Eu vivi um relacionamento abusivo

Eu vivi um relacionamento abusivo Venho repetindo esse mantra na minha cabeça pra ver se eu acredito.

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Photo by Anca Luchit on Unsplash

Eu vivi um relacionamento abusivo. Eu vivi um relacionamento abusivo. Eu vivi um relacionamento abusivo

Venho repetindo esse mantra na minha cabeça pra ver se eu acredito.

Como eu, sempre tão forte e decidida, posso ter me enfiado em um relacionamento onde eu não podia ser eu mesma?
É difícil admitir pra mim, e para o mundo, que eu fui fraca. Que permiti que gritassem comigo e me impusessem um modo de agir e pensar. Que mudei minhas roupas, meus gostos e meus hábitos só pra agradar alguém.
Perdi amigos, abandonei carreira. Vivi presa em um mundo de fantasia onde eu jurava de pés juntinhos, que eu era feliz.

Ou quase.

Ele nunca me bateu. Nunca ameaçou ou sequer levantou a mão.
Lembro de uma vez, já no fim, pedir que batesse. Acho que precisava disso pra acreditar na violência. Precisava sangrar.
Nunca tive cicatrizes, hematomas ou marcas de “acidentes” . Mas isso são significa que não doeu.

Mas ninguém nunca percebeu. Nem ofereceu ajuda.
E eu nunca me descobri vítima. Nem me ofereci saída.

Nem sempre percebemos um relacionamento abusivo. Por um tempo o ciúme é amor. A insegurança é bonitinha. O controle é cuidado.

Pra que amigos se você tem a mim?

Eu achava que ele era meu melhor amigo. Mas não era. Ele era meu único.

Fui rebelde muitas vezes. Cometi erros. Me culpei por não ter o cabelo liso pra fazer o corte Chanel que ele tanto queria. Me culpei por não gostar da sua bebida preferida ou por não saber fazer uma feijoada igual a da Mãe dele.

Ele gostava de me dar presentes. Eu me esforçava pra me achar bonita em roupas que nada tinham a ver comigo.
Ele era um príncipe encantado.

Bastava eu ter um problema, estar frágil, doente, triste, que ele se vestia com sua fantasia preferida. Subia em um cavalo Branco empunhava a espada e corria ao meu resgate. E ao seu lado eu sentia que nada, nada poderia me atingir.
Mas passava logo. Encerrada a cena, lá estava eu sozinha novamente. Me curando sozinha, me cuidando. Mas acreditando que ele não estava fisicamente ao meu lado pq não podia.
Eu estava segura. Ele pagava a conta e recebia os aplausos. E eu acreditava que tudo valia a pena. Ele valia a pena.
E meu mundo fechava cada vez mais. Cada vez mais “Seguro”. Cada vez mais sozinho.
Mas o inimigo estava lá dentro. Me diminuindo. Me infantilizado. Me “colocando no meu lugar. “Você é mulher. Você é fraca. Você não pode falar assim. Mulheres não falam assim com seus homens. Você não pode se vestir assim. Essa música é ruim. Essa banda é ridícula. Esse filme não presta.

E eu mudei o armário e a playlist. Os prazeres.
Tentei. Fechei minhas barreiras para tudo que pudesse atrapalhar nosso amor.

Fui traída, deixada, abandonada. Mas estava feliz.
Ou quase.
Estava segura.
Ou quase.
Era amada.
Ou quase.
Tinha um parceiro de vida.
Ou quase.

Era criticada sempre que fazia algo que não agradava. Ele gritava. Era grosseiro.
Eu chorava. Implorava. E lá vinha o cavalo branco. A fantasia. A espada.

Eu ainda não consigo aceitar 100% que eu vivi um relacionamento abusivo.
Eu ainda não tenho coragem de dizer isso ao mundo. Sei que seria julgada.
Ele era perfeito. Ele era educado e gentil.
Ele me sustentava.
Eu era grossa. Eu era fraca. Eu não fazia nada pra merecer ele.
“Mulheres não devem ser fortes. É ridículo. Mania absurda de achar bonito mulheres com personalidade forte.”
E eu tinha. Sou inteligente. Sou bonita. Que absurdo.
Não me sinto corajosa por admitir isso.
Me sinto fraca, me sinto humilhada. Me culpo e me julgo. Ainda.
Mas um dia vou me curar. Me sentir forte por ter saído viva. Pela metade. Destruída. Mas viva. E fui ou ainda estou sendo capaz de me reconstruir.
Ninguém merece ser quase. Muito menos quase feliz.

 

 

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