HOMEM IOIÔ - Diário de Verônica Volúpia

O que eu sou, eu sei. O que o outro enxerga que sou, bem, isso é problema dele.

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Não sou a pessoa mais indicada para falar de relacionamentos estáveis, os meus duram o tempo de uma relação, digamos, sexual. Às vezes duram um pouco mais, dependendo da gostosura do parceiro, do fator ímã na pele, do transbordar das comportas do desejo, se a pessoa consegue me fazer perder a noção das horas ou me faz sentir cada segundo.

Depende se tem jantinha antes, programinha depois, convidados especiais no intervalo, as variáveis são muitas. Mas mesmo que eu fique um mês inteirinho com uma pessoa, vivo um momento de cada vez. Então, como contabilizar o tempo? Um instante ao lado de alguém que você curte horrores não vale muito mais do que uma vida inteira ao lado de quem não lhe acrescenta em nada?

Tentei explicar meu ponto de vista ao Thomas, mas não consegui evitar que ficasse chateado com a minha recusa ao seu pedido de namoro. Para ele, tudo estava indo tão bem. Juro, para mim também. Então, pra que rótulos? Não é muito melhor beijar na boca do que registrar o beijo em cartório? Onde já se viu precisar de testemunhas para unir dois corpos? Tesão não foi feito para atestar com carimbos, mas pra marcar na pele. Então, não. Simplesmente, não sei casar. Casar com alguém é me separar de mim mesma. Como posso fazer isso se ainda me amo?

Apesar da minha inabilidade em firmar compromissos, uma amiga me pediu um conselho sobre um ex que vai e volta e vem e vai e dá mais voltas do que ioiô em manobras radicais. É um relacionamento estável, instável. Aí, bem, já entra um pouco na minha jurisdição. Não vou analisar o caso em si e sim abordar os porquês dos homens irem e os motivos deles voltarem. Vejam bem, é uma opinião absolutamente baseada nas minhas experiências pessoais, longe de mim dar fórmulas mágicas ou manuais infalíveis. Cada um sabe de si.

Primeiro, o óbvio: um homem vem porque você tem algo que ele deseja. E vai, porque saciou o desejo. Ele vem porque você deixa. E vai, porque você não consegue prendê-lo. Ele vem porque talvez não tenha outra opção. E vai porque talvez tenha. Ele vem porque você diz sim quando deveria dizer “não”. E vai porque você diz “não” quando ele quer que você diga “sim” ou, ainda, diz “sim” quando ele quer que você diga “não”. Está confuso? Vai ficar mais ainda.

Um homem só insiste em vir quando não tem absoluta certeza de que você quer que ele venha. E só vai quando a certeza de que você quer que ele nunca mais saia da sua vida se instala em todos os poros dele. Um homem sempre volta porque tanto faz ele vir: na ótica dele, ele está sempre indo.

Quando me deparo com um homem ioiô, a pergunta que faço é menos “por que ele voltou”, mas “por que eu quero que ele volte”. Às vezes a carência pode inverter o que é realmente importante: o que você tira de bom no relacionamento. Quando alguém está comigo, a última coisa que me questiono é porque essa pessoa me quer. Absolutamente, não me interessa. O que me interessa é o meu umbigo, ou seja, porque eu quero essa pessoa. O que ela tem que me atrai, que me encanta, que me fascina, que me dá vontade de engoli-la por inteiro.

O que eu sou, eu sei. O que o outro enxerga que sou, bem, isso é problema dele. O que eu tenho para oferecer todo mundo sabe e, se não sabe, quando estiver comigo ficará sabendo. Por que um homem volta e vai? Por esses dois motivos. Ele volta porque sabe o que você tem para oferecer. E vai, porque não sabe o que as outras têm. E quer conferir. Minha dica? Tente ser as duas coisas: transparência e mistério. Mas não esqueça: antes de tudo, seja você mesma.

Mas digamos que você esteja apaixonada, sem conseguir raciocinar direito. Ou que a sua autoestima não seja lá essas coisas e esteja no pé. Ou ainda que a fissura no outro esteja fazendo você se esquecer do quão maravilhosa é. Em outra perspectiva, se está se sentindo diminuída ou usada porque o cara vem e vai quando quer e você está sempre ali, receptiva, mas não consegue dizer não porque a química entre vocês é bárbara, você adora o cheiro dele e construiu sonhos que viraram pesadelos, mas são os únicos que você tem, é simples: mude o enfoque. Saia da posição passiva e assuma as rédeas.

Diga não algumas vezes para o seu Ibope subir e ele sentir quem está no comando. Não diga “nãos” categóricos, claro, mas aquelas negativas com vozinha doce e lamento, do tipo, “ah, que coisa, hoje não vou poder, tenho outro compromisso, mas eu te ligo”. Deixe ele ligar uma segunda vez e aceite. Quando estiver próximo à hora do encontro, cancele: “Nossa, só tem hora no meu massagista para hoje, e eu não seria uma boa companhia sem massagem”.

É claro que ele vai oferecer massagem e muito, muito mais. Bom começo. Ao fazê-lo oferecer coisas, primeiro, você baixa a bola dele: só ele já não basta, é preciso que se esforce em te agradar. E segundo, deixará implícito que sexo é uma moeda de troca. E quem dá o preço é você.

Em geral, sou generosamente promíscua, voluptuosamente promíscua, alegremente promíscua, voluntariamente promíscua e quantos mais advérbios couberem antes dessa palavra tão linda e que me define tanto. E não adianta torcer o nariz que, longe de considerar um defeito, considero uma qualidade da qual me orgulho deveras, um verdadeiro autoelogio. Muito melhor estar saudavelmente com vários, feliz da vida, do que com um só por conveniência ou a contragosto. Por isso não sou presa fácil de um homem ioiô. Porque a ioiô, nas minhas histórias, sou eu.

Escolho os meus parceiros por gula. Pego uma lista daqueles que têm a qualidade ou a habilidade que vai saciar a minha fome, e pronto. Não importa se é o Fulano, o Beltrano ou o Cicrano. Todos já foram testados, aprovados e fazem bem pra minha pele. Saio ligando e vendo qual está disponível. Isso me poupa tempo e lágrimas involuntárias. Se um não quer, outro vai querer. Se nenhum puder, não entro em neuras: é uma ótima chance de renovar o estoque, abrir os horizontes, conhecer gente nova. Por isso acho fácil lidar com homens ioiô, porque nem sempre estou a fim do mesmo perfil, nem todo dia sirvo-me de sexo selvagem, nem todo dia gosto de chamego. Eles ficam loucos, mas fazer o quê? Louca seria eu se não fosse fiel a mim mesma.

Um dos esportes que melhor define um homem, na minha opinião, é a corrida com obstáculos. Os obstáculos são todos iguais, da mesma altura. A técnica de pular é sempre a mesma. A força do impulso, idem. O que me fascina? Eles não desistem. Os homens ioiô são como atletas desse tipo. Eles querem superar todos e superar a si próprios. Se você colocar obstáculos aos homens, eles vão querer pulá-los. E que venham os próximos. Eles querem cruzar a linha de chegada e, se você for sempre igual e previsível, não vai ter graça.

Você tem que ser autêntica, mas com graus de dificuldades. Dê uma rasteira no orgulho dele, pareça maior quando ele tentar saltar sobre você. Isso o enerva e fascina. Ele vai cair no chão, recolocar-se no lugar e tentar mais uma vez. Vai se adequar à sua altura, aos seus moldes. Mantenha-se firme, de pé. Se derrubar você, quem perde pontos é ele. Como no ioiô, jogue ele pra longe. Se ele voltar, foi você quem puxou.

 

 

 

*Trecho do livro “O DIÁRIO DE VERÔNICA VOLÚPIA”, por Ana Kessler.

O Diário de Verônica Volúpia
As picantes confidências de uma libertina moderna, ousada, sexy. Sem tabus.
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Ana Kessler é escritora e Coach. Foi editora-chefe dos portais femininos Bolsa de Mulher e Tempo de Mulher, e coordenadora do núcleo de internet do Jornalismo da TV Globo/RJ. É autora das séries "Sensações de Sofia" e "O Diário de Verônica Volúpia", que virou livro. Gaúcha de Porto Alegre, paulistana de coração, é apaixonada pela alma humana e pela filha Ana Bia, de 12 anos, o amor da sua vida. É sócia do EXNAP, cuida da área de Planejamento e Novos Projetos.