Ficar sozinha

Epifania, segundo o dicionário, é uma iluminação divina, um esclarecimento instantâneo, uma compreensão que te atinge como um raio. Bem, eu tive uma epifania ontem e não foi exatamente assim – e, como a epifania é minha, eu a explico como bem quiser.

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Photo by Priscilla Du Preez on Unsplash

 

Epifania, segundo o dicionário, é uma iluminação divina, um esclarecimento instantâneo, uma compreensão que te atinge como um raio. Bem, eu tive uma epifania ontem e não foi exatamente assim – e, como a epifania é minha, eu a explico como bem quiser.

Alguns amigos estavam em casa, havíamos acabado de assistir a um filme. Enquanto eles esperavam o táxi que levaria todos embora (são criaturas conscientes que dividem o táxi após beberem duas garrafas de vinho), eu me sentei em posição de lótus no chão e um amigo, a quem quero muito bem, começou a fazer cafuné em mim. Não havia qualquer intenção lúbrica ali, era apenas afeto.

Sempre considerei comparações do tipo “o que você prefere: sexo ou chocolate?” absolutamente imbecis. No entanto, foi inevitável comparar itens mais próximos: receber cafuné do meu amigo me deu mais estofo emocional do que minhas últimas, sei lá, dez transas. Por um simples detalhe: havia carinho legítimo ali.

Foi então que a epifania desabrochou, coisa que só pôde acontecer por ter ela amadurecido o suficiente dentro de mim. Sacadas realmente profundas não se dão de forma súbita: elas se elaboram por sob a pele, ossos, veias, às vezes por anos a fio. Esses insights parecem pular súbitos e desconexos como rãs de Belleville, contudo não há nada que tenha uma gestação mais longa e estruturada do que uma epifania.

Eis a iluminação que serpenteou até a superfície e eclodiu por conta de um cafuné: eu quero ficar sozinha. Sabe quando você toma um vinho barato por tantas vezes que não sabe mais o que é um vinho de qualidade? Sabe quando você se apaixona e desapaixona tanto que passa a considerar o processo como nada além de uma cansativa pantomima? Não estou dizendo que os homens que tive nos últimos anos não passaram de vinhos baratos, de modo algum: meu afeto por eles é que não foi além de uma cachaça de cadeia, embora eu tenha mentido com muita competência – sobretudo para mim. E agora não há nada que eu precise mais do que ficar sozinha, em silêncio no fundo do mar como ostra a gerar uma pérola: a minha pérola.

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos "Loucura de Estimação", “Os Indecentes”, "Eu me possuo" entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net