Hoje joguei tanta coisa fora...

Hoje decidi que precisava limpar gavetas. O peso do passado que ainda carrego nas costas estava incomodando, e atrapalhando a chegada de um futuro tranquilo.

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Hoje decidi que precisava limpar gavetas. O peso do passado que ainda carrego nas costas estava incomodando, e atrapalhando a chegada de um futuro tranquilo.
Resolvi começar por caixas cheias de estômago embrulhado e borboletas mortas. Joguei mais algumas partes suas fora. Já não restam muitas. Senti um prazer quase infantil ao rasgar suas fotos. Rasguei sorrisos que você jogou fora.
Estou mandando partes de mim pra você. Fotos e memórias. Provas de um amor que já não existe. Não achei justo privar você do gosto amargo entalado na garganta. E nem do tremor nos dedos indecisos. Espero que, como eu, decida rasgar as fotos e amassar as cartas. Espero que sinta um enorme alívio ao ver tudo aquilo que um dia fomos, descansando pacificamente no fundo do lixo do escritório.
Espero que ninguém mais veja. Que você tenha o cuidado de achar um cantinho escondido da casa como se vasculhasse cantos escondidos do seu cérebro. Você certamente não Vai achar necessário. Mas não quero que ninguém perceba o brilho nos seus olhos se apagando mais uma vez.

Os meus chegaram a encher de lágrimas, acredita?! Por um segundo as lembranças boas foram mais fortes que as dores. Durou pouco. Deu tempo pras lágrimas se formarem, mas não tempo suficiente para deixá-las cair.
Mais uma vez escolhi te esquecer.
Você já não é mais a sombra de um amor que deu errado. E já não consigo acreditar que deu certo enquanto durou, ou que valeu a pena. Não formamos um belo casal. Hoje sei que mágoas apagam falsas expectativas românticas.

Eu sonhava que nós, como dois adultos que se amaram um dia, pegaríamos essas caixas cheias de passado, e em meio a risos trôpegos de espumante, lembraríamos todas as nossas boas histórias.
– Lembra aquele dia?
– E quando você disse aquilo?
-Lembra desse lugar?
-E esse amigo que já não vemos há muito tempo?! E essa sua prima? Casou?

Mas nós não somos bons nessa história de sermos adultos.
E você não gosta de espumante.
E o amor que um dia existiu, já foi morto e enterrado. Não devemos incomodar os mortos. Rest In Peace… Melhor assim.
Restou meu sorriso infantil, um fósforo e um cheiro de fumaça. Conheço bem esse cheiro.
Recomeço… Fotos queimadas tem cheiro de recomeço.

 

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Clara é escritora, divorciada, mãe, apaixonada, feliz. O seu maior prazer é deixar as palavras brincarem na sua cabeça e assumirem o controle. Recomeça todos os dias, se equilibrando em mágoas e amores.