Intimidade tem prazo de validade

Acho falta de educação, de senso, de desconfiômetro esse papo de "você não se lembra de mim?" Essa frase, aliás, deveria ser banida do planeta. É pura violência alguém forçar uma intimidade que não existe ou que não existe mais.

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Photo by Annie Spratt on Unsplash

 

Ontem aconteceu uma das coisas que mais detesto. Cinco da tarde, estou mergulhada na construção de um novo livro enquanto minha filha dorme em cima da sua velha ovelha de pano. O telefone toca. Não vou até a sala para olhar no aparelho que tem um identificador de chamadas, apenas atendo rapidamente para não acordá-la.

– Alô.
– Por favor, a Stella está?
– É ela.
– Oi, sabe quem é?
– Não.
– Adivinha.
– Não sei.
– Adivinha, vai!
– Não vou adivinhar. Quem é?
– Ah, será que você já esqueceu minha voz?
– Ou você fala quem é ou eu vou desligar.
– Você não faria isso comigo…

Desligo na mesma hora. Acho falta de educação, de senso, de desconfiômetro esse papo de “você não se lembra de mim?” Essa frase, aliás, deveria ser banida do planeta. É pura violência alguém forçar uma intimidade que não existe ou que não existe mais. Ex-namorados, ex-ficantes, ex-casos-de-uma-noite, ex-amigos não têm o direito de nos abordar com um falso tom íntimo. Se houve uma ruptura, não há mais intimidade.

O telefone toca de novo.

– Alô.
– Você, hein?
– Quem é?
– Não é possível que você não saiba.
– Por favor, diga seu nome ou eu vou desligar.
– Pensa bem, você costumava gostar da minha voz…

Desligo de novo. Que coisa desagradável! O telefone volta a tocar.
– Alô.
– Eu não sabia que o tempo tinha te transformado em uma pessoa mal educada.
– Falta de educação é ligar para os outros e não se identificar.
– Você deve ter namorado muitos homens para não se lembrar da minha voz.
– Pelo visto eu não era muito seletiva.
– Eu pensei que não precisasse me identificar para uma ex-namorada.
– Quem é que está falando, hein?
– Alguém que te conhece bem.
– Conhecia.

Desligo mais uma vez. Gosto de aproximações. Gosto que leitores me escrevam ou venham falar comigo. Gosto que ex legais apareçam para um café. Gosto de reencontrar amigos que não vejo há séculos. Gosto de fazer novos amigos. Basta para isso que eles se identifiquem. É pedir muito?

Triiim. E lá vamos nós de novo.

– Alô.
– Só liguei para dizer que não vou ligar mais, você não merece.
– Que ótimo.
– Estou decepcionado.
– Se eu soubesse quem é você, talvez eu sentisse muito.
– Não vou dizer quem sou eu. Você que fique na curiosidade porque….

Desligo. Levanto da cadeira e vou até a sala olhar no identificador de chamadas. Pego minha agenda velha. Os prefixos se alteraram. Com dez minutos de paciência, já sei quem é. Que coisa feia, rapaz: vá aprender regras de etiqueta e não meta mais ninguém em saia-justa. Ser íntimo tem prazo de validade. E o seu está vencido.

Stella Florence é escritora, autora dos sucessos "Loucura de Estimação", “Os Indecentes”, "Eu me possuo" entre outros livros que tratam do universo feminino. Stella é cronista veterana e parceira do Exnap! www.stellaflorence.net