Eu sobrevivi ao fim de um grande amor

Tá, eu sei que eu falo como se tivesse sobrevivido a um acidente nuclear, ou a queda de um avião. Mas eu achei que fosse morrer.

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Eu sobrevivi ao fim de um grande amor. Eu sobrevivi!!
Tá, eu sei que eu falo como se tivesse sobrevivido a um acidente nuclear, ou a queda de um avião. Mas eu achei que fosse morrer. Meu peito doía tanto, o choro vinha tão fácil para meus olhos, que eu achei que não fosse nunca mais sorrir de novo.

Todas  essas coisinhas que fazemos tão naturalmente exigiam um esforço sobre-humano. Coisas como respirar e andar.

Acordar era uma processo longo e cansativo. Até que eu abrisse os olhos, e conseguisse entender que minha vida agora seria vivida sem um grande amor, demorava mais ou menos uma hora.

Como dormir não era exatamente uma coisa fácil, eu passei a não acordar mais e a minha sensação era que o dia inteiro se passava, enquanto eu ainda estava dormindo, e sonambulava por aí porque eu ainda tinha coisas a fazer.
A vida não parou porque eu perdi um grande amor. O sol teimava em nascer toda manhã. As contas chegavam como se nada tivesse acontecido. O dia me atropelava sem piedade até mais um fim de tarde.
Durante algum tempo, não sei muito bem quanto, por que esse tal de tempo sadicamente não passava, achei que o sol fazia aquilo só pra me provocar.
TODO dia. Lá estava ele me lembrando que a vida precisava seguir em frente.

Nascendo e renascendo. Começando e recomeçando.
Ainda bem.
Por que eu sobrevivi a uma morte de um grande amor, mesmo ele não tendo resistido ao furacão que foi nossa relação. Mas eu sobrevivi. Sem casa, sem projeto de futuro e sem alguns sonhos, mas viva.

E com uma crescente vontade enorme de dormir e acordar todos os dias sem amor.
Precisei buscar a mim mesma em cada pôr do sol.  Em cada olhar, em cada estrada, em cada cama.
Por um tempo foi difícil entender que eu não precisava de um grande amor para voltar a ser feliz, mas quando finalmente eu percebi, meus dias passaram a ser cada vez maiores, como se eu tivesse tempo sobrando. Como se o relógio de repente se tornasse meu amigo.

Eu sobrevivi a morte de um grande amor. Meu amor não sobreviveu, mas eu sobrevivi. E eu aprendi que eu sou capaz de amar muito mais. Amar a mim mesma, aos outros, a vida. Eu sou capaz de tanto amor, tanto amor,  que o meu grande amor virou um pequenininho amor, e eu nem sabia que ele era tão pequeno.

E nem tão fraco. Morreu sozinho. De solidão a dois, a pior doença que pode acometer um amor. Uma pilha de cotidianos pesando no peito, sorrisos falsos e sonhos desfeitos.

Agora eu quero um pouco de Cazuza. A sorte de um amor tranquilo, matando a sede na saliva.

Quero alguém que só me faça chorar pelos poros.

Não preciso mais de um grande amor. Eu já tenho. O próprio. O que vier agora é bônus.

Tudo isto é porque eu sobrevivi… A morte de um grande amor.

Clara é escritora, divorciada, mãe, apaixonada, feliz. O seu maior prazer é deixar as palavras brincarem na sua cabeça e assumirem o controle. Recomeça todos os dias, se equilibrando em mágoas e amores.