Eu fui traída tantas vezes que perdi a conta.

Uma história de traição e clichês.

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Eu fui traída. Fui traída tanto que até o meu dedinho do pé se sentiu traído. Não tenho vergonha de confessar. Todos sabem que ele me traiu. Acho que até a vizinha da amiga da minha tia sabe. É que eu contava pra todo mundo. Todo mundo!

Até o cara da loja de eletrônicos para quem eu contei a história tentando convencê-lo a trocar meu tablet quebrado porque foi um presente dele e ele comprou quando viajou escondido com sua amante. Chorei de verdade.  Eu ganhei um IPad novinho. Valeu a pena.

Eu contava quando queria que sentissem pena de mim. Eu contava quando queria que sentissem raiva dele. Eu contava pra encerrar aquela conversa chata que começa com: mas quem terminou o casamento?

Eu respondia já virando as costas. “Bem, eu. Mas ele ajudou arranjando uma namorada por alguns anos.” Ninguém ousava estender a conversa.
Contei rindo. Contei chorando. Repeti um milhão de vezes. Acho que estava a todo tempo contando pra mim mesma, pra tentar entender minha reação. Porque não reagi como a maioria me disse que eu deveria ter reagido.

A verdade é que eu sabia. Eu sempre soube. E coitada dela se achou que foi a única. Ele tinha a amante da amante. Era normal. E por muito tempo eu não me importei.
A maioria das pessoas acha que aceitar isso é falta de amor próprio. Não era. Pelo menos não no meu caso. Eu aceitei. Como um vicio. Pronto, é isso. Pra mim era como se ele fumasse. Amantes eram sua nicotina. Tá. Nem sempre era assim tão simples.

Tentei entender. Tentei reagir. Tentei me sentir humilhada. Tentei odiar os dois.

Mas a verdade é que quando aceitei que nosso casamento tinha chegado ao fim, eu já não me importava com nada. Nem com ela. E nem com ele.
Se engana quem pensa que estávamos em crise. Que eu não me cuidava mais. Que eu não era uma boa esposa. Ou qualquer uma dessas desculpas tolas que as pessoas dão quando traem ou são traídas. Ou quando julgam quem foi.

Nós éramos felizes, e talvez por isso eu aceitei o cigarro ocasional. Não atrapalhava nosso enorme amor.
Bom. Mas finalmente eu reconheci. Eu fui traída. E cansei de não me importar. E mandei ele embora.
Mas e agora?

O que pensar, o que sentir? Como eu posso sair dessa igual a como entrei?
Não podia.

Eu mudei. Mudei muito. Mas não sei bem como. Nem se mudei pra melhor.

Na tentativa de entender, até caminhei pelo outro lado. Fui amante. Me apaixonei por um cara. Descobri que ele era casado. Tentei entender o que faz essas mulheres dormirem tranquilas à noite, só porque estão “agindo como manda o coração.” Mas não era pra mim. Eu não consegui deitar minha cabeça no travesseiro e dormir com minha paixãozinha adolescente e inconsequente. Tentei me convencer de que ele tinha um casamento ruim e que estava apaixonado por mim. Que ficava com ela por causa dos filhos, da vida que construíram juntos. Não deu. Essa coleção de clichês não me convenceram. Fui embora. Não era pra mim. Meu coração não conseguia ser tão tonto, e eu precisava ser capaz de controlar seus impulsos. Escolhas. Consequências… Eu tinha que ser responsável. E fui.

Continuei sem entender como e porque duas pessoas sustentaram aquela mentira por tantos anos. Três pessoas. Porque eu era parte da mentira.
Mas algumas coisas eu conclui.

Entendi quem eu era naquela relação. Eu, meu ex e a amante dele. Nós tínhamos uma relação. E eu era parte dela. Sem mim, eles também não existiam.
Não me senti menor que ela. Não me achei velha, feia ou menos atraente. Não me culpei.
(Ainda não me culpo. )

Eu também não a odeio. Mas não tiro dela a responsabilidade. Não coloco toda a culpa nele. Ela também foi responsável. Eles fizeram isso juntos. Apaixonados ou não. Eles mentiram e enganaram. Juntos.

Eu errei também. Traí também. A mim mesma. Me contentei com pouco, aceitei, egoísta, amar por nós dois. Escolhi me acomodar em uma relação que já não era suficiente pra mim. Acreditei fazer isso por amor.

Mas hoje sei que foi medo. Medo de mudar. Medo de recomeçar. Medo de me olhar no espelho e não saber mais quem era.
Tudo isso aconteceu realmente quando eu mandei ele embora. E foi assustador.

Mas eu recomecei. Já não me contento mais em ser a mulher traída. Não me define. E não quero ninguém sentindo pena de mim.

Então, se me encontrar pela rua e me vir gargalhando alto, provavelmente estava contando a alguém o enorme favor que a amante do meu ex me fez.

Hoje eu tenho o maior amor do mundo. E por mais clichê que possa parecer, esse amor é por mim mesma. Sou uma coleção de clichês. Quero ser feliz.
Quero que eles sejam felizes.
(Mas não tanto quanto eu.)

 

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Clara é escritora, divorciada, mãe, apaixonada, feliz. O seu maior prazer é deixar as palavras brincarem na sua cabeça e assumirem o controle. Recomeça todos os dias, se equilibrando em mágoas e amores.