Faunos e Ofélias

Nossas experiências românticas formam uma colcha de retalhos muitas vezes difícil de identificar. O que é ser amada de verdade? Já fomos amadas de fato?

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Quando Oprah Winfrey ainda apresentava o programa de TV que a popularizou, ela recebeu na plateia duzentos homens que foram molestados na infância e/ou adolescência. Corajosos, enfrentaram seus demônios e mostraram a cara: palmas para eles. Me lembro que num determinado momento, um psicólogo dedicado ao tema disse algo que me chamou muitíssimo a atenção: “O alvo dos molestadores são crianças que não sabem o que é amor”.

Claro que essa característica não se aplica a todos os casos, mas é importante refletir que não importa quão estruturada uma família pareça: ela pode ser paupérrima em matéria de amor. Desse modo, a criança assediada confunde o abuso que sofre com afeto genuíno, ficando, desse modo, nas garras do molestador.

Imediatamente pensei em nós, mulheres. Nossas experiências românticas formam uma colcha de retalhos muitas vezes difícil de identificar. O que é ser amada de verdade? Já fomos amadas de fato?

Os abusadores, os mal-intencionados, os golpistas, os violentos se aproximam de mulheres que não sabem o que é o amor. Assim, elas acreditam que aquela humilhação, aquela manipulação emocional, aquele ciúme, aquele apertão no braço, aquela censura constante, é carinho, é cuidado, é amor.

Um dos meus filmes prediletos é “O labirinto do fauno”: parece uma fábula, quando, na verdade, é um dos mais brutais filmes de guerra que já vi. Uma menina, Ofélia (qualquer semelhança com a Ofélia de Shakespeare não é mera coincidência), é atraída para um labirinto (um lugar feito propositalmente para confundir quem nele penetra). Ali começa seu relacionamento com um fauno cujo caráter não conseguimos determinar num primeiro momento (bom, mau, misericordioso, enganador?).

Certa noite, a realidade da menina (a Espanha de 1944, um padrasto fascista, neurótico e violento, uma mãe que acaba de morrer ao dar à luz) é tão, tão, tão devastadora que, quando o fauno aparece (o fauno agora claramente manipulador e repulsivo), Ofélia se joga em seus braços como quem reencontra um bom pai há muito perdido. Acho essa cena uma das mais pungentes do cinema. Se o fauno fosse um molestador, a menina de 10 anos se jogaria em seus braços do mesmo modo.

Há faunos na vida real. Muitos deles. Nós nos jogamos em seus braços. Nós permitimos, colaboramos, aceitamos que essas criaturas se imponham em nossas vidas e, aí está o mais grave, acreditamos que aquilo que eles nos dão é amor. Nós realmente acreditamos que estamos sendo amadas. Porque também há Ofélias na vida real. Muitas delas.

 

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos “Loucura de Estimação”, “Eu me possuo”, “O diabo que te carregue!”, entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap. www.stellaflorence.net

 

 

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos "Loucura de Estimação", “Os Indecentes”, "Eu me possuo" entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net