GOURMET DOS SENTIDOS - O Diário de Verônica Volúpia

O Heitor se separou e, como todo homem recém-separado, ficou deslumbrado com a solteirice repentina.

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O Heitor se separou e, como todo homem recém-separado, ficou deslumbrado com a solteirice repentina. Como um pássaro desnorteado libertado da gaiola, saiu pegando todas, tirando o pé da jaca mole em que o relacionamento com a ex havia se transformado. Ligou-me eufórico, na época, mas eu estava no Nordeste e não pude ajudá-lo a relembrar o quanto as variáveis podem ser tão boas quanto os números absolutos.

As semanas passaram, coisa e tal, e eis que chego em casa hoje e tem um lindo buquê de flores me esperando na portaria. Isso é uma coisa da qual me orgulho: acostumei meus homens a me presentearem com flores. Um agradinho, assim, para início de conversa, para dar um toque romântico ao descompromisso.

É óbvio que sucumbi. Sou uma mulher extremamente fácil especialmente quando o elemento facilitador exala um adorável perfume de rosas e o remetente do ramalhete tem 1,80m de muita vitalidade. Se ele estava com saudades da mais pura sacanagem, eu estava puramente com saudades dele. Casamos a fome com a vontade de comer. Essa é a única proposta de casamento que você pode fazer a um recém-descasado sem colocá-lo a correr uma maratona de distância para longe de você: uma proposta bem indecente. No nosso caso, a iniciativa foi dele, tudo o que eu precisei fazer foi arrebitar a silhueta e assinar embaixo.

O gostoso do Heitor é fissurado no lado “B”: você de bruços e ele entrando pela porta dos fundos, se é que você me entende. O lado “B”, para quem não sabe, é o segundo lado de um disco de vinil que tem tantas faixas boas e toca tão bem quanto o lado “A”, mas como fica relegado a um segundo plano muitas vezes é inexplorado e, por isso, menos conhecido. E tende a se tornar um tabu. Um tabu mais que lamentável, uma verdadeira tristeza: o que poderia ser uma fonte de prazer e felicidade transforma-se num obscuro abismo de neuroses.

Ah, quanta ignorância paira neste mundo. Deixem as bandas tocarem conforme os gostos de cada um. Experimentem na pele para poder ter uma opinião formada. Como dizer que não curte se nunca provou? Limitem o bloqueio psicológico à psiquê e desbloqueiem o físico. Para quê dar mais nós no que já está amarrado?

Quando cheguei ao flat dele, os licores já estavam numa bandeja de vidro. Uvas verdes num lado – ele sabe que adoro uvas verdes – e ele de avental na cozinha, nu, preparando o jantar – ele sabe que eu fico doida quando ele se põe nuzinho só de avental cozinhando para mim. Afe, há quantos anos não nos encontrávamos, que memória o Heitor tem! E que outras coisas memoráveis ele possui: bastou abrir a porta e o peitoral sem camisa saltar por detrás que lembrei de todas as maldadezinhas apetitosas de que esse homem é capaz. Um verdadeiro gourmet dos sentidos. Um banquete de um homem só.

“Oi, gostosa!”, me recebeu com um beijaço animado e uma provinha de um canapé de camarão que estava preparando. “Hum, gato, que delícia!”, estava sublime. “Delícia é você”, me enlaçou e colou-se ao meu corpo. Nossa, quanto tesão à flor da pele. “O casamento te fez bem, hein?”, brinquei. Ele foi rápido: “O que me fez bem foi a separação”, sorriu. Sorrimos.

Na verdade, as duas coisas são complementares. Casar é o fim, separar é o início, apesar de muitas pessoas acharem o contrário. Não deixam de ter razão, se todo fim é um começo. Mas basear-se no casamento ou namoro como o ponto de partida da própria vida é jogar muita responsabilidade nos ombros do parceiro. Você é uma só, sempre foi e sempre vai ser. Se não se sentir completa sozinha, não é o outro que vai fazer isso por você.

O aroma de frutos do mar que exalava da cozinha era algo de outro mundo, uma isca irresistível. “O que você está inventando aí?”, abracei-o por trás, esgueirando minhas mãos maliciosas entre as frestas do avental. Hum. Ele falou da junção dos temperos, da importância de manter o fogo alto, me deu provinhas de molhos na colher de pau e não me pergunte quando nem como nossos ingredientes se mesclaram, ele tempero, eu molho, num caldeirão de beijos-ventosas e braços-polvo e pimenta malagueta e água e sal. A pia imensa virou um arrecife de coral onde me espraiei e ele, faminto e sem dó, cravou seu arpão armado nas profundezas das minhas duas entradas-cavernas, ora na fenda larga e receptiva, ora na fresta estreita e apertadinha, e a noite estava só começando no oceano sem fim daquela cozinha.

Trecho do livro “O DIÁRIO DE VERÔNICA VOLÚPIA”, por Ana Kessler.

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O Diário de Verônica Volúpia – As picantes confidências de uma libertina moderna, ousada, sexy. Sem tabus. livraria.bookstart.com.br
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Ana Kessler é escritora e Coach. Foi editora-chefe dos portais femininos Bolsa de Mulher e Tempo de Mulher, e coordenadora do núcleo de internet do Jornalismo da TV Globo/RJ. É autora das séries "Sensações de Sofia" e "O Diário de Verônica Volúpia", que virou livro. Gaúcha de Porto Alegre, paulistana de coração, é apaixonada pela alma humana e pela filha Ana Bia, de 12 anos, o amor da sua vida. É sócia do EXNAP, cuida da área de Planejamento e Novos Projetos.