA palavra cultura vem do latim “colere”, que significa “cultivar”. Uma cultura do estupro, portanto, significa o cultivo de ideias, palavras e atitudes que mantém esse tipo de violência. É claro que a maioria do povo brasileiro repudia o estupro, no entanto, sem perceber, cultiva no seu dia-a-dia valores e práticas que o mantém: isso é cultura do estupro, filha do machismo.

EXNAP: Como se explica o fato de meninos e homens serem também violentados? Se a cultura do estupro é filha do machismo, ela não deveria afetar apenas mulheres?
Stella FlorenceSeja quem for o agressor(a), ele submete a vítima (seja quem for), a viola, a invade, a expõe, a humilha, colocando-a, de acordo com os valores machistas, na posição de uma “mulherzinha”. O machismo contamina tudo. É importante lembrar que estupro não é sexo (para isso deve haver consenso). Estupro é violência, é o domínio de um ser sobre outro – e esse outro pode ser um menino de 7 anos, uma mulher de 49, um rapaz de 18, uma moça de 25, uma adolescente de 16, pode ser alguém de qualquer idade, gênero, orientação sexual ou classe social.

EXNAP: Apesar do tema, o livro é bastante leve, com muito romance, sexo, reviravoltas. Esse tom foi uma escolha proposital?
Stella Florence: Sim, foi. Eu criei um romance sobre superação do estupro, não sobre a violência em si. Eu queria que o tom do livro fosse a reconstrução e que, mesmo com algumas cenas necessariamente duras, fosse um livro solar.

EXNAP: A escritora Martha Medeiros fez uma entrevista com você recentemente. Os temas abordados por ambas muitas vezes convergem nas perguntas e nas respostas. Como é a relação de vocês?
Stella Florence: Somos amigas e confidentes há muitos anos. Martha é craque: além de prosadora de primeira, é poeta, tem o talento da síntese, das frases perfeitas. A nossa relação é como a de qualquer amizade, não fazemos parte de nenhuma maçonaria literária, não (risos).

EXNAP: Você acredita que podemos mudar essa situação?
Stella FlorenceSim, podemos. Educando toda a sociedade, mudando o machismo em que vivemos (homens e mulheres). Refletindo. Vigiando. Punindo os culpados. Conversando com firmeza e serenidade. É preciso que nossos meninos sejam criados não só para respeitarem as meninas, conhecidas ou estranhas, mas também para as protegerem caso elas estejam numa situação vulnerável. É preciso que as meninas tenham autoestima e credibilidade. Há muito a ser feito! O primeiro passo é este: acordarmos.

Trecho de “Eu me possuo” de Stella Florence

Gustavo, você não se identifica como um estuprador porque pensa que estupros são feitos apenas por criminosos em esquinas escuras. Mas há maridos que estupram suas esposas, há namorados que estupram suas namoradas, há amigos que estupram suas amigas. E muitos desses relacionamentos continuam, em meio às mordaças da necessidade, do medo, e até mesmo do amor asfixiado.

O fato de eu ter me sentido atraída por você, ter ido a sua casa, ter desejado transar com você, não significa que você poderia me violentar. Desejar um homem não é o mesmo que desejar ser estuprada por ele.

Você disse que errou ao supor que meu retraimento fosse rejeição a você e um deboche para com seus desejos. Eu nunca vi alguém debochar do outro chorando – e eu estava chorando. Mas e se fosse deboche? E se eu estivesse mesmo te rejeitando? Então um estupro seria uma reação justa? Imagine se mulheres saíssem por aí currando os homens que as tivessem rejeitado ou debochado delas. Imagine que elas acreditassem estar cobertas de razão. Seria um mundo seguro pra você, Gustavo?

Não, eu não aceito jantar com você. Não ouse supor que você me enternece dizendo que ainda se sente atraído por mim: minha inteligência é maior do que minha vaidade. A única reparação que me interessa é você jamais fazer com outra pessoa o que fez comigo.

Você disse que tem ido ao meu bar a fim de se desculpar por alguma má impressão que tenha deixado em mim. Você não deixou uma má impressão. Você cometeu um crime. Talvez agora você me pergunte por que eu não te denunciei já que afirmo que você é um criminoso.

Naquela noite, eu dei um nó no meu vestido para disfarçar o rasgo que você fez e me limpei como pude no elevador. Fiquei perambulando pela rua meio tonta, depois entrei num táxi e fui para casa da minha avó. Fui direto para o chuveiro limpar aquilo de mim. Me senti suja, me senti culpada, me senti inferior, me senti até ruim de cama: carreguei por muito tempo acusações que serviam para você, não para mim. Minha falta de experiência me fez acreditar que a culpa era minha, que eu apertei algum botão maldito em você e que talvez sexo fosse aquele horror mesmo. Por isso eu me mantive em silêncio. Mas meu corpo gritava! Em três meses eu engordei quinze quilos tentando me tornar incapaz de instigar desejo num homem, tentando criar uma segunda e grossa pele que me afastasse da dor. E pelos seis anos seguintes eu me mantive trancada.

Se eu pudesse voltar no tempo, eu diria àquela menina assustada o que permiti que minha avó me dissesse anos mais tarde no chão do seu banheiro: que eu não tive culpa, que a sujeira daquilo tudo não estava em mim, que aquela coisa medonha tinha nome e que o nome feio dela é estupro, que sexo não era aquilo e que aquela experiência não poderia me definir nem definir o resto da minha vida. Foi um caminho longo e árduo, mas terminou.

Hoje essa carne mais macia, mais fértil de células e sensações, é parte de mim. Meu corpo não me afasta da vida, do prazer, dos homens interessantes – dos óbvios, sim, mas os óbvios eu não quero. Hoje eu gozo, Gustavo, no sexo e muito além dele. E quem forjou a chave para abrir meu cativeiro fui eu. A força que hoje me habita é criação minha. Eu me possuo. Ninguém mais.

Fim

Stella Florence
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Lançamento em São Paulo: 05/07, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2073), das 19:30h às 22h. Lançamento em Belo Horizonte: 06/07, no “Sempre um Papo”, Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1537), início às 19:30h.

Em uma conversa entre amigas, Ana e Juliana, ambas separadas e Aline, casada, falavam de divórcio e de como esse assunto ainda é visto como um tabu. Existe (acreditem!) muito preconceito e clichês. E só sabe isso quem vive ou viveu um divórcio.