Loucura de estimação

Stella Florence trata de amores não correspondidos em seu 11º livro.

STELLA FLORENCE por Kriz Knack

“Ler e reler Loucura de Estimação é dar longos passos na direção da força e da lucidez”.

Pablo Diassi


 

Stella Florence, parceira do EXNAP, lança hoje seu mais recente livro, “Loucura de Estimação”, pela editora E-Galáxia. Nele, a autora trata das paixões românticas não correspondidas que se transformaram em verdadeiras torturas. Esse suplício está presente já na capa, em que vemos um objeto que parece um enfeite ou uma joia, mas é, na verdade, um instrumento medieval de tortura.

 

Cronista veterana e dona de um verbo ácido, Stella não economiza verdades ao longo de 51 crônicas, tais como: “Cafajeste é quem sabe desde o início que irá embora, mas não te diz”, ou, “A gente só conhece de fato uma pessoa quando se separa dela”, ou ainda, “A dor que a gente sente quando é abandonada não tem o tamanho do tempo que durou o relacionamento, mas sim o tamanho da esperança acumulada numa vida inteira de busca”. Também não falta em “Loucura de Estimação” a voz altiva da mulher que sabe o seu valor: “Eu me recuso a manter mágoa ou dor ou carinho ou compaixão ou amizade com alguém que não percebeu que tinha um tesouro nas mãos. Um tesouro não se autoproclama: ele é. Aproveita o tesouro quem tem inteligência e sensibilidade: quem não tem, volta, cedo ou tarde, à sua própria miséria”.

 

Nesta entrevista exclusiva para o EXNAP, Stella fala sobre esses amores que nos devoram e o que fazer com eles.

EXNAP: O que é loucura de estimação?

STELLA FLORENCE: É uma paixão imensa não correspondida por uma pessoa da qual não conseguimos nos afastar – o alvo desse sentimento é a loucura de estimação. Existem dois tipos de loucura de estimação: aquela pessoa que não sabe dos sentimentos que provoca, e portanto não tem nenhuma responsabilidade sobre isso, e a que sabe muito bem e se aproveita da situação. No livro eu abordo sobretudo o segundo tipo, o que se aproveita, mas do ponto de vista de quem está apaixonado.

EXNAP: Ao afirmar que há pessoas que se aproveitam das paixões que provocam, você quer dizer que elas têm um objetivo prévio e um método? Trocando em miúdos: há quem faça isso de propósito?

SF: A maioria não faz de propósito, mas acaba se aproveitando quando isso acontece. São aquelas pessoas que sabem da nossa paixão e, apesar de não corresponderem, estimulam esse sentimento.  A partir da consciência de que o outro está muito apaixonado, passa a existir, sim, um método. A loucura de estimação se dá em doses homeopáticas, de tal forma que você continue presa ao seu encanto. Todo o poder que essas pessoas têm reside em se negar, em se dar pouco. A loucura de estimação não te ama, ela ama de te usar. A convivência e a entrega fariam com que o estofo dessa pessoa aparecesse – e provavelmente a gente iria se desapaixonar (e não é isso que ela quer, ela nos quer sob o seu encanto). Então mesmo ficando, namorando ou até casada conosco, ela nunca se entrega, ela se dá pouco e continua no controle.

 

“A loucura de estimação não te ama, ela ama de te usar.” Stella Florence

EXNAP: Parece que estamos falando de uma doença. É isso mesmo?

SF: Sim. Loucura de estimação é uma doença afetiva, um vício que te alimenta e te devora. Apesar de essa criatura não te amar, de ela não te querer e de todos os enganos que você vê, ainda assim, estar sob o seu jugo aflito é o que você mais deseja – porque você está doente. E vale dizer: quem nunca pegou essa febre que atire a primeira pedra.

EXNAP: Existe algo de perverso nessas pessoas?

SF: Claro! Porque quando você sabe que alguém é loucamente apaixonado e você não corresponde a esse sentimento, você se afasta, pelo bem da pessoa. Se não completamente, em parte. Alguns dizem, “ah, mas eu adoro a amizade dela”. Não se afastar nesse momento é egoísmo, é não ter qualquer empatia pela dor do outro. Se a pessoa está doente e nós somos a causa, não importa se a gente adora a companhia dela, é preciso retirar o elemento que causa a doença (ou diminuir sua intensidade). E também deixar claro que você não corresponde aos sentimentos dela, de forma gentil.

“Loucura de estimação é uma doença afetiva, um vício que te alimenta e te devora.” Stella Florence

EXNAP: Você disse que a maioria das loucuras de estimação não causam a paixão de propósito, mas se aproveitam dela. Isso significa que existe uma parcela que tenta causar essa paixão louca no outro de propósito?

SF: Existe, sim. São os abusivos, os golpistas financeiros, os manipuladores exímios (ou manipuladoras, o raciocínio serve para homens ou mulheres). Mas eu falarei sobre isso no meu próximo romance, que deve sair em 2020, no qual estou trabalhando agora.

EXNAP: Já tem título?

SF: Já, sim – mas a gente não pode arrancar o fruto da árvore enquanto ele está verde.

EXNAP: Quem se deixa dominar por uma loucura de estimação não tem culpa também?

SF: Como nas relações abusivas, nesse tipo de relacionamento há dois responsáveis, mas só um culpado (que é a pessoa mal intencionada).

“Nas relações abusivas há dois responsáveis, mas só um culpado.” Stella Florence

EXNAP: Você escolheu um texto de Oscar Wilde como abertura do “Loucura de Estimação”. Por quê?

SF: Escolhi um trecho do “De Profundis”, que é uma longa carta que Oscar Wilde escreveu no cárcere ao seu amante. Vale a pena contar essa história porque ela ilustra perfeita e tragicamente o que é uma loucura de estimação. Alfred Douglas, o amante de Wilde, era jovem, bonito, egoísta e se aproximou do escritor em busca de prestígio e dinheiro. Ele nunca amou Wilde, ele o usou até levá-lo à prisão e à morte. Abandonado por Douglas enquanto esteve preso, Wilde escreve “De Profundis”. O livro-carta parece uma reflexão sobre a dor e a arte, parece uma forma diferente de pensar os Evangelhos, parece um lamento furioso e melancólico de um injustiçado, mas na verdade é o apelo de um amante pedindo à sua loucura de estimação que volte, que escreva, que o machuque, que o engane, que o assombre. Portanto o que destruiu a vida de um dos mais geniais escritores do mundo foi uma loucura de estimação. E essas criaturas destroem Wildes, Anas, Carlas, Pedros, Janaínas, Mários, Danielas, destroem muita gente.

 

EXNAP: Há quem diga que essa paixão estimulou Wilde a escrever “O retrato de Dorian Gray”. Loucuras de estimação não são também grandes estimulantes?

 

SF: Excelente pergunta! “O retrato de Dorian Gray” é uma previsão do que aconteceria na vida do autor. Dorian é um jovem belíssimo, amigo do cínico e perverso Lord Henry, que um dia o apresenta ao um pintor chamado Basil. Basil pinta Dorian e esse retrato passa a envelhecer no lugar dele. Todas as maldades e excessos a que Dorian se entrega passam a ficar gravados apenas no quadro, enquanto ele continua jovem e formoso. Quando perguntavam a Oscar Wilde quem ele era no romance, qual personagem era seu alter-ego, seu outro eu, ele dizia que ele era Basil, o pintor. Basil é o responsável por Dorian ter aquele poder e o que acontece a ele? É assassinado por Dorian. Alfred Douglas, que foi a inspiração para o personagem Dorian Gray, faz exatamente isso com Oscar Wilde. E é aí que a reflexão passa a ser de todos nós. Se para impressionar, seduzir, manter nossas Loucuras de Estimação ao nosso lado nós escrevemos um livro ou mudamos de país ou de profissão ou emagrecemos ou criamos um jardim ou viramos voluntários no Sudão, o que quer que a gente faça, foi graças à nossa capacidade. E se a capacidade nos pertence, ela pode ser posta em ação pela nossa vontade. A gente não precisa do estímulo de uma doença, de uma loucura para realizar coisas incríveis nas nossas vidas. É importante falar isso porque há pessoas que valorizam o sofrimento, a dor, o drama como combustíveis necessários para a produção de obras de arte ou de qualquer outra coisa. Quem escreve bem tem esse talento e não precisa sofrer para que ele se materialize. Ou melhor, não precisa sofrer mais – porque em alguma medida todos sofremos. A grande sacada da vida é criar apenas com talento e vontade, sem a dor a nos impulsionar.

 

“A gente não precisa do estímulo de uma doença, de uma loucura para realizar coisas incríveis nas nossas vidas.” Stella Florence

 

EXNAP: O prefácio do “Loucura de Estimação” é assinado por Daniel Bovolento. Como é a relação de vocês?

 

SF: O Daniel é um amigo e um escritor fantástico! Eu o conheci porque ele era meu fã, veja só. Quando li seus textos fiquei de queixo caído e me ofereci para fazer o prefácio do seu livro de estreia. Então o prefácio delicioso que ele me fez agora é carinho trocado entre amigos e colegas.

 

 

“Se eu pudesse te dar um único conselho, este seria: siga em frente. Não com sua loucura de estimação, mas com este incrível, apaixonante, doloroso, cruel, delicado e verdadeiro livro.” Daniel Bovolento

 

 

EXNAP: Que conselho você daria para quem está envolvida com uma loucura de estimação?

 

SF: Uma das crônicas do livro diz que eu não acredito em amores difíceis – e não acredito mesmo. Luta e amor são palavras que não deveriam estar na mesma frase. Se a luta é causada pelo meu parceiro, se ela não é externa e involuntária, eu a repudio. Meu amor não é incondicional e penso que o de nenhuma mulher por nenhum homem deveria ser, o de nenhum ser humano por outro ser humano deveria ser. Se o amor do outro (ou o que ele chama de amor) te fere, te destroça, te humilha, está claro que um limite foi ultrapassado. E tem, sempre, de haver um limite. Meu conselho é: corte qualquer vínculo com essa criatura e se abra para outros amores ou mesmo para se reestruturar sozinha. Não é nada fácil, eu sei – se fosse, eu não teria escrito um livro inteiro a esse respeito.


 

Informações importantes“Loucura de Estimação” de Stella Florence, crônicas sobre amor e sexo, pela editora E-Galáxia: apenas em e-book na Amazon,  Livraria Cultura e Kobo, Saraiva, Apple e Google Play.


Stella Florence

site: www.stellaflorence.net

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Em uma conversa entre amigas, Ana e Juliana, ambas separadas e Aline, casada, falavam de divórcio e de como esse assunto ainda é visto como um tabu. Existe (acreditem!) muito preconceito e clichês. E só sabe isso quem vive ou viveu um divórcio.