Formas-pensamento na minha cama

Capítulo 42 32 – 32 anos, 32 homens, 32 tatuagens - um romance de Stella Florence

stella cama
Photo by Annie Spratt on Unsplash

 

Hoje acordei com nojo da minha cama.

Estou desde as cinco da manhã assistindo a um canal de compras em busca de colchões novos. Os de boa qualidade, com espuma inteligente, tecnologia da NASA, tecido que respira quatro vezes mais, etc, estão bem acima do meu orçamento. Desejo de me endividar não falta: vontade de jogar hoje mesmo minha cama no lixo e assistir, com um lenço a proteger o nariz e a boca, a cada partícula dela se espatifar sob engrenagens vorazes.

Nós somos uns ignorantes científicos: o quanto há para se descobrir? Alguém seria tolo o bastante para refutar ideias sobre um terreno ainda pouco explorado? Dizem que há médiuns que conseguem sentir o que se passou num lugar apenas tocando nas paredes (são chamados psicômetras: eles vêem a memória das coisas); dizem que formas-pensamento se mantém boiando no plano etéreo onde elas foram ou continuam sendo vigorosamente emitidas; dizem que os objetos guardam as vibrações nas quais foram submersos. Asco. Sinto asco ao elencar as miseráveis formas-pensamento que talvez estejam grudadas a minha cama: eu preciso me livrar dela. Ligo para o banco: saldo negativo. Não dá nem pra pensar num rombo maior.

O que eu faço com essa cama nojenta? O quê?

Toda vez que penso na palavra “vizinha” me vem à cabeça a velha sinistra de “O Bebê de Rosemary” trazendo penduricalhos e vitaminas do mal. Sempre morri de medo que alguma vizinha se pusesse a bater na minha porta sem cerimônia, por isso nunca dei sequer meia brecha. Vizinho bom é silencioso, distante, impessoal, se possível inexistente. Mas reconheço: eles têm lá sua serventia.

– Olá, dona Tânia. Será que a senhora pode me alugar o Vaporetto por um dia?  E não é que ela alugou mesmo? Quero dizer, eu supunha que dona Tânia fosse responder “imagina, eu te empresto”, mas não, a japinha mexeu os dedos e revirou os olhos numa simulação de conta e deu o valor: tanto por dia. Eu deveria ter barganhado: eu o usaria, no máximo, por duas horas. Ah, não vale a pena entrar para esse clube.

Arranquei os lençóis, liguei o Vaporetto e enquanto ele esquentava, fiquei ali analisando as vinte cinco mil e quinze manchas num colchão de casal com apenas quatro anos de uso. Manchas e intenções de limpeza por toda a superfície: eu não sou porca, tentei limpá-las. Rodelas amareladas dos mais diferentes espectros: menstruações, lubrificantes, espermas, vinhos, cremes, salivas. Que nojo!  Uma hora depois, a superfície era outra: sobraram apenas algumas marcas sutilíssimas. O mais importante é que aquelas crostas imundas, crostas visíveis foram varridas com vapor d’água em temperatura altíssima. Não quero que nada sobreviva aqui, nada.

Minha memória já é nódoa suficiente.    

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos "Loucura de Estimação", “Os Indecentes”, "Eu me possuo" entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net