Forrar o fundo do saquinho ou transbordar

Eu tinha um saquinho sentimental, onde guardei com muito cuidado cada caco, pedaço e migalha de qualquer demonstração de carinho que recebi num relacionamento. Guardei, por muito tempo, pensando que ali eu tinha um grande tesouro.

transbordar

Eu tinha um saquinho sentimental, onde guardei com muito cuidado cada caco, pedaço e migalha de qualquer demonstração de carinho que recebi num relacionamento. Guardei, por muito tempo, pensando que ali eu tinha um grande tesouro. Confesso que na época, achava que eram grandes manifestações de amor já que, poxa o cara tá se soltando, ele sofreu, vamos entender o rapaz, não é mesmo? Olha, não. Não mesmo. Mas é culpa de alguém? Também não. 

Tenho essa mania de ver sempre o lado bom das situações, das pessoas. O cara tem sim o seu lado bom. Porém, este lado não era voltado para mim. O lado que me dizia respeito era restrito, frio, cheio de limites, além dele construir uma barreira “anti eu” a cada vez que se via aberto a mim. Não foi de uma hora pra outra: foi um processo no qual eu mesma fiz vista grossa para oque no fundo eu sentia que estava acontecendo. Eu não dizia nada, não queria cobrar qualquer tipo de atenção e assim fui levando pois achava alguma vantagem em também não ser cobrada de nada. O relacionamento estava baseado na falta e demorei muito para perceber que o meu sincero sentimento era de que eu queria uma presença. Se não física, uma presença emocionalmente afagante. 

Era descolado, era solto. Mas o pouco foi virando quase nada.  E as migalhinhas ali, formando um finíssimo caminho entre nós dois. E eu lá, com uma grande lupa, na minha cegueira, percorrendo e farejando qualquer piscadela de atenção. Ora, veja bem. Oque juntei em pouco mais de um ano não forrou o fundo do meu saquinho. 

Meus questionamentos vieram à tona e eu não tinha como – e nem queria – fugir deles. Quando tive o ímpeto de colocar tudo às claras sobre a mesa, me dei conta de que nada mais valeria a pena, pois eu já tinha todas as conclusões dentro de mim. Já havia entendido toda a dinâmica desse mecanismo ao qual eu estava fazendo parte como uma das engrenagens. Me vi de joelhos, me sentindo sem valor algum. Abri meu bloco de anotações, escrevi, escrevi, escrevi… depois iniciei uma nova série de pinturas, com um roteiro passando pela fase final dessas conclusões. Chorei, encontrei amigos, ouvi música, assisti filmes, me embebedei…

… E o que há de bom nisso? O bom é que acabou. 

Vamos transbordar!

Conheça mais do trabalho da artista plástica Camila Morita

Link do trabalho www.flickr.com/camilamorita

Instagram: @moritacamila

Camila Morita é formada em Arquitetura e Cenografia e dedica-se à ilustração e pintura desde 2007. Sua obra passa por várias fases e representa cada circunstância marcante em sua vida, resultando em séries intimistas e com um plano de fundo onírico. Para complementar estes grafismos, utiliza de textos para concluir e reorganizar os próprios pensamentos e devaneios.